Em “Carta ao Povo de Deus”, bispos alertam para o negacionismo climático e risco de devastação ambiental com Flávio Bolsonaro

Carta assinada por religiosos de diferentes regiões do país, incluindo bispo emérito de Mato Grosso, aponta riscos à proteção ambiental e defende compromisso com a chamada “Casa Comum”

(Montagem: Rede Sucuri / Foto Flávio Bolsonaro: Agência Brasil)

Um grupo de bispos católicos de diferentes regiões do Brasil divulgou uma carta em que critica o fato do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) negar a crise climática e defender a continuidade de políticas de devastação ambiental adotadas durante o governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O documento, divulgado em primeira mão pela Folha de S.Paulo na noite de quinta-feira (22), tem entre os signatários Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso.

O manifesto, intitulado Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, apresenta a proteção do meio ambiente como um dos critérios fundamentais para a escolha do próximo presidente da República. Os religiosos recorrem à Doutrina Social da Igreja e aos ensinamentos do papa Francisco para defender que a preservação ambiental constitui uma responsabilidade ética e religiosa.

“O cuidado com a Ecologia Integral é hoje elemento central da Doutrina Social da Igreja”, afirmam os bispos. Em seguida, citam a encíclica Laudato si’, publicada pelo papa Francisco em 2015, que critica as posturas que dificultam o enfrentamento da crise ambiental, incluindo a negação dos problemas ecológicos e a indiferença diante de suas consequências.

A partir desse entendimento, os signatários fazem críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro, embora não mencionem nominalmente o presidenciável no documento.

“Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso”, afirma a carta.

Os bispos também fazem referência à Lei nº 15.190/2025, que instituiu a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. A legislação, aprovada no ano passado, é chamada pelos religiosos de “Lei da Devastação”, expressão utilizada por organizações ambientalistas que criticam a flexibilização das regras para o licenciamento de empreendimentos potencialmente poluidores.

As críticas ocorrem em meio ao debate sobre as propostas ambientais dos candidatos à Presidência. Segundo reportagem publicada pelo UOL na quinta-feira (22.10), o plano de governo de Flávio Bolsonaro, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não menciona a crise climática nem apresenta metas específicas de redução das emissões de gases de efeito estufa. O documento também prevê o combate ao desmatamento ilegal até 2029, a ampliação de incentivos à preservação ambiental e mudanças na atuação dos órgãos de fiscalização.

Em contraste, os bispos avaliam que a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apesar de também estar sujeita a críticas, demonstrou responsabilidade com a população mais pobre e com a proteção da “Casa Comum”, expressão utilizada pela Igreja Católica para se referir ao planeta e à responsabilidade coletiva de preservá-lo.

Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), é um dos signatários da carta.

“Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirmam.

Embora a questão ambiental tenha destaque no manifesto, o documento também apresenta críticas às posições atribuídas a Flávio Bolsonaro sobre direitos trabalhistas, acesso a armas, soberania nacional e democracia.

Para os signatários, o segundo turno das eleições, marcado para domingo (25), exige um posicionamento dos católicos diante de questões que consideram fundamentais para a sociedade brasileira.

A carta foi divulgada inicialmente com 35 assinaturas, mas permanece aberta a novas adesões. Na manhã desta sexta-feira (23), o número havia chegado a 47 bispos e arcebispos, segundo o portal Poder360.

O manifesto representa um posicionamento dos religiosos que o assinaram, e não uma manifestação institucional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na quarta-feira (21), o Conselho Permanente da entidade divulgou uma mensagem própria em defesa da democracia, dos direitos humanos e da preservação ambiental, sem declarar apoio a qualquer candidato.

Ao final, os bispos convocam os fiéis a participar da votação em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos da Igreja Católica.

Leia na íntegra a carta neste link.

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