
Com o Brasil batendo sucessivos recordes de desastres relacionados a chuvas, 1.161 eventos em 2023 e 3.620 alertas emitidos apenas em 2024, segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), pesquisadores e empreendedores têm buscado alternativas de drenagem para mitigar alagamentos, enxurradas e perdas humanas e econômicas.
Entre 2013 e 2024, os prejuízos provocados por desastres naturais somaram R$ 732,2 bilhões nos municípios brasileiros, de acordo com a Confederação Nacional dos Municípios. A crise, cada vez mais frequente nas cidades, impulsiona soluções baseadas na natureza.
Uma delas vem do Norte de Mato Grosso, do escritório Arquiviva. A arquiteta Ana Paula Montecelli Cavalcante, especialista em cidades e construções sustentáveis, desenvolveu um modelo de jardins de chuva, que são estruturas de biorretenção usadas para infiltrar água no solo e reduzir o volume de escoamento em áreas urbanas. A proposta, hoje incubada em programas de inovação em Lucas do Rio Verde e Sinop, prevê que municípios e empreendimentos privados adotem canteiros drenantes capazes de tratar a água da chuva antes que ela retorne ao subsolo.

Segundo estudos realizados por Ana Paula em sua pós-graduação e aplicados no projeto-piloto, a técnica pode diminuir em até 90% o volume que escorre sobre ruas e calçadas. O cálculo leva em conta séries históricas de precipitação, dados do Inmet e taxas de evaporação e evapotranspiração das espécies vegetais escolhidas para compor os canteiros, além da análise do solo. “É uma solução validada por equações desenvolvidas pela Embrapa. Com os dados da região, conseguimos saber se é viável ou não implantar o jardim”.
A abordagem se insere no conjunto de práticas internacionalmente conhecidas como SUDS/LID, que são sistemas urbanos de drenagem sustentável. Na prática, o jardim de chuva ocupa um canteiro já existente na calçada. A equipe cava cerca de um metro de profundidade, medida adaptada ao Norte do Estado, onde o lençol freático é raso, e substitui o solo compactado por camadas drenantes, compostas por pedra e areia grossa. Esse filtro natural permite que a água infiltre e seja devolvida ao subsolo “limpa”, após passar pelas camadas de agregados e pela terra orgânica onde ficam as plantas.
“É uma estrutura que integra drenagem e paisagem. Além de reduzir enchentes, melhora o visual da rua, favorece biodiversidade e ainda contribui para captar carbono”, diz Ana Paula.
Escalabilidade depende de estudo regional

Embora o modelo seja facilmente replicável, cada cidade exige um novo diagnóstico, já que tipos de solo, intensidade de chuva e profundidade do lençol freático variam. Hoje, a equipe já testou a viabilidade em municípios como Lucas do Rio Verde, Sorriso, Sinop e Nova Mutum. A meta é digitalizar essas análises, que ainda são feitas manualmente em planilhas, e criar um sistema próprio capaz de compilar dados climáticos e hidrológicos.
A proposta mira principalmente prefeituras, por serem responsáveis pela infraestrutura urbana e por poderem criar incentivos fiscais para que loteamentos adotem soluções sustentáveis. “Quando a prefeitura compra a ideia, ela também facilita que os novos empreendimentos recebam desconto no IPTU ao implementar jardins de chuva. É uma forma de a cidade inteira se engajar”, afirma.
Mas o setor privado também está no radar: condomínios, loteadoras e empresas com metas ESG podem adotar a solução como parte de projetos de revitalização ou adequação ambiental.
Avanço tardio, mas urgente
Com prejuízos de R$ 25 bilhões somente em 2023 por desastres naturais e 74 mil desabrigados nesse mesmo ano, soluções de drenagem sustentável ainda são exceção no planejamento urbano brasileiro. Mas, diz Ana Paula, o cenário começa a mudar. “Estamos falando a linguagem do movimento atual. Mato Grosso pode ser protagonista em impacto socioambiental. Temos condições de liderar modelos de cidade mais resilientes”.

