Cerrado dentro da Amazônia: o que ainda não vemos?

Desafios à Conservação de ambientes pouco estudados

Quando falamos em Amazônia, o que vem à mente? Florestas densas, árvores altas, umidade constante. Mas e se eu te dissesse que, dentro desse cenário, existem áreas que parecem outro bioma?

Figura 1 – Enclaves de Cerrado nas Unidades de Conservação (Parque Estadual do Xingu, Parque Estadual do Cristalino e Estação Ecológica do Rio Ronuro). Fonte: Milton Omar Córdova

Foi a partir dessa inquietação que iniciei minha pesquisa na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus de Sinop. Ao aprofundar os estudos, me deparei com uma realidade ainda pouco conhecida pela ciência e pela sociedade: a existência de enclaves de Cerrado inseridos no sul da Amazônia.

Esses enclaves são formações savânicas isoladas, com solo, vegetação e dinâmica ecológica próprios. Funcionam como verdadeiras “ilhas” de Cerrado em meio à floresta amazônica. Apesar de sua relevância ecológica, são ambientes ainda pouco estudados, o que evidencia a necessidade de ampliar investigações científicas capazes de compreender sua biodiversidade e seu papel na manutenção dos ecossistemas.

Na minha pesquisa de Iniciação Científica, utilizei registros de herbários para mapear as espécies presentes nesses ambientes. Os resultados chamam atenção: um banco de dados com 3.222 registros, correspondentes a 1.289 espécies distribuídas em 189 famílias botânicas. Muitas dessas espécies apresentam ocorrência rara ou restrita, indicadoras de ambientes do bioma Cerrado, sendo que grande parte representa os primeiros registros fora desse bioma, o que reforça tanto a riqueza biológica quanto às lacunas de conhecimento existentes. Entre os registros de destaque está Byttneria irwinii Cristóbal, registrada em fevereiro de 2022, representando uma nova ocorrência para a Amazônia e ampliando o conhecimento sobre a distribuição geográfica da espécie na região. Pertencente à família Malvaceae, integra o mesmo grupo de hibiscos, paineiras e baobás.

Figura 2 – Byttneria irwinii Cristóbal (Nova ocorrência para Amazônia, registrada em 2022) Fonte: Milton Omar Córdova.

Mas o que significa dizer que os enclaves de Cerrado são áreas pouco conhecidas? Significa que podemos estar diante de espécies ameaçadas que ainda não foram suficientemente estudadas. Significa que processos ecológicos importantes ainda não foram totalmente compreendidos. E, principalmente, significa que estamos lidando com ambientes que podem desaparecer antes mesmo de serem devidamente reconhecidos pela ciência.

Ao longo da pesquisa, percebi que não fazia sentido manter esses resultados apenas no meio acadêmico. Foi assim que surgiu a ideia de transformar os dados em um infográfico, utilizando uma linguagem mais acessível, visual e direta. A proposta era simples: mostrar para as pessoas que existe Cerrado dentro da Amazônia, e que isso importa. Para tornar essa divulgação ainda mais visual, o pesquisador Dr. Milton Omar Córdova Neyra desenvolveu um perfil ecológico ilustrando os diferentes ambientes onde essas espécies ocorrem, como lagoas, rios, afloramentos rochosos, igarapés e igapós. 

Figura 3 – Perfil ecológico ilustrando Fonte: Milton Omar Córdova.

Com base nesse material, elaborei um infográfico científico reunindo os principais resultados da pesquisa de forma clara e acessível, demonstrando como a comunicação visual pode contribuir para aproximar a ciência da sociedade e ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade desses ambientes pouco estudados.

Esse trabalho foi premiado no Prêmio Cândida Soares de Divulgação Científica e Popularização da Ciência, durante o 33º Seminário de Iniciação Científica e Tecnológica, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (PROPESQ), evidenciando a importância de tornar o conhecimento científico mais acessível à sociedade. Além disso, a pesquisa também foi premiada no Prêmio UNESIN Excelência Científica 2026, promovido pela União das Entidades de Sinop, com menção honrosa na categoria Pesquisa Básica em Ciências Biológicas.

Figura 5 – Prêmio UNESIN Excelência Científica 2026 Fonte: UNESIN & Davi Dolzane.

Mais do que premiações, esses reconhecimentos mostram que a ciência desenvolvida na universidade pública precisa ultrapassar os limites acadêmicos e chegar até a população. Tornar o conhecimento acessível é fundamental para que as pessoas compreendam, valorizem e participem da conservação da biodiversidade.

Figura 6: Prêmio Cândida Soares de Divulgação Científica e Popularização da Ciência, durante o 33º Seminário de Iniciação Científica e Tecnológica, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (PROPESQ), Fonte: Davi Dolzane.

A resposta do público foi imediata. Muitas pessoas disseram nunca ter ouvido falar sobre enclaves de Cerrado. Outras demonstraram curiosidade, fizeram perguntas e quiseram entender mais. Esse retorno reforça algo que considero central: produzir ciência também é comunicar.

A divulgação científica, nesse contexto, assume um papel essencial. Ela aproxima a universidade da sociedade, transforma dados em conhecimento acessível e contribui para a formação de uma consciência ambiental mais crítica e informada.

Hoje, entendo que a ciência não termina quando a pesquisa acaba. Ela continua quando alguém lê, se interessa e passa a enxergar o mundo de forma diferente.

Talvez a pergunta que fique seja: quantos outros “Cerrados dentro da Amazônia” ainda existem e não estamos vendo? E, principalmente, quanto deles ainda precisamos conservar?

Davi Barbosa Dolzane

Autor do presente trabalho

Discente do curso de graduação em Engenharia Florestal da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Sinop. Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) no Herbário Centro-Norte Mato-Grossense (CNMT). Seu trabalho foi premiado no Prêmio Cândida Soares de Divulgação Científica e Popularização da Ciência (UFMT) e no Prêmio UNESIN Excelência Científica 2026, na categoria Pesquisa Básica em Ciências Biológicas. Contato: davijrt1@gmail.com

Prof. Dr. Domingos de Jesus Rodrigues

Orientador do presente trabalho

Biólogo, mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e doutor em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Realizou pós-doutorado na Griffith University, Austrália. É professor do Instituto de Ciências Naturais, Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Sinop, e coordenador do Núcleo de Estudos da Biodiversidade da Amazônia Mato-Grossense no diretório de grupos do CNPq. Atua na área de ecologia e conservação da biodiversidade amazônica. Contato: djmingo23@gmail.com 

Dr. Milton Omar Córdova Neyra

Coorientador do presente trabalho.

Biólogo pela Universidade Nacional Pedro Ruiz Gallo (Peru), mestre em Biologia Vegetal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e doutorando em Botânica pela Universidade de Brasília. Atua como pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e pesquisador associado do Herbário Centro-Norte Mato-Grossense (CNMT), da Universidade Federal de Mato Grosso. Desenvolve pesquisas em botânica, sistemática vegetal e diversidade florística amazônica. Contato: cordova.neyra@gmail.com 

Profª. Dra. Larissa Cavalheiro

Coorientadora do presente trabalho.

Bióloga, mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e doutora em Biotecnologia e Biodiversidade pela Universidade Federal de Mato Grosso, pela Rede Pró-Centro-Oeste. É professora do Instituto de Ciências Naturais, Humanas e Sociais, campus de Sinop, e curadora do Herbário Centro-Norte Mato-Grossense (CNMT). Atua nas áreas de botânica, taxonomia vegetal e curadoria de coleções científicas. Contato: larissacavalheiro@gmail.com

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