Relatório global aponta risco de extinção para peixes migratórios encontrados em MT

Documento apresentado na COP15, em Mato Grosso do Sul, alerta para colapso de populações e cita peixes como dourado, jaú, piracanjuba e piraíba, comuns em rios que cortam Mato Grosso.

(Foto: Courtesy of Zeb Hogan / Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes)

A quase totalidade dos peixes migratórios de água doce do mundo enfrenta algum nível de ameaça de extinção, segundo avaliação global apresentada nesta semana durante a Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), em Campo Grande (MS). O estudo indica que 97% das espécies já listadas pela convenção estão ameaçadas, em um cenário de declínio acelerado que também atinge espécies emblemáticas dos rios de Mato Grosso.

O relatório, elaborado pela Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), em parceria com o WWF e a Universidade de Nevada (EUA), identificou ainda 349 espécies com características migratórias que podem se enquadrar nos critérios de proteção internacional, 325 delas ainda fora das listas oficiais, mas sob risco. Confira o documento na íntegra neste link

Esses peixes dependem de longos deslocamentos ao longo dos rios para completar seu ciclo de vida. Quando esse fluxo é interrompido por barragens, poluição ou degradação ambiental, o impacto é direto sobre reprodução e sobrevivência.

“Migratórios de água doce não são apenas maravilhas ecológicas, mas também essenciais para a segurança alimentar, economias locais e patrimônio cultural”, afirmou a secretária executiva da CMS, Amy Fraenkel, no lançamento do documento.

Espécies presentes em Mato Grosso

A avaliação destaca bacias hidrográficas prioritárias para ações de conservação, entre elas a Amazônica e a do Prata-Paraguai-Paraná, ambas com presença em Mato Grosso. Nessas regiões, vivem espécies citadas no relatório e conhecidas dos rios locais.

Na bacia do Prata, que inclui o Pantanal e rios como o Cuiabá e o Paraguai, aparece o jaú (Zungaro jahu), um dos maiores bagres da América do Sul. Esse peixe depende de rios longos e conectados e de áreas de inundação para se reproduzir. O relatório aponta que a fragmentação dos rios compromete esse ciclo.

Já o piracanjuba (Brycon orbignyanus), que atualmente já tem ocorrência muito rara em Mato Grosso, está classificado como “em perigo”. O peixe é considerado espécie-bandeira dos impactos de barragens, que interrompem suas migrações reprodutivas.

O dourado (Salminus brasiliensis), símbolo da pesca esportiva, também integra o grupo de grandes peixes migratórios que vêm registrando quedas acentuadas de população.

Foto: Sarbast.T.Hameed

Já na porção norte de Mato Grosso, inserida na bacia Amazônica, o documento menciona peixes como o tambaqui (Colossoma macropomum), o Piraíba (Brachyplatystoma filamentosum) e o cachara ou surubim (Pseudoplatystoma fasciatum), que é integrante de um grupo prioritário de grandes bagres migratórios ameaçados.

O relatório também destaca os bagres amazônicos de longa distância, como os do gênero Brachyplatystoma, capazes de percorrer milhares de quilômetros ao longo dos rios, um dos fenômenos mais extremos da natureza.

Queda generalizada

A avaliação aponta que as populações desses peixes caíram cerca de 90% desde a década de 1970. Entre os principais fatores estão construção de barragens e perda de conectividade dos rios, alteração do fluxo natural da água, degradação de habitats e poluição, além de pesca excessiva.

O relatório destaca que peixes migratórios são particularmente vulneráveis porque dependem de corredores contínuos ao longo dos rios. Sem acesso a áreas de reprodução, alimentação e crescimento, o ciclo de vida é interrompido.

Além da biodiversidade, o estudo alerta para impactos diretos sobre comunidades humanas. Na Amazônia, por exemplo, essas espécies representam cerca de 93% das capturas pesqueiras e movimentam centenas de milhões de dólares por ano.

Rita Mesquita (Foto: Agência Senado)

“Nossas espécies de peixes, que são base de tantas comunidades e da segurança alimentar, estão enviando sinais claros de ameaça e vulnerabilidade”, afirmou a secretária nacional de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Rita Mesquita.

Como muitas dessas espécies cruzam fronteiras durante suas migrações, o relatório defende ações coordenadas entre países, especialmente em grandes bacias como a Amazônica e a do Prata. Entre as medidas sugeridas estão a restauração da conectividade dos rios, controle da pesca, proteção de áreas de reprodução e revisão da operação de hidrelétricas.

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