Especialista alerta para impactos de projeto de ponte no turismo e na fauna do Pantanal

Guia e mestre em Manejo de Vida Selvagem aponta risco de turismo predatório com ponte no rio São Lourenço; documento obtido pela Rede Sucuri indica falta de estudos e licenciamento.

(Foto: Aynore Caldas / Montagem: Rede Sucuri)

O empresário do setor de turismo e mestre em Manejo de Vida Selvagem Aynore Soares Caldas aponta como a eventual construção de uma ponte de concreto sobre o rio São Lourenço, em Porto Jofre, pode provocar a “massificação do acesso” ao Pantanal e pressionar o modelo atual de ecoturismo na região. Segundo ele, sem planejamento prévio, o resultado tende a ser a expansão de um turismo “predatório”.

“Com a ponte, a tendência é a massificação do acesso, a redução do custo e do tempo de viagem, o que estimulará excursões de bate-e-volta e a entrada de veículos desacompanhados de guias especializados”, disse. “Sem um robusto plano de manejo da visitação, o produto ecoturístico de alto valor agregado corre o risco de se banalizar”, avalia.

As declarações foram dadas à reportagem a partir de questionamentos sobre o projeto que prevê a ligação entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul por meio de um corredor rodoviário no Pantanal.

Um ofício obtido pela redação da Rede Sucuri mostra que a proposta ainda está em fase inicial. Um Protocolo de Intenções foi firmado em fevereiro deste ano entre os governos dos dois estados, com a meta de interligar a MT-060 (Transpantaneira) à MS-214.

A Secretaria de Infraestrutura de Mato Grosso informou, em resposta a questionamentos enviados à Assembleia Legislativa em abril, que o projeto está em estágio embrionário. Não há estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental (EVTEA) concluídos, nem licenciamento ambiental iniciado. A participação social também não foi realizada até o momento.

(Foto: Rede Sucuri)

Segundo Aynore, a ausência dessas etapas aumenta o risco de impactos irreversíveis, sobretudo sobre a fauna. “Os impactos decorrem de três vetores: perda de hábitat, aumento do fluxo rodoviário e estresse comportamental dos animais”, afirmou. Ele cita atropelamentos e a alteração de padrões de deslocamento de espécies como consequências prováveis do aumento do tráfego.

O especialista destaca ainda preocupação específica com a onça-pintada, cuja população na região de Porto Jofre está entre as mais estudadas do mundo.

“A obra aumenta o risco de atropelamentos, mas o ponto mais crítico é a perturbação de áreas de refúgio e reprodução”, disse. “Sem regulação rígida da observação de fauna, há risco de estresse crônico e impacto no sucesso reprodutivo”.

Hoje, o acesso à região inclui travessia por balsa, o que funciona como um “filtro natural” para o fluxo de visitantes. A substituição por uma ponte eliminaria essa limitação e poderia intensificar o trânsito de veículos, inclusive pesados.

O governo estadual afirma que a futura ligação rodoviária poderá melhorar a logística, facilitar a fiscalização ambiental e impulsionar o turismo de natureza. Para Aynoré, a relação não é automática.

(Foto: Rede Sucuri)

“A infraestrutura, por si só, não gera proteção. Ao contrário, amplia vetores de pressão antrópica”, afirmou. “Para que houvesse ganho ambiental, o projeto precisaria estar vinculado a medidas como controle de acesso, passagens de fauna e financiamento permanente da gestão ambiental. Nada disso está assegurado”.

Ele defende que, antes de novas obras, a região precisa de investimentos em saneamento, combate a incêndios, monitoramento ambiental e ordenamento da visitação. “A região não carece primariamente de uma ponte; carece de infraestrutura que promova resiliência socioambiental”, disse.

Em abril, o deputado estadual Lúdio Cabral (PT) também manifestou preocupação com o projeto. Para ele, a criação de um corredor viário na Transpantaneira também pode afetar o equilíbrio do bioma e colocar em risco espécies que hoje circulam livremente pela estrada, um dos atrativos do turismo de contemplação na região.

Compartilhe:

Matérias Relacionadas