Construção civil precisa adaptar projetos ao clima de Cuiabá e rever modelos importados

Pesquisadora aponta que escolhas arquitetônicas inadequadas e falhas de fiscalização do poder público agravam o fenômeno das ilhas de calor nas cidades.

(Foto: Prefeitura de Cuiabá / Montagem: Rede Sucuri)

Diante do desafio imposto pelas altas temperaturas e pelos eventos climáticos extremos, o setor da construção civil precisa abandonar a replicação de modelos importados e passar a pensar na realidade climática local. O alerta foi feito pela doutora em física ambiental e professora de Arquitetura e Urbanismo da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), Flávia Maria Santos, durante a IV Semana Acadêmica de Engenharia Civil.

O evento, promovido pela universidade em parceria com o Crea-MT (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso), Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) e IEMT (Instituto de Engenharia de Mato Grosso), segue com programação até sexta-feira (17.04) e busca aproximar os estudantes da prática profissional por meio de minicursos, visitas técnicas e palestras.

Professora Flávia Maria, doutora em Física Ambiental (Foto: Safira Campos / Rede Sucuri)

Durante a palestra “Construção Civil e o Desafio na Mitigação de Ilhas de Calor Urbana”, a professora destacou que a malha urbana cria um microclima próprio. A substituição da cobertura vegetal por asfalto e concreto gera ilhas de calor severas, com diferenças térmicas que chegam a 8°C entre o centro impermeabilizado e áreas adjacentes a parques urbanos. Ignorar essa dinâmica na prancheta de projetos resulta em ambientes inóspitos.

“Quando pensamos numa edificação, a primeira coisa é que ela tem que ser um abrigo. Não faz sentido estar num local que está numa situação térmica pior do que a de lá fora”, afirma a pesquisadora.

Essa inadequação arquitetônica tem impacto direto e grave na saúde pública, especialmente para a população de baixa renda. A professora alerta que o maior risco não está apenas nos picos de calor durante o dia, mas na elevação das temperaturas mínimas registradas à noite.

“A mínima alta é preocupante. É ela que mexe com a pressão arterial e gera casos de AVC, porque o corpo realmente não descansa. Se a pessoa está numa casa com telha de fibrocimento, que se aqueceu o dia todo, e não tem ar-condicionado ou ventilador, ela tem a saúde afetada”, explica a professora.

A arquitetura como mitigação

Para uma cidade com as características bioclimáticas de Cuiabá, a física ambiental aponta que a eficiência térmica começa nas escolhas básicas de materiais. A professora desmistificou tendências estéticas que são prejudiciais na região, como fachadas inteiras de vidro (que geram efeito estufa interno), lajes impermeabilizadas expostas sem telhado e pinturas de cores escuras.

Vidros, cores escuras e platibandas (faixa vertical na borda superior das paredes, servindo para esconder o telhado) são opções a serem repensadas em cidades quentes como Cuiabá. (Imagem: Reprodução)

De acordo com Flávia Maria, o albedo (capacidade de reflexão) da fachada e, principalmente, do telhado tem grande impacto. Uma parede externa pintada de branco pode registrar temperatura superficial de 40°C, enquanto uma de cor escura, sob as mesmas condições, chega a bater 80°C.

“O ideal para a gente é pintar a cobertura de branco. Acontece muito de deixarmos o telhado por último, optando pela platibanda com laje impermeabilizada para esconder o telhado, mas para o nosso clima isso não funciona. É a cobertura que fica o maior tempo recebendo a radiação solar”, ensina.

Em relação à ventilação, a estratégia para o clima local contraria o instinto de muita gente: as janelas devem permanecer fechadas durante os picos de calor do dia para bloquear a entrada do ar quente externo, sendo abertas no período noturno. Além disso, as aberturas devem ser projetadas de forma controlada (representando de 10% a 15% da área do piso) e precisam estar sombreadas.

O papel do poder público 

Para a professora, a mitigação climática esbarra frequentemente em gargalos econômicos e na falta de fiscalização do poder público. Embora legislações como o Plano Diretor prevejam taxas de permeabilidade e exigências de arborização, na prática, é comum que terrenos sejam totalmente concretados pelos proprietários após a aprovação inicial dos projetos.

No âmbito da habitação de interesse social, a pesquisadora reconhece que houve avanços institucionais, como a exigência de certificações de sustentabilidade na Caixa Econômica Federal. Contudo, a lógica do ganho de escala ainda sacrifica a qualidade térmica dos loteamentos.

“Pega-se uma área com vegetação e, quanto mais casas conseguir colocar, melhor. Atende-se mais gente, mas a vegetação é retirada e a construção é feita sem o cuidado pós-ocupação”, pontua.

Para tentar reduzir o impacto na população mais vulnerável, Flávia defende a expansão de projetos de extensão universitária voltados à assessoria técnica gratuita.

“Grande parte da população não tem condição de pagar um arquiteto ou um engenheiro. Mas uma orientação técnica simples da universidade, como pintar uma telha de fibrocimento de branco ou garantir um sombreamento, já melhora a situação”, defende a especialista. “Temos opções e materiais que evoluíram. O verdadeiro desafio é utilizar a tecnologia de forma adequada e projetar com o clima, não contra ele”.

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