
Um vídeo gravado na região de Porto Jofre, em Poconé (104 km de Cuiabá), que viralizou esta semana, voltou a expor os impactos do turismo de observação sobre a fauna pantaneira. As imagens mostram dezenas de embarcações motorizadas cercando uma única onça-pintada às margens do rio, enquanto turistas disputam espaço para fotografá-la.
Reconhecido internacionalmente como um dos principais destinos para observação de onças-pintadas em vida livre, Porto Jofre recebe visitantes de diversos países durante a temporada de seca. O crescimento da atividade, entretanto, reacendeu o debate sobre os limites entre o ecoturismo e o assédio aos animais.
Para o agrônomo, mestre em manejo de vida silvestre e empresário do ecoturismo Aynore Caldas, o cerco repetitivo por embarcações interfere diretamente no comportamento da espécie.
“A presença de dezenas de embarcações, especialmente quando se aproximam a menos de 20 metros, bloqueiam as margens ou rotas de fuga, ou aceleram bruscamente, impedem comportamentos naturais vitais, como caça e descanso, e alteram o bem-estar da espécie”, afirma.

Segundo Caldas, o estresse contínuo pode elevar os níveis de cortisol, reduzir a imunidade e comprometer a reprodução das onças. “Em felinos do gênero Panthera, o estresse mantido por dias ou semanas leva à perda de condição corporal e ao abandono de áreas de caça preferenciais”
O especialista também critica a ausência de pesquisas fisiológicas de longo prazo que permitam medir objetivamente esses impactos.
“Depois de mais de duas décadas de monitoramento das onças de Porto Jofre, surpreende que ninguém tenha se dedicado a recolher sistematicamente fezes para medir metabólitos fecais de glicocorticoides, método não invasivo considerado referência para avaliar estresse fisiológico. Enquanto planilhas de cortisol seguem virgens, consolidou-se uma longa arte de não medir”, diz.
Além das alterações fisiológicas, Caldas afirma que o excesso de embarcações modifica a rotina dos animais. Sob intensa pressão, explica, as onças reduzem o tempo dedicado ao descanso e à termorregulação, interrompem tentativas de caça e alteram seus deslocamentos em busca de áreas menos perturbadas.
Outro efeito apontado por ele é a chamada habituação forçada.
“A habituação forçada não significa que o animal não se incomoda. É um mecanismo de economia energética quando a fuga se torna impossível. Isso coloca a onça em uma zona de perigo, porque ela pode passar a se aproximar de embarcações e acampamentos em busca de alimento fácil e acabar sendo classificada como animal-problema”.
Na avaliação do especialista, os impactos também podem atingir a população da espécie. “A expulsão de fêmeas reprodutivas das margens mais produtivas reduz a capacidade de suporte do habitat. Modelos de viabilidade populacional indicam que a perda de apenas duas fêmeas adultas pode reduzir a taxa de crescimento da população entre 10% e 15%”.
Limite do ecoturismo
Como explica Caldas, há critérios técnicos que permitem distinguir o ecoturismo da importunação à fauna. “Existe um ponto tecnicamente claro. O ecoturismo deve gerar impacto mínimo, contribuir para a conservação e educar o visitante”, afirma.

Segundo ele, a atividade passa a configurar assédio quando altera o comportamento natural dos animais, reduz seu sucesso reprodutivo, provoca dependência alimentar ou ultrapassa limites de aproximação definidos por estudos técnicos.
“No Pantanal, recomenda-se distância mínima de 30 a 50 metros, no máximo três barcos simultâneos e permanência de 20 a 30 minutos por grupo de onça. Quando se constatam 15, 20 ou mais embarcações disputando espaço, motores desligados apenas no último instante e turistas tentando se aproximar cada vez mais, o bem-estar do animal deixa de ser prioridade”.
Crescimento sem ordenamento
Outra fonte ouvida pela Rede Sucuri, cuja identificação será preservada, aponta que o crescimento do turismo de observação em Porto Jofre ocorreu sem que fossem estabelecidas regras proporcionais para disciplinar a atividade.
Segundo essa avaliação, embora existam instrumentos legais voltados ao ecoturismo e à gestão da área, ainda faltam normas específicas que definam limites diários de embarcações, distanciamento obrigatório, tempo máximo de observação e protocolos padronizados para condutores.
Na mesma análise, a capacidade de fiscalização não acompanhou a expansão do turismo, o que dificulta a aplicação das normas existentes e o controle de práticas inadequadas durante a alta temporada.
A Rede Sucuri também recebeu denúncias sobre o abate ilegal de jacarés para consumo em embarcações turísticas, o que configura crime ambiental e representa um impacto ecológico relevante, uma vez que a espécie exerce papel importante no equilíbrio dos ambientes aquáticos do Pantanal.
Para a fonte, o fortalecimento da fiscalização sobre a comercialização de carne de animais silvestres e a adoção de protocolos mais rígidos pelos empreendimentos turísticos são medidas necessárias para combater esse tipo de prática. A fonte também defende que o licenciamento das atividades turísticas incorpore mecanismos de controle mais efetivos para coibir irregularidades.
Veja vídeos:
Turismo de observação cerca onças no Pantanal de Safira Campos

