Nem toda descoberta científica acontece exatamente como foi planejada. Muitas vezes, pesquisadores saem a campo ou entram no laboratório em busca de respostas para uma pergunta específica e acabam encontrando algo completamente inesperado. A história da ciência está cheia desses encontros improváveis entre curiosidade, atenção e acaso.
Mas o acaso, sozinho, não faz descobertas. É preciso olhar treinado, experiência e, principalmente, pessoas dispostas a investigar aquilo que parece fora do lugar. Na ciência, cada descoberta também é parte de um esforço coletivo: algo observado por um pesquisador/pesquisadora pode ser estudado por outra pessoa, em outro momento, abrindo caminhos que ninguém imaginava no início. Foi mais ou menos assim que começou a história dos primeiros fósseis de tubarões que descobrimos em Mato Grosso. Curiosamente, eles não estavam sendo procurados.
Fósseis são vestígios de seres vivos muito antigos – como ossos, dentes, conchas, folhas ou até marcas deixadas no solo – que, ao longo de milhares ou milhões de anos, passaram por um processo de mineralização que permite sua preservação nas rochas. Eles funcionam como pistas do passado, ajudando a contar como eram os ambientes e os seres vivos de outras épocas.
Tudo começou no final de 2020, quando dois estudantes, Larissa Garrido e Victor Tributino, realizavam uma atividade de campo para seus Trabalhos de Conclusão do Curso (TCC) de Geologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), nas proximidades do município de Pedra Preta, ao lado de Rondonópolis, cerca de 240 km de Cuiabá. O objetivo da pesquisa era estudar a sequência de rochas da região – típicas da Serra Petrovina –, sob orientação da Profª. Dra. Kamilla Amorim e coorientação do Prof. Dr. Jhon Afonso.
Enquanto caminhavam pela área em busca de rochas diferentes daquelas típicas da Serra da Petrovina, a professora Kamilla percebeu um barranco que chamou sua atenção, algo que parecia diferente: um pequeno fragmento que ela reconheceu como um possível fóssil (veja as fotos a seguir). Então, todos começaram a martelar o afloramento (como chamamos esses paredões de rocha) e acabaram encontrando diversos fósseis.
A coleta revelou vários exemplares, alguns com formato cônico, sugerindo tratar-se de dentes vertebrados fósseis.

As amostras foram encaminhadas ao Laboratório de Paleontologia (PALMA/UFMT), o qual é coordenado pela Profª. Dra. Silane Caminha, onde permaneceram armazenadas por cerca de um ano, à espera de que alguém se dedicasse ao seu estudo.
Lembra que eu comentei no início que a ciência é feita em colaboração? Em 2020, quando ingressei no curso de Geologia na UFMT, conheci a Larissa Garrido e o Victor Tributino, quando fui bolsista no Programa de Educação Tutorial, o PET. E foram eles que me contaram essa história sobre esses fósseis que estavam guardados no laboratório.
É aí que entro nessa história: não pensei duas vezes, quis logo estudá-los. A partir disso, iniciamos uma pesquisa de iniciação científica voluntária, orientada pela professora Kamilla Amorim.
Era um material muito interessante. Alguns fósseis podiam ser vistos a olho nu – muitos tinham formato cônico, lembrando dentes de animais do passado. Mas a maior parte das amostras estava coberta por muita argila (ver foto abaixo). Nesse caso, para descobrir a que animais pertenciam aqueles fragmentos, era preciso fazer a triagem das amostras, ou seja, remover cuidadosamente o excesso de argila ao redor dos fósseis. Esse processo facilita a identificação e pode revelar partes que ainda não estavam visíveis. Foi exatamente o que fiz. Utilizei instrumentos como agulhas finas, água e uma lupa de aumento – o estereoscópio –, já que tudo era muito pequeno e frágil, e eu ainda estava aprendendo as técnicas.

O que havia sido encontrado quase por acaso revelou-se um conjunto de dentes, espinhos e escamas de Chondrichthyes – um grupo de peixes que inclui animais como tubarões, raias e quimeras. Os fósseis tinham tamanhos variados, mas a maioria era bem pequena: o maior deles não ultrapassa cinco centímetros. E há um detalhe importante que ajuda a entender por que encontramos apenas essas partes. Diferentemente de outros animais, os Chondrichthyes não possuem ossos, mas sim um esqueleto feito de cartilagem – o mesmo tipo de material mais flexível que temos no nariz e nas orelhas. Como a cartilagem raramente se preserva ao longo do tempo, o que chega até nós são apenas as partes mais duras e resistentes, como dentes e espinhos.
Diante disso, chegamos à ideia inicial da minha pesquisa: apresentar o primeiro registro de Chondrichthyes nas rochas de Mato Grosso. Mas a minha curiosidade foi além: eu queria entender quem eram esses animais, como era o mar há cerca de 350 milhões de anos – no período Devoniano –, que condições existiam ali e o que esses seres antigos têm em comum com os animais de hoje.
Depois de concluir a triagem, chegou a hora de fazer o que todo pesquisador conhece bem: ler, ler, ler muito. Foram cerca de dois anos de leituras intensas, passei muitas horas no Laboratório PALMA/UFMT, foram incontáveis cafés e conversas com as minhas professoras orientadoras, Kamilla e Silane. O que começou como uma iniciação científica acabou se transformando no meu TCC.
Ao final deste processo, consegui identificar quais eram os Chondrichthyes presentes nas amostras (a exemplo das fotos abaixo). Em alguns casos, foi possível classificá-los em grupos mais amplos; em outros, chegar até espécies específicas – ou seja, conseguimos identificar com mais precisão “quem era quem” entre aqueles fósseis. No total, reconheci duas ordens – são grandes grupos dentro da classificação dos seres vivos – e quatro espécies diferentes. São achados científicos importantes, porque ajudam a preencher uma lacuna sobre a história da vida na nossa região.

A partir desse trabalho, também consegui reconstruir, em parte, como era o ambiente marinho naquele tempo. Durante a Era Paleozóica, especialmente no período Devoniano, o mar avançava sobre áreas que hoje são continentes, formando ambientes propícios para a proliferação dos peixes – tanto que esse período ficou conhecido como a “Era dos Peixes”.
É exatamente por isso que esses fósseis ocorrem na região de Pedra Preta, aqui em Mato Grosso. Além de entender a dinâmica marinha naquele tempo, como funcionava esse antigo ambiente marinho, também organizei informações sobre os fósseis encontrados – um trabalho chamado de sistemática paleontológica, que busca classificar os organismos e compreender suas relações de parentesco ao longo da história da vida na Terra. A identificação desses fósseis seguiu critérios científicos bem detalhados, usados por paleontólogos para classificar organismos antigos. A partir das características dos dentes – como o formato, o tamanho e a estrutura – foi possível reconhecer que eles pertenciam a um tipo específico de peixe cartilaginoso já descrito pela ciência. Em termos mais técnicos, esses fósseis foram classificados dentro de um grupo de tubarões primitivos e associados ao gênero Wurdigneria, com espécies já registradas em outras regiões.

Passado todo esse processo, apresentei meu TCC e me formei: hoje sou geóloga. Mas a minha curiosidade não terminou aí. Os Chondrichthyes continuam sendo tema da minha pesquisa no mestrado no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Geociências da UFMT. E ainda há muito a ser descoberto.
No fim das contas, essa história começa com o acaso: um fragmento que chamou a atenção em um afloramento, uma coleta que não buscava exatamente aquilo, um material que permaneceu por um tempo à espera de ser estudado no laboratório. Mas o acaso, sozinho, não produz conhecimento. Ele apenas revela uma possibilidade. É a ciência – feita de perguntas, método, estudo e trabalho coletivo – que transforma esse encontro inesperado em descoberta.
Foi assim que aqueles pequenos fragmentos deixaram de ser apenas curiosidades e passaram a contar uma história muito maior: a de um antigo mar que existiu onde hoje é Mato Grosso – e dos tubarões que viveram nele há milhões de anos.
Daiane Emanuele Stremel Meira é geóloga formada pela Universidade Federal de Mato Grosso, Mestranda em Geociências pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Geociências da UFMT. Contato: daiane.meira@sou.ufmt.br.
Kamilla Borges Amorim é geóloga, mestre em Geologia e Geoquímica, Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Pará, com doutorado sanduíche no Institut Universitaire Européen de la Mer, Laboratoire Domaines Océaniques, Université Bretagne occidentale (IUEM – LDC – UBO), Brest – França (PDSE-CAPES). Professora na Faculdade de Geociências da Universidade Federal de Mato Grosso – Orientadora do presente trabalho. Contato: Kamilla.amorim@ufmt.br.
A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

