Com El Niño no radar da soja, risco climático preocupa o agro em MT

Boletim do Imea estima queda de 5,2% na produção da safra 2026/27; em audiência na ALMT, representante do Observatório do Código Florestal defendeu a lei como instrumento de adaptação climática.

(Foto: Governo de Mato Grosso / Montagem: Rede Sucuri)

Um boletim divulgado nesta semana pelo Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) sobre os efeitos do El Niño na safra de soja em Mato Grosso foi usado por ambientalistas para defender que a implementação do Código Florestal seja tratada também como uma medida de adaptação climática.

A avaliação foi feita por Marcelo Espineli Elvira, representante do Observatório do Código Florestal, durante audiência pública realizada nesta quinta-feira (25) na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Convocado pelo deputado estadual Lúdio Cabral (PT), o debate reuniu pesquisadores, ambientalistas e representantes de órgãos públicos para discutir propostas legislativas que, segundo os participantes, podem enfraquecer a proteção ambiental no estado.

Marcelo Elvira, do Observatório do Código Florestal (Foto: TV ALMT)

Ao citar o boletim do Imea, Marcelo afirmou que o documento mostra que o risco climático já é levado em conta pelo setor produtivo. “O próprio agro já tem noção de que tem risco climático associado à produção deles”, disse. Para ele, a aplicação do Código Florestal pode ajudar a reduzir parte desses impactos.

“O código é uma lei que, se bem aplicada, pode ser usada para adaptação e mitigação às mudanças climáticas”, afirmou. “A legislação muitas vezes é vista como um atraso ou uma invasão à propriedade, mas a gente já tem muitas evidências desse risco climático e a implementação do código tem potencial de suavizar esses impactos”.

O boletim semanal da soja, publicado pelo Imea em 22 de junho, destaca que a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, confirmou o início dos sinais de El Niño no oceano Pacífico Equatorial. Segundo o instituto, o fenômeno altera a distribuição das chuvas no Brasil, com tendência de maior volume de precipitação no Sul e aumento da irregularidade no Centro-Oeste, no Norte e no Matopiba.

Em Mato Grosso, principal produtor de soja do país, o El Niño tende a elevar o risco de veranicos e de déficit hídrico ao longo do ciclo da cultura, o que pode afetar a semeadura e o desenvolvimento das lavouras. O Imea estima a produção estadual da safra 2026/27 em 48,88 milhões de toneladas, recuo de 5,20% em relação à temporada anterior. O próprio boletim ressalta, porém, que a concretização desse cenário dependerá da intensidade do fenômeno ao longo da safra.

Na audiência, Marcelo disse que o Código Florestal não deve ser visto apenas como uma obrigação ambiental imposta ao produtor, mas como parte da infraestrutura necessária para reduzir riscos associados à produção agropecuária. A lei está ligada a políticas climáticas, metas de biodiversidade, planos de combate ao desmatamento e ações de recuperação da vegetação nativa.

Mapa capturado por satélite / Observatório da Terra da Nasa

Segundo o representante do Observatório, Mato Grosso tem papel relevante nesse debate porque está acima da média nacional em pontos da implementação do Código Florestal, como a análise do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e a assinatura de termos de compromisso. Ao mesmo tempo, afirmou, o estado ainda tem um passivo ambiental expressivo.

De acordo com dados analisados pelo Observatório, Mato Grosso tem mais de 4,5 milhões de hectares de passivo de reserva legal e mais de 300 mil hectares de passivo em áreas de preservação permanente. Por outro lado, também possui cerca de 5,6 milhões de hectares de excedente de vegetação nativa em imóveis rurais.

Para ele, esses números mostram que a implementação da lei pode combinar cobrança de regularização de quem tem passivos e instrumentos econômicos para reconhecer quem mantém vegetação acima do mínimo exigido. “Quem deve paga, quem tem a mais recebe”, disse, ao defender mecanismos como cotas de reserva ambiental e pagamentos por serviços ambientais.

 

Compartilhe:

Matérias Relacionadas