
Entidades ligadas à defesa do meio ambiente e dos direitos dos povos tradicionais têm divulgado cartas abertas, notas públicas e manifestos sobre os riscos que associam ao resultado do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. As manifestações ganharam força após a votação do dia 4, que colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo Palácio do Planalto. Enquanto algumas organizações declararam apoio explícito à reeleição de Lula, outras fizeram alertas sobre possíveis retrocessos com a eventual volta de um governo Bolsonaro.
Uma das manifestações mais recentes partiu da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional), que publicou, na terça-feira (13), uma carta aberta dirigida aos profissionais do setor. O documento relembra episódios de enfraquecimento da fiscalização ambiental durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) e questiona propostas apresentadas pelo filho do ex-presidente.
Entre as preocupações estão a proposta de eliminar sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio, mudanças no licenciamento ambiental e a promessa de redução da estrutura administrativa federal. Para a associação, as medidas podem comprometer o funcionamento dos órgãos responsáveis pela proteção ambiental. O documento também recorda que, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia perdeu 45.586 km² de floresta entre 2019 e 2022.
“Não queremos mais um dia do Fogo ou a destruição do Pantanal, como no desgoverno Bolsonaro”, afirma a entidade. Ao final, a Ascema pede que os servidores analisem os planos de governo e conversem com familiares e amigos sobre as possíveis consequências da eleição de Flávio Bolsonaro.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) também se manifestou, em nota publicada no dia 5 de outubro. Para a organização, o resultado do primeiro turno fortaleceu setores políticos que atuam contra os direitos indígenas e a proteção ambiental no Congresso Nacional. O Cimi defende a mobilização dos eleitores, especialmente daqueles que não compareceram às urnas, para impedir o retorno do bolsonarismo ao governo federal.
Outra manifestação foi divulgada no dia 9 pela Aliança em Defesa dos Territórios, articulação dos povos indígenas Kayapó, Yanomami e Munduruku. Em carta aberta à sociedade brasileira, as lideranças denunciam ameaças de garimpeiros após o primeiro turno e alertam que uma eventual mudança de governo pode intensificar as invasões de terras indígenas.
“Ter na liderança do país alguém abertamente contra as nossas vidas vai, sem dúvida, intensificar ataques que nunca deixamos de enfrentar”, afirmam. O documento relembra a expansão do garimpo ilegal durante o governo anterior e os impactos da atividade sobre a saúde indígena, incluindo a contaminação por mercúrio e a destruição de rios e florestas.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) adotou uma posição mais explícita. Em nota publicada no dia 9, intitulada Terra e Democracia: É preciso Viver!, a organização convocou movimentos populares, comunidades tradicionais e cidadãos a votarem em Lula. A entidade relaciona a disputa presidencial à continuidade das políticas de reforma agrária, proteção dos territórios e garantia dos direitos sociais.
A mobilização também alcançou instituições científicas. Em carta conjunta divulgada em outubro, organizações como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) declararam apoio à reeleição de Lula. O documento defende investimentos em pesquisa, educação, transição ecológica e enfrentamento da emergência climática.
Manifestações começaram antes do primeiro turno
A mobilização de organizações socioambientais em torno das eleições presidenciais não começou após a definição do segundo turno. Ainda em setembro, a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) declarou apoio à reeleição de Lula, associando a decisão à defesa da democracia, da justiça climática, da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis.
Também antes da primeira votação, 60 mulheres Yanomami, representantes de 30 comunidades, elaboraram um manifesto contra a candidatura de Flávio Bolsonaro. Reunidas no final de setembro, as lideranças recordaram as consequências da crise humanitária enfrentada durante o governo de Jair Bolsonaro, marcada pelo avanço do garimpo, pela desnutrição e pela disseminação de doenças. O posicionamento, divulgado pela Repórter Brasil em 8 de outubro, também declarou apoio a Lula.
Em abril, durante o Acampamento Terra Livre, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) já havia anunciado apoio à reeleição do presidente. A manifestação, entretanto, não representou um alinhamento sem ressalvas. Na carta Nosso apoio demanda compromisso, a organização cobrou avanços na demarcação de terras indígenas, no combate às mudanças climáticas e na participação dos povos originários nas decisões governamentais.
O Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) também publicou, em setembro, uma mensagem voltada às eleições. Sem declarar apoio partidário, a organização defendeu a participação popular e chamou atenção para os impactos de empreendimentos de mineração, petróleo e energia sobre os territórios de comunidades pesqueiras tradicionais.

