Com óleo de pequi, pesquisador da UFMT desenvolve filme biodegradável para alimentos

Pesquisa foi premiada na 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pela Fapemat em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

(Foto: Wanessa Barbosa / Montagem: Rede Sucuri)

Um fruto símbolo do Cerrado, conhecido pelo cheiro marcante e pelo sabor que divide opiniões, agora aparece em um lugar improvável: embalagem de alimentos. No Campus Araguaia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o pesquisador Gabriel Bezerra Cardoso desenvolveu um filme biodegradável feito com acetato de celulose e óleo de pequi, capaz de proteger alimentos sensíveis à luz e ainda se degradar em poucos meses no ambiente.

A pesquisa, premiada na 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, parte de uma ideia simples, mas ambiciosa, substituir plásticos convencionais por um material que dialogue com a biodiversidade local. “Eu não escolhi o pequi, quem escolheu foi a minha orientadora”, conta Cardoso. Ao iniciar o mestrado, ele foi direcionado para uma linha de pesquisa que já investigava o fruto, conhecido por sua alta capacidade antioxidante. Outros trabalhos no laboratório já estudavam o pequi, mas a aplicação em uma embalagem biodegradável ativa era inédita.

O diferencial está justamente no conceito de “embalagem ativa”, aquela que não apenas envolve o alimento, mas ajuda a conservar suas propriedades. Por ser rico em compostos antioxidantes, o óleo de pequi atua no combate aos radicais livres, prolongando a vida útil do produto embalado. “O objetivo principal é esse, aumentar o tempo de conservação, especialmente de alimentos mais sensíveis”, afirma.

Chegar à formulação ideal exigiu uma sequência de testes. O grupo avaliou concentrações de 5%, 10%, 20% e 30% de óleo incorporado ao filme. As maiores porcentagens, embora teoricamente mais ativas, apresentaram um problema prático, o óleo não se fixava adequadamente ao material. “Com 20% ou 30%, o óleo acabava ‘saindo’ da embalagem. Com 5% e 10%, ele ficava fixo”, explica. A escolha pelos 10% veio do equilíbrio entre estabilidade e desempenho. “Quanto maior a concentração, maior a atividade da embalagem. O 10% foi o melhor ponto, porque não compromete a estrutura e ainda mantém um bom potencial de proteção.”

Nos testes de aplicação, o filme mostrou capacidade de proteger alimentos fotossensíveis, aqueles que se degradam com facilidade quando expostos à luz. Entre os exemplos citados estão ervas e frutas como coentro, salsinha e lima. A função da embalagem é reduzir a perda de propriedades desses alimentos durante o armazenamento e a comercialização.

Em termos de resistência, o material não fica atrás dos plásticos tradicionais. Ensaios mecânicos avaliaram rigidez, resistência e outras propriedades exigidas para embalagens comerciais. “Ele alcançou valores dentro dos padrões que se exige para uma embalagem plástica”, diz o pesquisador. A principal diferença aparece na durabilidade, e é justamente aí que está o ganho ambiental. Por ser biodegradável, o filme começa a se decompor gradualmente e, em até 180 dias, grande parte do material já está degradada no ambiente.

Para Cardoso, a pesquisa vai além do laboratório e se conecta diretamente com o território. O uso do pequi, fruto abundante no Cerrado, abre caminho para novas cadeias produtivas e para a chamada economia verde. “Isso valoriza os frutos do Cerrado e espalha o conhecimento sobre o pequi e seus potenciais”, afirma. Ele destaca o papel de pequenos agricultores, que poderiam produzir e comercializar o óleo para empresas interessadas em fabricar embalagens biodegradáveis.

“Isso pode gerar renda para a população regional e criar uma alternativa econômica ligada à biodiversidade”, afirma o pesquisador.

Embora o material possa, no futuro, alcançar outros mercados, o setor mais promissor é o de alimentos. “Sem dúvida, a indústria de alimentos é a principal interessada, porque o objetivo da embalagem é prolongar a vida útil”, diz. A combinação entre proteção, desempenho técnico e menor impacto ambiental coloca o filme com óleo de pequi como um candidato real a substituir, ao menos em parte, os plásticos derivados do petróleo.

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