Ansiedade infantil e o direito de ser escutado

O SUS e a urgência de ouvir nossas crianças

(Foto: Arquivo Pessoal)

Quando uma criança chega a um serviço público de saúde mental com o rótulo de “ansiosa”, o que estamos realmente escutando?

Estamos diante de um transtorno. Ou diante de infâncias atravessadas por desigualdades, medos, perdas e expectativas que ultrapassam seu tamanho?

A ansiedade é hoje um dos principais fatores de sofrimento psíquico no mundo. Após a pandemia de COVID-19, esse cenário se intensificou, especialmente entre crianças. Escolas fechadas, isolamento social, insegurança econômica, lutos silenciosos. Tudo isso deixou marcas. E essas marcas chegaram aos serviços públicos de saúde mental.

Esse é o contexto da pesquisa que estou desenvolvendo durante o meu mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso, vinculada ao ETHOS – Laboratório de Estudos e Pesquisa em Psicologia Humanista e Fenomenológica, sob a orientação da Profª. Dra. Rosa Angela Cortez de Brito. O objetivo do projeto intitulado “Experiências psicopatológicas de ansiedade em crianças usuárias de CAPSi”, é compreender como crianças atendidas em Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil, os CAPSi, vivenciam a ansiedade. Minha pergunta é simples e profunda ao mesmo tempo: como essas crianças experienciam o que os adultos chamam de “transtorno” ou “doença”?

Os CAPSi fazem parte do Sistema Único de Saúde (SUS). São serviços territoriais, gratuitos, que atendem crianças e adolescentes em sofrimento psíquico intenso. Em um país marcado por desigualdades históricas, o SUS não é apenas uma política pública. Ele é um projeto civilizatório. Ele afirma que cuidado em saúde mental é direito, não privilégio.

Mas o que significa cuidar de uma criança considerada ansiosa?

Historicamente, a ansiedade foi estudada e classificada a partir de manuais diagnósticos. O diagnóstico é importante. Ele organiza o cuidado, garante acesso a benefícios e estrutura políticas públicas. No entanto, quando o rótulo vem antes da escuta, algo se perde.

Em vez de perguntar “qual o diagnóstico?”, decidi perguntar “o que essa criança vive?”.

Realizei encontros clínicos em grupo com seis crianças atendidas no CAPSi em Cuiabá. Não eram entrevistas rígidas. Eram espaços de convivência. Brincamos, conversamos, desenhamos e jogamos. A ansiedade não aparecia como conceito técnico. Ela se revelava no corpo que não parava. Na fala acelerada. No medo de ficar sozinho. No silêncio repentino.

Percebi que a agitação muitas vezes era uma forma de existir. Uma maneira de lidar com um mundo que parece grande demais por dentro. Algumas crianças tinham um comportamento de expansão. Falavam alto, ocupavam o espaço. Outras se retraiam. Evitavam o olhar, encolhiam-se na cadeira. Ambas estavam dizendo algo.

E o que diziam?

Falavam da escola que não acolhe. De famílias sobrecarregadas. De territórios marcados por violência e instabilidade. Falavam, ainda que sem palavras elaboradas, de um mundo que exige desempenho, adaptação e maturidade precoce.

Nos CAPSi, aprendi que a ansiedade na criança não pode ser compreendida isoladamente. Ela é relacional. Está no encontro entre criança, família, escola, território e políticas públicas. Quando uma criança sofre, não é apenas um organismo que adoece. É uma rede que se tensiona.

É por isso que defender o SUS é também defender as infâncias.

O cuidado oferecido nos CAPSi não se limita à prescrição de medicamentos ou à confirmação diagnóstica. Ele envolve equipe multiprofissional, articulação com escolas, assistência social, visitas domiciliares, escuta da família e, principalmente, espaço para a criança existir como sujeito.

Essa perspectiva se aproxima do que chamamos de clínica ampliada. Uma forma de cuidado que ultrapassa a lógica biomédica e reconhece que sofrimento psíquico não é apenas desequilíbrio interno. É também expressão das condições sociais de vida.

Em um país onde tantas crianças vivem em contextos de vulnerabilidade, reduzir a ansiedade a um transtorno individual é uma simplificação perigosa. Pode invisibilizar desigualdades estruturais. Pode deslocar para o indivíduo aquilo que é produzido socialmente.

Minha pesquisa aponta que escutar a criança antes de classificá-la não significa negar o diagnóstico, mas sim recolocá-lo em seu devido lugar. O diagnóstico pode organizar o cuidado, porém não deve substituir a experiência.

A ansiedade, vista de perto, revelou-se como forma singular de estar no mundo. Como corpo em alerta constante. Como tentativa de se proteger. Como busca por reconhecimento.

E aqui está o ponto central. A criança não é um “adulto em formação” que precisa ser ajustado rapidamente aos padrões de normalidade. Ela é sujeito de direitos, conforme afirma o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas também é produtora de sentidos e interpreta o mundo à sua maneira.

Quando o SUS oferece um espaço onde essa criança pode ser escutada, ele está fazendo mais do que atendimento clínico: Ele está produzindo cidadania.

Ao longo da pesquisa, também fui atravessado por essa experiência. Percebi que a ansiedade não estava apenas nas crianças. Ela surgia na relação, no ritmo acelerado dos encontros e na urgência de compreender. Isso me ensinou que cuidar exige disponibilidade para ser afetado.

Em tempos em que políticas públicas são constantemente questionadas e subfinanciadas, reafirmar o valor do SUS é reafirmar o compromisso com a vida, especialmente com a vida das crianças que não teriam acesso a cuidado algum se não fosse a rede pública.

Escutar as crianças em suas diversas infâncias além de ser ato clínico, também é um ato político.

Talvez a pergunta que deve nos orientar não seja apenas: “como tratar a ansiedade infantil?”

Mas sim: que sociedade estamos construindo quando decidimos ouvir ou silenciar nossas crianças?

Victor Angelo Monteiro Lemos é psicólogo e psicoterapeuta humanista-fenomenológico. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso vinculado ao ETHOS – Laboratório de Estudos e Pesquisa em Psicologia Humanista e Fenomenológica. Vencedor do Prêmio Severino Meirelles (2022), da Iniciação Científica da Pró-reitoria de Pesquisa da UFMT, na área das Ciências Humanas.Atua como psicólogo clínico com o público infantojuvenil, adulto e idoso. Contato: psicologovictorlemos@gmail.com. 

Profª Dra. Rosa Angela Cortez de Brito é psicóloga, psicoterapeuta e supervisora clínica, é doutora em Psicologia e especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Federal de Psicologia. Possui formação em Abordagem Centrada na Pessoa e em Clínica Humanista-Fenomenológica. Atua como professora no curso de Psicologia e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMT, campus Cuiabá. Coordena o ETHOS – Laboratório de Estudos e Pesquisa em Psicologia Humanista e Fenomenológica. Contato: rosa.brito@ufmt.br

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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