
O documentário “Capim”, que acompanha a trajetória de resistência do povo Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé, terá sua primeira exibição em Cuiabá nesta terça-feira (10), às 19h30, em sessão especial do 4º Box de Curtas, no Cine Teatro Cuiabá. A obra integra a programação com produções de realizadores de Mato Grosso e aposta em uma narrativa ambiental e política construída a partir da voz direta das lideranças indígenas.
Dirigido pela jornalista Julia Munhoz e pelo cineasta Caio Pimenta, o curta retrata as lutas históricas do povo Xavante pela retomada de seu território após a expulsão durante a ditadura militar, além dos desafios contemporâneos relacionados à segurança alimentar, saúde e permanência na terra.
Segundo Julia, o filme nasceu da percepção de que a história exigia uma abordagem mais ampla do que a inicialmente planejada. “Capim narra a trajetória de lutas e conflitos do povo Xavante da Terra Indígena de Marãiwatsédé. É um povo que foi retirado de sua terra e lutou anos para retomá-la, mas a luta não se findou com a volta ao território”, afirma.
A origem do projeto remonta a uma série de reportagens realizadas em 2022, quando a diretora visitou a terra indígena para produzir conteúdo jornalístico. “Na época, percebi que o formato em áudio seria insuficiente. Aquela história precisava de mais espaço para ser contada”, diz. A partir daí, ela convidou Pimenta para expandir a cobertura audiovisual, que posteriormente se transformaria no documentário.

Para o diretor, a decisão de transformar o material em filme surgiu ainda durante o retorno da primeira viagem à aldeia. “A gente sentiu a necessidade de colocar eles falando sobre os próprios problemas. Na mídia, muitas vezes a narrativa aparece intermediada; queríamos que eles contassem a história pelo ponto de vista deles”, afirma.
O resultado é uma obra em que as lideranças Xavante falam em sua língua nativa, com legendas, estratégia que reforça o protagonismo indígena e, ao mesmo tempo, expõe desafios técnicos e narrativos. “Muitos caciques e cacicas se expressam na língua xavante. Tivemos tradução simultânea nas gravações, mas parte do entendimento só aconteceu plenamente na fase de legendagem”, relata Julia.
A construção da confiança com a comunidade foi um processo gradual. O primeiro contato ocorreu a partir de um convite das próprias lideranças, interessadas em apresentar sua versão sobre conflitos envolvendo a gestão local da Funai à época. “Como jornalista, meu papel era ouvir todos os lados. Criar esse espaço de escuta ética foi fundamental para estabelecer a relação”, afirma a diretora.
Pimenta destaca que a abertura da comunidade influenciou diretamente a abordagem do filme. “Eles queriam ser ouvidos. Desde a primeira visita, faziam questão de nos mostrar a aldeia inteira, casa por casa. Isso deixou claro que havia uma necessidade de contar a história do jeito deles.”
Filmado em duas viagens à terra indígena, em 2022 e 2025, o documentário busca contextualizar as disputas territoriais em Marãiwatsédé, região marcada por conflitos fundiários e pressões ambientais ao longo das últimas décadas. Ao priorizar relatos diretos das lideranças, a obra busca conectar questões históricas a desafios contemporâneos enfrentados pelos povos indígenas, tema central nas discussões sobre conservação ambiental e direitos territoriais no Brasil.

Produzido a partir de recursos da Lei Paulo Gustavo, o filme é uma iniciativa da produtora Paralelo 15 Filmes. Além da direção de Munhoz e Pimenta, o roteiro é assinado pelos dois ao lado de Severino Neto. A produção executiva é de Bárbara Varela e Carla Pial, com direção de fotografia de Caio Pimenta e Paul Mark, som direto de Matheus Campione e montagem de Marcos Maia.
A exibição no Box de Curtas marca a estreia pública da obra. Após a sessão em Cuiabá, os realizadores pretendem inscrever o documentário em festivais, e ainda não há previsão para lançamento online. “Essa mostra funciona quase como uma pré-estreia. Depois, a ideia é inserir o filme no circuito de festivais”, afirma Pimenta.
O 4º Box de Curtas é uma iniciativa da Paralelo 15 Filmes e financiado pela Lei Paulo Gustavo, com recursos da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Cuiabá e da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso.

