Trocar o treinador melhora o desempenho do time?

Estudo da UFMT analisa o impacto das demissões no Brasileirão

(Foto: Arquivo Pessoal / Montagem: Propesq)

Quando se fala em “País do Futebol”, é impossível não pensar no Brasil. Afinal, somos os donos da única seleção a ostentar cinco estrelas no peito no futebol masculino. No futebol feminino, o país também vem consolidando sua força e protagonismo internacional, com uma trajetória marcada pelo crescimento da modalidade, pelo destaque de grandes atletas e pela atual sexta colocação no ranking da Fifa. Olhando esse cenário, é comum escutarmos que nossos atletas são diferenciados, e que formamos verdadeiros craques ao longo da história. Sendo assim, também é possível reconhecer  a importância dos treinadores neste processo, já que o desempenho de uma equipe de alto nível depende não apenas de atletas talentosos, mas também de liderança e a gestão de um bom treinador; sem isso, dificilmente uma seleção chegará ao topo do pódio disputando contra potências mundiais do esporte, não é mesmo?

Mas, se formamos treinadores tão qualificados, por que eles são substituídos tão rapidamente? Será que mudanças frequentes no comando técnico no campeonato mais longo do país, o Campeonato Brasileiro – popularmente conhecido como Brasileirão e considerado a principal competição nacional de clubes – faz com que as equipes melhorem o desempenho?

O Brasileirão está organizado em quatro divisões nacionais: Séries A, B, C e D. A Série A, considerada a elite do futebol brasileiro, reúne 20 equipes que disputam a competição em sistema de pontos corridos, no qual todos os clubes se enfrentam em jogos de ida e volta. Ao final da temporada, cada equipe realiza 38 partidas ao longo de 38 rodadas. A competição costuma ocorrer entre os meses de abril e dezembro, atravessando grande parte do calendário esportivo nacional e exigindo das equipes um desempenho consistente durante aproximadamente oito meses de disputa.

Em uma longa competição, com alta pressão por resultados, as trocas de treinadores tornaram-se uma prática recorrente. Nesse contexto, o imediatismo tem tomado lugar de destaque não só nas arquibancadas, mas também na imprensa. A busca constante por encontrar um culpado para a má performance de uma equipe tem voltado seus resultados a um só culpado: o treinador. Geralmente, esses profissionais são vistos como verdadeiros líderes das equipes as quais treinam, e tem sua imagem muito ligada à ideia de “funcionário com maior poder”, ou seja, ainda que dirigentes, diretores e presidentes possuam, hierarquicamente, maiores cargos, o treinador é o maior líder exposto.

Desse modo, resultados negativos, frequentemente passam a ser associados às decisões do treinador, que acaba se tornando o principal alvo das críticas em momentos de baixo desempenho. Nesse contexto, a pressão da imprensa e da torcida passa a influenciar diretamente as decisões dos clubes, fazendo com que demissões sejam utilizadas como respostas rápidas a sequências de maus resultados. Assim, a troca no comando técnico muitas vezes ocorre não apenas como tentativa de reformular a equipe e melhorar o desempenho, mas também como uma “cortina de fumaça”, deslocando a responsabilidade dos cargos mais altos da gestão esportiva e reduzindo momentaneamente a pressão sobre dirigentes e administradores dos clubes.

Diante de um cenário marcado por alta rotatividade e decisões de curto prazo, surgiu o interesse em investigar se as trocas constantes de treinadores no futebol brasileiro realmente contribuem para melhorar o desempenho das equipes no longo prazo. Para isso, analisamos as temporadas do Campeonato Brasileiro entre 2018 e 2024, abrangendo sete edições do torneio e diferentes contextos competitivos. 

Para realizar a pesquisa, foram analisadas as súmulas oficiais das partidas – documentos oficiais que registram informações dos jogos – baixadas no site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A partir delas, analisamos individualmente todas as trocas de treinadores realizadas ao longo das temporadas. Com isso, reunimos dados de 2.660 partidas de 30 equipes participantes da Série A do Campeonato Brasileiro neste período. Ao final, os clubes foram agrupados conforme sua posição na tabela da seguinte maneira: equipes do 1º ao 6º lugar, classificadas para a Libertadores; do 7º ao 16º, consideradas de meio de tabela; e do 17º ao 20º, equipes rebaixadas para a Série B.  Para considerar a troca de um treinador, o substituto deveria atuar em pelo menos três jogos consecutivos.

Os dados revelaram uma alta rotatividade no comando técnico ao longo de todo o período analisado. Entre 2018 e 2024, o número de treinadores registrados por temporada variou entre 45 e 55 profissionais, sempre superando a quantidade de clubes participantes da Série A do Campeonato Brasileiro. Foram contabilizados 53 treinadores em 2018, 47 em 2019, 55 em 2020, 46 em 2021, 47 em 2022, 53 em 2023 e 45 em 2024. Esses números evidenciam a frequência das trocas de técnico das equipes e reforçam como a substituição de treinadores se tornou uma prática recorrente no futebol brasileiro. Os resultados indicam ainda que a troca de treinadores foi mais frequente entre as equipes que terminaram o campeonato na zona de rebaixamento, em comparação com aquelas classificadas para a Libertadores. Já os times de meio de tabela apresentaram menor rotatividade do que os rebaixados.  Esses resultados indicam que, quanto maior o número de mudanças no comando técnico, pior tende a ser a posição final da equipe na temporada.

Ao final do estudo, foi verificado que 34,47% da classificação final teve relação com o número de troca de treinadores. Em média, cada mudança de técnico correspondeu à perda de 2,87 posições na tabela. Tal dado trata-se de um indicativo de que a rotatividade, frequentemente adotada como solução imediata, pode, na prática, comprometer o desempenho das equipes ao longo da temporada. 

Os resultados do estudo levantam uma reflexão importante: até que ponto a troca constante de treinadores representa uma solução real para os clubes? Em um cenário marcado pelo imediatismo, talvez a resposta esteja menos na mudança de comando e mais na capacidade de sustentar projetos no longo prazo. Enquanto isso, permanece a pergunta: até que ponto decisões tomadas sob pressão não acabam deslocando responsabilidades que também deveriam estar na gestão dos clubes?

E aí, depois de conhecer os resultados da pesquisa, ainda dá vontade de pedir a demissão daquele treinador do seu time? No lugar de dirigentes e presidentes, qual seria a melhor decisão: trocar o comando técnico imediatamente ou investir em um projeto com mais tempo para amadurecer resultados?

Francielli Evelin Lopes Silva é mestranda em educação física pela UFMT, com três ciclos de iniciação científica como bolsista. Ganhadora do prêmio Severino Meirelles pela área da saúde (2024), duas vezes ganhadora da honraria de destaque por pôster em Goiânia pelo I e II Meeting de Educação Física (2024 e 2025), Ganhadora da Láurea Acadêmica pela Educação Física (2025); Membro do GEPEFE-UFMT e do LAE-UFMT como pesquisadora na área esportiva, com ênfase no futebol.

Prof. Dr. Henrique de Oliveira Castro é professor do Departamento de Educação Física da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Mato Grosso (FEF/UFMT); Professor permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física da UFMT (PPGEF/UFMT); Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física e Esportes da UFMT (GEPEFE/UFMT) e um dos líderes do Laboratório de Análise Esportiva (LAE) da FEF-UFMT.

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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