Índice inédito mapeia cidades de MT onde saúde e ambiente estão mais vulneráveis à expansão rural

Indicador criado por pesquisadores da UFMT aponta sobreposição de desmatamento, uso de agrotóxicos e agravos à saúde, como câncer infantojuvenil e malformações congênitas.

(Mapa: Autores do artigo “Índice de território saudável e sustentável rural: uma proposta de vigilância em saúde, ambiente e trabalho / Montagem: Rede Sucuri)

Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional criou um índice inédito para medir os efeitos do modelo de desenvolvimento rural no estado e identificou 34 municípios mato-grossenses com maior concentração de impactos ambientais, sociais e sanitários associados à expansão do agronegócio no estado.

O trabalho propõe o Índice Municipal de Território Saudável e Sustentável Rural (I-TSSR), que reúne indicadores de uso da terra, desmatamento, queimadas, perda de recursos hídricos, estrutura fundiária, uso de agrotóxicos e dados de saúde pública. A análise considera informações de 1990 a 2022 e abrange 141 municípios. Confira o artigo na íntegra neste link.

“O índice foi pensado para integrar informações que normalmente aparecem separadas, permitindo uma leitura mais ampla do território”, afirmou a pesquisadora Mariana Rosa Soares, uma das autoras do estudo, à Rede Sucuri.

Segundo os resultados, os municípios com pontuações mais altas, que indicam maior sobreposição de impactos, estão concentrados principalmente nas regiões Oeste, Médio Norte, Nordeste e Sul de Mato Grosso, áreas marcadas pela expansão da soja e pelo uso intensivo de insumos químicos.

Mariana Soares é doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT e a autora principal do estudo que propõe o I-TSSR (Foto: Arquivo Pessoal)

Nesses territórios, o índice aponta maior ocorrência de intoxicações por agrotóxicos, acidentes de trabalho, malformações congênitas e câncer infantojuvenil, além de indicadores ambientais mais críticos, como desmatamento acumulado, queimadas recorrentes e redução da superfície hídrica.

Como destaca o levantamento, entre 1990 e 2020, Mato Grosso respondeu por cerca de 21% do desmatamento registrado no Brasil e por quase um quarto de toda a área queimada no país. No mesmo período, o estado perdeu mais de 630 mil hectares de superfície de água, com destaque para municípios do Pantanal.

“O que o índice permite observar é a coincidência espacial entre determinadas formas de uso do território e a ocorrência de agravos à saúde”, diz Mariana. Ela ressalta que o estudo não estabelece relações de causa e efeito individuais, mas identifica padrões territoriais que merecem atenção do poder público.

Entre os indicadores analisados, chamam atenção as taxas de câncer em crianças e adolescentes, que atingem patamares elevados em parte dos municípios do Médio Norte, e a prevalência de malformações congênitas, mais frequente no sul do estado. O estudo também aponta altas taxas de acidentes de trabalho em municípios distantes da capital e em regiões de fronteira.

O índice inclui ainda dados sobre a estrutura fundiária e mostra que, em muitos municípios, a agricultura familiar ocupa menos de 5% da área agrícola, enquanto grandes extensões são destinadas ao cultivo de commodities, sobretudo soja.

Segundo a pesquisadora, o objetivo do trabalho é oferecer uma ferramenta que ajude a orientar políticas públicas.

“A ideia é que esse tipo de indicador possa apoiar ações de vigilância em saúde e planejamento intersetorial, especialmente em regiões de intensa atividade do agronegócio”, afirma.

Os autores destacam que o estudo utiliza dados secundários e que parte dos agravos analisados pode estar subnotificada, o que exige cautela na interpretação dos resultados. Ainda assim, avaliam que o índice contribui para ampliar o debate sobre desenvolvimento, saúde e sustentabilidade em Mato Grosso.

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