Meio ambiente na disputa pelo governo de MT: veja o que propõem os seis candidatos

Rede Sucuri analisou os planos de governo e procurou as seis candidaturas para conhecer suas prioridades para o meio ambiente em Mato Grosso.

(Montagem: Rede Sucuri)

Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento do desmatamento em 2025, na contramão das outras oito unidades da região. Segundo dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em agosto, a área desmatada no estado cresceu 26,73% em relação a 2024. O cenário coloca a preservação ambiental entre os assuntos que estarão sob responsabilidade do próximo governador.

A preocupação também envolve a saúde pública. Um levantamento do Ministério da Saúde, referente ao período de 20 a 26 de setembro, identificou 87 municípios de Mato Grosso com concentrações de material particulado fino (MP2,5) acima da referência diária da Organização Mundial da Saúde (OMS) por pelo menos dois dias consecutivos. Nessas localidades vivem aproximadamente 2,8 milhões de pessoas, consideradas potencialmente expostas à poluição. A exposição a essas partículas está associada a problemas respiratórios e cardiovasculares.

Em meio a esse cenário, os seis candidatos ao Governo de Mato Grosso apresentam propostas para preservação dos biomas, regularização ambiental, combate ao desmatamento e aos incêndios, recursos hídricos, energias renováveis, bioeconomia e uso de tecnologias na fiscalização. Embora compartilhem parte dos temas, os programas apresentam medidas distintas para enfrentá-los.

A Rede Sucuri analisou os planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e procurou as seis candidaturas: Doutora Natasha (PSD), Maurício Coelho (Mobiliza), Otaviano Pivetta (Republicanos), Rafaell Milas (Missão), Sargento Laudicério (Agir) e Wellington Fagundes (PL). Maurício Coelho concedeu entrevista e a candidatura de Wellington Fagundes foi representada pelo vice, Reinaldo Morais. Os outros quatro candidatos foram procurados, mas não responderam até o fechamento da reportagem.

Desmatamento, fiscalização e incêndios

O combate ao desmatamento, a regularização ambiental e a modernização da fiscalização aparecem nos planos de diferentes candidatos. As propostas, no entanto, seguem caminhos distintos, que incluem desde o fortalecimento dos órgãos ambientais até a automatização de procedimentos e a integração com as forças de segurança.

O atual governador e candidato à reeleição, Otaviano Pivetta (Republicanos), promete a automatização da análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR), o fortalecimento da regularização ambiental e o incentivo ao manejo florestal sustentável como estratégia de redução do desmatamento. Maurício Coelho (Mobiliza) também aposta na tecnologia, com fiscalização orientada por dados e licenciamento por risco, mas acrescenta o fortalecimento regional da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

Já Rafaell Milas (Missão) propõe a digitalização e a unificação do licenciamento ambiental, incluindo o uso de inteligência artificial para processos de baixo risco. Embora as três candidaturas apresentem medidas de modernização administrativa, elas tratam de instrumentos diferentes, como o CAR, o licenciamento e o monitoramento das atividades ambientais.

A estrutura de fiscalização também aparece nas propostas de Doutora Natasha (PSD), que defende um orçamento ambiental compatível com os desafios do estado e a recomposição do efetivo dos órgãos ambientais. Seu plano inclui ainda a integração entre fiscalização e segurança pública para combater o desmatamento ilegal, o garimpo e a extração irregular de minerais.

(Imagem: Rede Sucuri)

O combate ao garimpo ilegal também c onsta dos programas de Wellington Fagundes (PL) e Sargento Laudicério (Agir). Enquanto Fagundes apresenta medidas de fiscalização, repressão ao crime organizado e proteção de territórios indígenas, Laudicério propõe integrar fiscalização ambiental, inteligência e segurança pública.

No enfrentamento dos incêndios, aparecem tanto medidas preventivas quanto propostas de reforço à resposta emergencial. Pivetta prevê ampliar o monitoramento e implantar o programa Pantanal Resiliente ao Fogo, com manejo integrado, manutenção de aceiros e brigadas de pronta resposta. Laudicério também propõe ampliar brigadas, aceiros e a cooperação com municípios e produtores, além de apoiar planos municipais de prevenção a eventos extremos.

A candidatura de Wellington Fagundes apresentou à Rede Sucuri outra possibilidade: utilizar aeronaves agrícolas no combate às queimadas. Em entrevista, seu candidato a vice, Reinaldo Morais, defendeu parcerias com produtores que possuem aviões usados na pulverização de lavouras para apoiar o Corpo de Bombeiros nos períodos críticos. Segundo ele, o governo poderia estabelecer incentivos para viabilizar a participação dessas empresas nas operações.

Água e regularização ambiental

A recuperação de nascentes e a proteção dos recursos hídricos são outros pontos de aproximação entre os programas, embora as candidaturas apresentem instrumentos diferentes para enfrentar problemas como contaminação, assoreamento e redução da disponibilidade de água.

Doutora Natasha propõe um sistema estadual de monitoramento da qualidade da água, com divulgação pública dos resultados, recuperação de nascentes e matas ciliares e responsabilização por danos ambientais.

Maurício Coelho apresenta o Programa Água e Território Vivos, organizado por bacias hidrográficas. A proposta prevê mapear nascentes, áreas de erosão, assoreamento e pontos de poluição, estabelecendo planos de recuperação com metas, responsáveis, cronogramas e fontes de financiamento. Sargento Laudicério também propõe reunir informações sobre a situação dos rios em um observatório estadual de bacias hidrográficas, com dados sobre qualidade da água, uso do solo, estiagens e abastecimento.

O combate ao desmatamento, a regularização ambiental e a modernização da fiscalização aparecem nos planos de diferentes candidatos.  (Foto: Vinícius Mendonça/Ibama)

Enquanto essas propostas enfatizam instrumentos de monitoramento e recuperação, a candidatura de Wellington Fagundes destacou, em entrevista à Rede Sucuri, a necessidade de investir em saneamento básico e atuar em parceria com os municípios para reduzir a contaminação dos rios, nascentes e lençóis freáticos.

Reinaldo Morais também defendeu uma mudança na forma de atuação da Sema. Segundo ele, o órgão deveria assumir um papel mais orientativo e educativo, identificando problemas e auxiliando municípios e empresas na busca de soluções, em vez de concentrar sua atuação na fiscalização e aplicação de multas.

A declaração evidencia uma diferença de abordagem em relação às propostas que enfatizam recomposição do efetivo fiscalizador e responsabilização por danos ambientais. As medidas não são necessariamente incompatíveis, mas apresentam formas distintas de atuação do poder público.

Bioeconomia, ciência e turismo sustentável

A associação entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico atravessa os programas dos candidatos, mas assume diferentes formas. Enquanto algumas propostas relacionam a sustentabilidade à recuperação produtiva de áreas degradadas e ao agronegócio, outras destacam a diversificação econômica, a pesquisa científica, o turismo e o aproveitamento sustentável da biodiversidade.

Em entrevista à Rede Sucuri, Maurício Coelho relacionou a sustentabilidade ao desenvolvimento e à diversificação da economia estadual. O candidato defendeu maior atenção aos pequenos produtores e criticou a concentração de incentivos fiscais em grandes empresas. Seu plano inclui o Programa Estadual de Recuperação Produtiva de Áreas Degradadas, com foco em solos e pastagens, crédito, assistência técnica, rotação de culturas, plantio direto e sistemas agroflorestais.

No setor energético, Coelho afirmou que a geração solar é fundamental para a matriz no longo prazo, mas apontou o armazenamento em baterias como um desafio para sua utilização em grande escala. Ele também defendeu a isenção do ICMS sobre a energia solar para geração individual.

A diversificação econômica para além do agronegócio também aparece no plano de Doutora Natasha, que propõe fortalecer o turismo de natureza no interior, aproximar universidades e instituições de pesquisa das empresas e ampliar o apoio à inovação.

Já Otaviano Pivetta prevê incentivar a biotecnologia voltada ao uso sustentável da biodiversidade, o ecoturismo em unidades de conservação e a articulação entre pesquisa científica, setor produtivo e órgãos ambientais. Rafaell Milas, por sua vez, associa parte de suas propostas de desenvolvimento sustentável à produção industrial, à silvicultura e à certificação de origem, enquanto Laudicério propõe incentivos por serviços ambientais, turismo sustentável nos três biomas e maior transparência nas ações de conservação.

O turismo também ocupa espaço na candidatura de Wellington Fagundes, que pretende estimular o etnoturismo em comunidades indígenas. Segundo Reinaldo Morais, a intenção é gerar renda por meio da visitação, em parceria com os próprios povos indígenas, preservando o meio ambiente e a cultura local. Na entrevista, porém, o candidato a vice não detalhou como seriam organizadas essas parcerias ou a participação das comunidades nas decisões.

Na área científica, Morais afirmou que um eventual governo Wellington Fagundes pretende atrair centros de pesquisa e empresas de tecnologia, além de ampliar a formação profissional. A prioridade mencionada é transformar Mato Grosso em um polo tecnológico, principalmente voltado ao agronegócio, com investimentos em áreas como inteligência artificial, programação e operação de drones.

Reportagem produzida no âmbito do Estágio Obrigatório II do curso de Jornalismo da Unemat, sob supervisão da jornalista Safira Campos.

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