Novo polo de pesquisa em MT aposta em bioinsumos para reduzir importação de fertilizantes

Estado será sede de hub regional do Plano Nacional de Fertilizantes e pretende ampliar uso de tecnologias adaptadas ao clima tropical

Mato Grosso, líder nacional no consumo de fertilizantes devido à sua expressiva produção agrícola, avança nas articulações para integrar de forma estratégica o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2023–2050. A iniciativa, aprovada pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) em novembro de 2023, busca reduzir a dependência externa de insumos, hoje superior a 87%, e alcançar, até 2050, uma produção nacional capaz de atender entre 45% e 50% da demanda interna.

Além de diminuir o risco de desabastecimento e a perda de divisas, o PNF prevê soluções tecnológicas adaptadas ao solo e ao clima brasileiros, minimizando perdas de nutrientes e promovendo maior sustentabilidade. Uma das ações centrais será a criação do Centro de Excelência em Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Cefenp), com sede no Rio de Janeiro.

A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico (Sedec-MT) têm trabalhado para garantir protagonismo do estado dentro do plano nacional. A negociação envolveu ainda o Parque Tecnológico, a Assembleia Legislativa e representantes do setor produtivo.

À Rede Sucuri, Linacis Lisboa, secretária-adjunta de Agronegócio, Crédito e Energia da Sedec-MT, explicou que o reconhecimento de Mato Grosso como sede de um dos hubs de fertilizantes foi resultado de uma articulação intensa. “No desenho inicial, não estava previsto que o estado teria um hub. Mas conseguimos mostrar ao governo federal que, sendo responsável por mais de 30% da produção nacional de grãos e utilizando cerca de 25% dos fertilizantes do país, Mato Grosso precisava estar no centro dessa discussão”, afirmou.

Hoje, além do Cefenp no Rio de Janeiro, há previsão para sete hubs regionais no Brasil, sendo um deles em Mato Grosso. O foco será a eficiência agronômica e a sustentabilidade, com ênfase na pesquisa e aplicação de bioinsumos, alternativa que pode reduzir custos, ampliar a autonomia dos produtores e diminuir a dependência externa.

Aposta em bioinsumos

Para Lisboa, os bioinsumos representam um dos caminhos mais promissores para o estado. “Grande parte dos fertilizantes que usamos foi desenvolvida para o clima temperado. No Brasil, precisamos de tecnologias adaptadas ao ambiente tropical. Os bioinsumos são uma saída muito estratégica, porque permitem uma produção mais próxima da realidade do campo e dialogam diretamente com a sustentabilidade”, disse.

O estado já possui uma lei específica para fertilizantes, aprovada no fim de 2023, que se alinha ao plano nacional e prevê a promoção de soluções biológicas. A medida vai ao encontro do Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), que incentiva práticas sustentáveis e de baixo impacto ambiental.

Linacis Lisboa, secretária-adjunta de Agronegócio, Crédito e Energia da Sedec-MT (Foto: Reprodução)

Segundo a secretária, embora já haja utilização de bioinsumos nas lavouras de soja, milho e algodão, a ideia é ampliar a escala e consolidar Mato Grosso como referência no setor. “Não é só uma questão econômica. É também tecnológica, ambiental e de segurança. O produtor precisa ter acesso a soluções de ponta que reduzam sua vulnerabilidade às oscilações de preços e às crises geopolíticas”, afirmou.

A expectativa é que o hub traga ganhos não apenas ao agronegócio, mas também à ciência e à formação profissional. Indústrias de fertilizantes já manifestaram interesse em se associar ao centro, que deve reunir governo, universidades e setor privado em projetos de pesquisa conjunta.

“Estamos falando de desenvolvimento de ponta, de geração de conhecimento e de qualificação da mão de obra local. Isso terá impacto direto na nossa economia, porque cria condições para que a indústria e a pesquisa estejam mais próximas”, avaliou Lisboa.

Investimentos

Em um primeiro momento, o governo estadual não deverá investir recursos diretos na instalação do hub, que será gerido por uma associação nacional. Mas, de acordo com a secretária, já está previsto no Plano de Trabalho Anual da Sedec apoio financeiro para a execução do plano estadual de fertilizantes. “Para Mato Grosso, essa é uma política prioritária. O planejamento orçamentário já contempla ações para consolidar a política de fertilizantes e bioinsumos”, disse.

UFMT em reunião com a Sedec em agosto de 2025 (Foto: Assessoria UFMT)

A reitora da UFMT, Marluce Souza e Silva, também destacou a importância da iniciativa. “Ter a possibilidade de constituir o núcleo de produção de fertilizantes, integrado a um projeto nacional, é uma oportunidade fundamental para nossos pesquisadores e para a inovação científica no estado”, afirmou durante reunião no último mês.

O professor Milton Moraes, que integra o grupo de trabalho da universidade, acrescenta que a parceria permitirá criar hubs regionais focados em tecnologias de fertilização. Segundo ele, o Governo do Estado já disponibilizou espaço no Parque Tecnológico para a instalação de um escritório vinculado à iniciativa.

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