O Compromisso Ético de Comunicar Ciência

Comunicar ciência nunca foi tão urgente quanto agora. Escrevo este texto com a alegria de quem testemunha o nascimento de um projeto essencial, dedicado à tradução do conhecimento científico. A Rede Sucuri surge neste alvorecer da primavera, pelas mãos de pessoas competentes e comprometidas com a preservação do meio ambiente, em um estado de riquezas naturais únicas como Mato Grosso. Nasce como um espaço transformador, com a potência de aproximar a sociedade da ciência, traduzindo saberes para públicos diversos, com o rigor e a técnica dos bons contadores de histórias, e com o compromisso ético e democrático da comunicação pública da ciência.

Não é fácil a vida de quem se dedica à ciência no Brasil. Além de padecermos de um problema crônico de financiamento da pesquisa científica, fomos tomados nos últimos anos por uma vaga negacionista que tudo fez para deslegitimar o trabalho de quem produz ciência e por meio dela ajuda a construir soluções para os grandes problemas nacionais. Justamente no momento em que a humanidade se viu assolada pela pior crise deste século, que ceifou a vida de milhões de pessoas mundo afora – mais de 600 mil apenas no Brasil – pesquisadores e cientistas se viram confrontados com discursos negacionistas de todos os lados. E o pior: estimulados por lideranças eleitas, que deveriam dedicar-se ao cuidado de suas populações, mas que, ao contrário, adotaram o caminho da morte, isto é, o caminho da negação da ciência, do método, do conhecimento capaz de salvar vidas. Por razões puramente ideológicas, esses agentes não hesitaram em promover o descrédito das vacinas e em propagandear tratamentos sem eficácia, disseminando o vírus na forma de desinformação.

Esses agentes são os mesmos que tendem a negar o colapso climático e que se aproveitam de tragédias anunciadas, como as que presenciamos no Rio Grande do Sul, para veicular mentiras fabricadas e ampliar a descrença na ciência, mesmo quando a realidade nos bate à porta de maneira trágica. Os negacionistas dos últimos anos reduziram conhecimento científico a meras opiniões, confundiram as pessoas e as aproximaram da morte, quando não as mataram de fato. Com seus discursos perversos, buscaram esconder uma verdade óbvia: a de que a ciência fez a humanidade avançar e progredir em diversos aspectos, incluindo a saúde pública. Essa, sim, uma verdade que a realidade novamente comprovou. Só saímos daquele cenário de horror graças às vacinas, cuja invenção foi resultado de décadas de esforço de cientistas atuantes em Universidades e centros e pesquisa ao redor do globo. Foi uma conquista da humanidade, por meio da ciência e de seus agentes.

Apesar de a ciência ter debelado a crise, a Covid-19 deixou sequelas enormes, não apenas em pessoas acometidas pela doença, mas na sociedade como um todo. Mesmo com a evidência explícita de que as vacinas controlaram a pandemia, o Brasil viu diminuir a procura pela vacinação de suas crianças, afastando-se de uma prática histórica de altíssima adesão aos imunizantes. Esse talvez seja o dado mais grave da sequela social deixada pelo vírus da desinformação e do negacionismo.

Assim, falar de ciência, torná-la comum a diferentes públicos, é mais do que uma necessidade. Trata-se, hoje, de um ato cívico, de um compromisso ético com os destinos da humanidade. Não nos enganemos: aqueles que hoje ameaçam as sociedades e os avanços civilizatórios que conquistamos no campo democrático somente conseguirão levar a cabo seus projetos por meio do ataque à cultura, à ciência e ao conhecimento. Por isso é que os primeiros a serem atacados por qualquer projeto autoritário são a ciência, os seus agentes e as suas instituições. Não por acaso, cientistas e professores, universidades e centros de pesquisa se tornaram alvos privilegiados de figuras autoritárias e negacionistas ao longo da pandemia de Covid-19.

Mas esse diagnóstico não nos deve imobilizar. Ao contrário, ele é necessário para que ampliemos a nossa consciência em face de uma questão inadiável: a de que precisamos, urgentemente, disseminar uma cultura de popularização da ciência, dos seus métodos e dos processos que conduzem a descobertas e ao conhecimento científico. Não se trata de colocar a ciência num pedestal, mas de, ao reconhecer suas limitações, entendê-la como espaço do método e do rigor, da dúvida permanente, do tensionamento de ideias e processos capazes de nos conduzir, como mostra a história, a descobertas transformadoras.

Esse processo de disseminação da ciência será tanto mais efetivo quanto mais participado e agregador ele for. Assim como a ciência pode ser conhecida por quem não é cientista, o conhecimento produzido por ela pode e deve ser traduzido e partilhável a públicos mais amplos. Esse movimento exige um trabalho em diferentes frentes, com cientistas, pesquisadores, comunicadores, jornalistas, professores e a sociedade de um modo geral.

Nesse cenário, as universidades possuem um papel estratégico na apresentação pública daquilo que fazem de melhor: a produção de saberes e conhecimentos em diferentes áreas, essenciais para a construção de respostas aos grandes problemas da sociedade. Não cabe à Universidade responder, sozinha, aos dilemas que se colocam diante de nós, mas sem o conhecimento gerado no seu interior, a sociedade pouco poderá avançar.

A Universidade Federal de Mato Grosso, à qual tenho atualmente a honra de servir como seu Pró-reitor de Pesquisa, é um universo de produção de ciência e de conhecimentos que estão na base do desenvolvimento da sociedade mato-grossense e brasileira há quase seis décadas. Este ano a UFMT celebra 55 anos de existência e, nesse período, a instituição se consolidou como uma casa de ciência, que todos os anos forma profissionais altamente qualificados para os mais diversos segmentos do mercado, mas também prepara cientistas e pesquisadores de ponta, que atuam em projetos com enorme impacto, em áreas que vão das ciências da vida às engenharias, das ciências agrárias às exatas, das artes e humanidades às ciências humanas.

Todo esse capital pertence e é destinado à sociedade, por meio das descobertas e dos conhecimentos gerados e partilhados com quem se forma na Universidade. Mas é preciso ir além. O conhecimento científico produzido pela maior instituição científica de Mato Grosso pode e deve tornar-se comum à sociedade em geral, que pode estar próxima, como uma parceira daquilo que se produz em nossa instituição. Por essa razão, criamos, na UFMT, o Tornar Comum, um Programa Institucional de Comunicação Pública da Ciência, que tem por objetivo central criar pontes entre a universidade e a sociedade, entre o que pesquisadores e pesquisadoras produzem e a comunidade. Inspirado na etimologia da palavra comunicação – do latim communicare, que significa justamente tornar comum – o Programa é um convite e um desafio a todos quantos queiram exercitar a prática da popularização da ciência.

Volto ao início. Comunicar ciência nunca foi tão urgente como agora. Comunicar ciência do interior da Universidade ou desde fora, mas em contato permanente com ela e com os seus agentes. Por meio de práticas que, reconhecendo as diferenças, promovam sinergias entre quem pesquisa e quem pode, como aliado de pesquisadores e cientistas, falar sobre ciência de forma responsável. É esse que entendo ser o papel da Rede Sucuri. Por isso, aceitei, honrado, o convite que me fizeram para escrever neste espaço.

Que este projeto transformador tenha vida longa na construção de pontes e na tradução necessária, qualificada e popular do conhecimento científico sobre meio ambiente, biodiversidade e conservação da natureza. Juntos, cientistas, pesquisadores e comunicadores, tratemos de popularizar a ciência, um bem comum, transformador e indispensável ao futuro da nossa civilização.

Bruno Araújo
Pesquisador e Pró-reitor de Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso

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