
O Pantanal, maior território úmido contínuo do planeta, tem muito a dizer. Literalmente. Nos últimos anos, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP) tem se dedicado a ouvir os sons do bioma para compreender como ele está mudando diante do avanço das queimadas e das alterações climáticas.
À frente de uma das linhas de investigação está Carolline Zatta Fieker, bióloga e doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), especialista em ecologia de aves e bioacústica. Ela atua como bolsista do Programa de Capacitação Institucional do CNPq no INPP e integra o grupo de pesquisa Computational Bioacoustics Research Unit (Co.BRA), sediado na UFMT. Sua pesquisa busca compreender “os sons do Pantanal em meio às mudanças climáticas”, um trabalho que combina ciência de campo, inteligência artificial e sensibilidade ambiental.
Carolline explica que o estudo parte da ecologia acústica, um campo que analisa não apenas os sons produzidos por animais, mas toda a paisagem sonora de um ambiente incluindo ruídos da água, do vento e até sons gerados por atividades humanas.
“A bioacústica estuda como os sons são produzidos e usados pelos animais. Já a ecologia acústica amplia essa visão e olha para todos os sons de um ecossistema. A partir deles, conseguimos entender como a biodiversidade interage com o ambiente e até identificar sinais de desequilíbrio”, afirma.
Cada som, segundo ela, carrega uma identidade ecológica. “Ouvindo o ambiente, conseguimos saber quais espécies estão ali, se o local está seco ou alagado, se há espécies típicas de áreas abertas aparecendo em florestas. O som revela a saúde do ecossistema”, diz.
Quando o fogo muda a paisagem sonora
Em uma das pesquisas conduzidas pelo grupo, gravações feitas após os incêndios de 2020 mostraram que o fogo altera a estrutura das comunidades de aves. Áreas de floresta que deveriam abrigar espécies típicas passaram a registrar sons de aves adaptadas a ambientes abertos.

“Os sons nos mostraram que o fogo muda a composição das espécies”, conta Carolline. “Quando deixamos de ouvir determinadas vocalizações, isso indica que algo está errado”.
O projeto Sons do Pantanal, criado em 2012 no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Áreas Úmidas (INCT-INAU), é a base dessa linha de pesquisa. Hoje, o grupo mantém oito gravadores automáticos distribuídos em diferentes pontos do bioma. Quatro deles são voltados a estudar a vocalização dos jacarés e outros quatro coletam sons de aves e anfíbios para comparar com registros feitos há mais de dez anos.
Os equipamentos, instalados em locais de difícil acesso, gravam 24 horas por dia. “É um método de amostragem não invasivo e muito eficiente”, diz Carolline. “O gravador continua coletando dados mesmo quando os pesquisadores não estão lá. Ele registra sons que talvez não ouviríamos, seja porque o animal não vocalizou no momento da visita, seja porque nossa presença o espantou”.
Inteligência artificial a serviço da conservação
O desafio agora é lidar com o imenso volume de informações acumuladas. O laboratório de bioacústica da UFMT abriga cerca de 300 terabytes de gravações, o equivalente a dezenas de milhares de horas de sons. Para analisar esse material, o grupo passou a usar algoritmos de aprendizado de máquina capazes de reconhecer automaticamente espécies e padrões sonoros.
“A inteligência artificial abriu novas possibilidades”, explica a pesquisadora. “Ainda precisamos de especialistas ouvindo os sons, mas já conseguimos automatizar parte das detecções e acelerar a análise dos dados”.
Além das gravações de longo prazo, o laboratório também estuda vocalizações específicas, como as do quero-quero, para associar padrões sonoros a fases reprodutivas. “Saber quando uma espécie vocaliza mais permite acompanhar sua dinâmica reprodutiva e entender melhor sua ecologia. Isso ajuda a definir períodos de proteção e manejo mais adequados”, explica Carolline.
“Os coros da manhã são a minha parte preferida”
Apaixonada por aves desde a graduação, Carolline descobriu a bioacústica ainda estudante, quando acampava em expedições no Parque Nacional do Iguaçu. “Ali percebi que muitas vezes a gente ouve mais do que vê as aves”, lembra. Desde então, seguiu carreira estudando comunidades de aves, até chegar ao Pantanal, onde hoje pesquisa as paisagens sonoras do bioma.
Quando perguntada sobre seus sons favoritos, ela não hesita: “Gosto dos coros da manhã, quando as aves começam a vocalizar antes do nascer do sol. É o momento em que o Pantanal desperta. Também gosto dos coros noturnos, com anfíbios e corujas. Se tivesse que escolher uma espécie, diria o pavão-do-Pará, o som é melancólico, mas muito bonito”.
Para Carolline, a escuta é uma forma de vigilância ambiental. “Os sons contam histórias sobre o ambiente. Quando a gente para de ouvir certas espécies, é um alerta. A bioacústica permite detectar esses sinais e orientar ações de conservação antes que seja tarde”.
O projeto mostra que, em tempos de crise climática, ouvir pode ser tão importante quanto ver. No Pantanal, o futuro da conservação pode depender da capacidade humana de interpretar a sinfonia da natureza.

