
A poda drástica de árvores deixou de ser exceção e passou a fazer parte da paisagem urbana de Cuiabá. Para Silvia Mara Martins, advogada e presidente da Associação Cuiabá Mais Verde, a prática aponta para uma lógica de improviso, falta de planejamento e ausência de prioridade política na gestão ambiental da capital.
No último ano, a associação protocolou uma representação no Ministério Público de Mato Grosso em que acusava a Prefeitura de manter um “quadro grave, reiterado e estrutural” de falhas na política de arborização urbana de Cuiabá. Em entrevista à Rede Sucuri, ela fala sobre autorizações frágeis, compensações simbólicas, omissão do poder público e o papel da sociedade diante da degradação ambiental urbana.

Rede Sucuri: A associação sempre denuncia casos de poda drástica. A mais recente foi em frente à base da PM. Esse é um padrão de intervenção frequente em Cuiabá?
Silvia Mara Martins: Sim. A poda drástica se consolidou como padrão recorrente em Cuiabá, não como exceção. O caso da base da Polícia Militar é emblemático porque expõe uma prática que se repete em vários bairros e avenidas. Em muitos casos, essas intervenções têm autorização formal, o que torna o cenário ainda mais grave. O problema não é apenas a poda, mas a lógica de gestão que permite autorizações agressivas sem projeto técnico consistente, sem fiscalização adequada e sem definição clara de compensação ambiental.
Rede Sucuri: Vocês sempre recebem denúncias desse tipo?
Silvia Mara Martins: Recebemos com muita frequência. As denúncias vêm de moradores, comerciantes e trabalhadores que presenciam a intervenção ou registram o dano depois de consumado. Isso revela a recorrência do problema e uma cultura que ainda trata a poda drástica como algo “normal”. Essa naturalização está ligada, sobretudo, ao conflito mal resolvido entre árvores e a rede aérea de energia, em que a solução quase sempre é cortar a árvore, em vez de planejar a cidade.
Rede Sucuri: Quem hoje deveria ser o principal responsável por impedir que uma poda irregular aconteça antes de virar infração consumada?
Silvia Mara Martins: O principal responsável é o Município. Isso depende de planejamento, autorização responsável e fiscalização preventiva. Intervenção em árvore urbana não pode ser um ato isolado. Precisa de critério técnico, responsável habilitado e acompanhamento da execução. Quando há terceirização, a responsabilidade do poder público é ainda maior. Além disso, o Ministério Público tem papel fundamental na fiscalização e no controle dessas práticas.
Rede Sucuri: Muitas pessoas ainda veem poda drástica como algo “normal”. Do ponto de vista técnico e ambiental, quais são os principais danos desse tipo de intervenção?
Silvia Mara Martins: Poda drástica não é manejo, é mutilação. Ela enfraquece a árvore, reduz sua vida útil, altera sua estrutura e aumenta o risco de quedas futuras. Do ponto de vista urbano, o impacto é imediato: perde-se sombra, conforto térmico e qualidade ambiental. Em uma cidade quente como Cuiabá, isso agrava o desconforto térmico e vai na contramão do enfrentamento à crise climática.

Rede Sucuri: O que muda para a cidade quando não há um plano diretor de arborização em execução?
Silvia Mara Martins: Sem plano em execução, não existe política pública, existe improviso. A cidade passa a operar por ações isoladas, sem metas, critérios ou continuidade. A arborização deixa de ser tratada como infraestrutura urbana e vira paisagismo pontual, que rende foto e discurso, mas não transforma a cidade. O plano não resolve tudo sozinho, mas é o ponto de partida para organizar a gestão e permitir cobrança por resultados.
Rede Sucuri: Na sua avaliação, falta vontade política, estrutura técnica ou prioridade orçamentária para a arborização urbana em Cuiabá?
Silvia Mara Martins: É um conjunto, mas o problema central é a falta de prioridade política. Quando o tema não é prioridade, não há equipe técnica estruturada, orçamento contínuo nem governança entre secretarias. O atual prefeito assumiu compromisso público com a execução do Plano Diretor de Arborização Urbana, houve reuniões e termos assinados, inclusive com o Ministério Público, e nenhum prazo foi cumprido. Isso é um dado objetivo.
Rede Sucuri: Qual o papel da sociedade nesse processo? Denunciar é suficiente ou é preciso ir além?
Silvia Mara Martins: Denunciar é necessário, mas não suficiente. A denúncia funciona como um alarme. O que muda a realidade é pressão contínua por política pública, transparência e responsabilização. A sociedade precisa cobrar respostas técnicas, exigir compensações ambientais reais, cobrar integração entre as secretarias e também o Legislativo, que deveria fiscalizar e exigir a execução do Plano Diretor de Arborização Urbana.

