Olhando para dentro de um jacarandá

O que as folhas revelam sobre a resistência de uma árvore ao calor de Cuiabá?

Ao andar pelas ruas de Cuiabá, capital de Mato Grosso, não é difícil se deparar com ele: crescendo em meio ao asfalto, sob rachaduras no concreto. Sem ter sido convidado para a festa, ele resiste e cresce, sem que ninguém dê alguma atenção. E assim, mesmo nas adversidades, ele segue crescendo. Durante a seca, perde suas folhas e seus galhos balançam expostos ao vento e ao sol, como se suplicassem aos céus por chuva. Mas em agosto, no auge da estiagem, uma mágica acontece: suas flores azul-violeta rompem as cascas dos galhos, outrora sem vida, dando cor aos céus do Centro-Oeste.

Jacarandá Mimoso em floração. Foto: Marcos Ermínio

Esse é o pé de Jacarandá Mimoso, sua beleza já inspirou artistas a comporem suas mais belas obras, como a música interpretada por Wilson Simonal, que você certamente já ouviu ou já cantou:

“Meu limão, meu limoeiro
Meu pé, meu pé de jacarandá
Uma vez esquindolêlê, iê iê
Outra vez esquindolálá”

Essa árvore, nativa na América do Sul, tem ampla distribuição pelo continente, sendo encontrada da Argentina ao Uruguai. O Jacarandá, que pertence à família das Bignoniaceae – grupo muito reconhecido pelas suas flores tubulares, como os ipês, unha-de-gato e flor-de-são-joão – é uma árvore ameaçada de extinção em seu habitat natural, segundo a lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Ainda assim, é possível ver muitos Jacarandás na paisagem de centros urbanos – não só no Brasil, mas em outras partes do mundo – por conta da beleza de suas flores e facilidade de cultivo; em alguns países, por exemplo, Austrália e na África do Sul, os Jacarandás são considerados espécie invasora, ou seja, apresentam tendência a substituir a vegetação nativa. Para além da beleza, o Jacarandá é popular por apresentar algumas propriedades medicinais, que têm sido estudadas de modo a tentar compreender o potencial para o uso terapêutico dos compostos derivados do Jacarandá, especialmente no manejo de estresse oxidativo e processos inflamatórios.

Aqui na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no campus de Cuiabá, a imponência dos jacarandás sempre chama a atenção – e, na época da floração, eles simplesmente não passam despercebidos. Diante disso, surgiu uma curiosidade: como essa planta consegue ser tão resistente, enfrentando adversidades do ambiente, especialmente o calor intenso, e ainda assim continuar florescendo? É a partir dessa pergunta que começa a nossa viagem para dentro das folhas do jacarandá.

Mas você deve estar se perguntando: como conseguimos “entrar” em uma folha e enxergar o que acontece lá dentro? A gente já explica! Para isso, realizamos um estudo microscópico de plantas. Esse tipo de análise começa com a preparação de uma lâmina, feita a partir de um pedacinho muito fino do vegetal – que pode ser da folha, do caule ou da raiz. No nosso caso, utilizamos a folha do jacarandá.

Para analisar essas lâminas, primeiro foi necessário coletar amostras das folhas e reunir alguns materiais essenciais, como lâminas de barbear, pedaços de isopor, pincéis, água destilada, água glicerinada e o microscópio. Com tudo em mãos, as folhas foram posicionadas entre dois pedaços de isopor, o que facilita a realização de cortes bem finos com a lâmina de barbear. Esses fragmentos, quase transparentes, foram então transferidos para um recipiente com água destilada.

Confecção das lâminas para observar as estruturas da folha de Jacarandá no microscópio. Foto: Acervo dos pesquisadores.

Depois disso, entram em cena os corantes, que funcionam como marcadores: eles “colorem” diferentes partes das células, destacando suas estruturas. Por fim, a amostra é protegida por uma fina película de vidro. Com essa preparação, o que antes era invisível a olho nu ganha forma e cor – e podemos observar, em detalhes, como os tecidos da planta são organizados e como contribuem para que o jacarandá sobreviva mesmo em condições adversas. Para essa observação, utilizamos o Laboratório de Microscopia, coordenado pela Professora Doutora Ana Paula Souza Caetano do Instituto de Biologia da UFMT.

Foto da Lâmina foliar de Jacarandá-mimoso vista no microscópio (ampliação de 100x). As estruturas apontadas com setas são representadas pelas siglas iniciais, P.A (Parênquima Paliçádico), P.L (Parênquima Lacunoso) e C.E (Cripta Estomática). Fonte: Acervo Pesquisadores.

Vejam! Essas estruturas que observamos na imagem acima ajudam a gente a entender como a planta funciona por dentro – especialmente como ela realiza a fotossíntese, que é o processo de produção de alimento que a planta realiza a partir da luz do sol. No jacarandá, a maior parte da folha é constituída por um tecido chamado de Parênquima Clorofiliano – junção do parênquima paliçádico (P.A) e parênquima lacunoso (P.L). É nele que estão as células contendo clorofila, uma organela – “pequeno órgão dentro das células” – que é responsável pela captação e transformação da energia luminosa em energia química – como se fosse uma “fábrica de alimento”, que funciona dentro da folha. Essa organela captura a luz do sol e transforma em alimento para a planta.

Assim, nesse corte conseguimos observar dois tecidos: o parênquima paliçádico que é formado por células mais alongadas e organizadas, bem juntinhas. Ele é o principal responsável por captar a luz solar, pois concentra grande quantidade de estruturas que realizam a fotossíntese (cloroplastos); e o parênquima lacunoso que tem muitos espaços vazios entre as células. Esses espaços funcionam como pequenos “corredores de ar”, facilitando a circulação de gases, como o oxigênio (O2) e o gás carbônico (CO), que são fundamentais para o funcionamento da planta.

Outra estrutura presente na lâmina é a Cripta Estomática (C.E). Ela está relacionada à plantas adaptadas a ambientes com baixa umidade no ar, quentes e secos, como o de Cuiabá. 

Como isso funciona? As plantas possuem pequenas “portinhas” chamadas estômatos, que se abrem para permitir a entrada de gás carbônico e a saída de oxigênio. O problema é que, ao fazer isso, a planta também perde água. Em dias muito quentes, essa perda pode ser enorme – uma árvore pode liberar centenas de litros de água para a atmosfera. Quer um exemplo, uma única árvore de 10 metros de altura emite uma média de 300 litros de água por dia e uma árvore de 20 metros de altura pode bombear mais de 1.000 litros de água por dia para a atmosfera pela transpiração, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Por conta dessa transpiração, plantas em região de baixa umidade, desenvolveram algumas adaptações para minimizar a perda de água pelas folhas, por exemplo colocando os estômatos dentro de criptas. Assim, ao se abrirem dentro das criptas, os estômatos vão estar em um ambiente com menor incidência luminosa e mais umidade, perdendo menos água para o ambiente.

Observar o jacarandá por dentro é também uma forma de enxergar a cidade com outros olhos. Aquela árvore que cresce entre o concreto, guarda em suas folhas uma série de estratégias que garantem sua sobrevivência em um ambiente quente e seco. O que parece apenas beleza – suas flores azul-violeta que tomam o céu de Cuiabá – é, na verdade, resultado de uma complexa organização interna, ajustada ao longo do tempo para enfrentar o sol, a seca e a escassez de água.

Ao revelar essas estruturas invisíveis, a ciência nos aproxima daquilo que sempre esteve ao nosso redor. E talvez, na próxima vez que você passar por um jacarandá em flor, ele não seja apenas mais uma árvore na paisagem – mas um exemplo silencioso de adaptação, resistência e vida em equilíbrio com o ambiente.

Rafael Alves de Andradeé graduando em licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Pesquisador na área de Psicologia Cognitiva em Metacognição Social no Ensino de Ciências e Biologia, com a Profª. Dra. Camila Boszko.

João de Paula Nascimento e Silva é graduando em licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Participante do Programa de Iniciação à Docência (PIBID).

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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