Pantanal encolhe e áreas alagadas somem 93% em 35 anos, aponta estudo recente

Modelos projetam que, até 2050, áreas alagadas quase desaparecerão; pressão do agronegócio no planalto e clima mais seco são principais motores da transformação.

Pantanal encolhe e áreas alagadas somem 93% em 35 anos, aponta estudo recente (Imagem: Mapbiomas / Montagem: Rede Sucuri)

O Pantanal vive um processo acelerado de transformação que ameaça o ciclo de cheias que define o bioma. Em 35 anos, a superfície coberta por água na bacia do Alto Paraguai, que engloba o Pantanal e o planalto que o abastece, caiu 93,5%. As áreas úmidas também recuaram 71%. Os dados fazem parte de um estudo publicado neste mês no Journal of Environmental Management e conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em parceria com cientistas internacionais.

Com projeções até 2050, o trabalho indica que a maior planície inundável do planeta corre o risco de entrar numa fase de colapso hidrológico. A água, que já se concentra hoje em lagoas e braços de rio, pode ocupar menos de 1% da área total da bacia no fim das próximas décadas. Confira o artigo na íntegra neste link.

“O que define o Pantanal é a inundação. E essa água está diminuindo de maneira acelerada”, afirma o engenheiro florestal Lucas Barros-Rosa, um dos autores do estudo. Segundo ele, caso o cenário atual se mantenha, o bioma pode atingir “um período sem retorno”, à semelhança do que ocorreu nos Everglades, nos EUA, onde bilhões de dólares em restauração não foram capazes de devolver o ecossistema ao estado original.

Para Lucas Barros da Rosa, um dos autores do estado, o Pantanal já pode estar próximo de um “ponto sem retorno” (Foto: Arquivo Pessoal)

O estudo analisou, ano a ano, as imagens do MapBiomas entre 1985 e 2020 para entender como o território mudou ao longo do tempo. A partir disso, os pesquisadores usaram um tipo de simulador que aprende com o passado, uma combinação de técnicas matemáticas e computacionais, para prever como a região pode ficar nas próximas décadas. Em resumo, o programa identifica os padrões dessas mudanças e projeta o que tende a acontecer se tudo continuar no mesmo ritmo.

Os resultados mostram que as pastagens aumentaram 139% desde 1985, a agricultura cresceu 202%, a vegetação nativa caiu de 76% para 54% da bacia. Além disso, a água passou de 7,6% para 1,9% da área total, e pode chegar à casa de 0,5% em 2050.

As áreas de água e de vegetação periodicamente inundada deram lugar sobretudo a campos secos e pastagens plantadas, o que para os pesquisadores caracteriza uma degradação funcional do Pantanal. A autora principal do artigo, doutora em Física Ambiental, Nivalda Nunes, explica que áreas que antes eram alagadas estão virando formações campestres ou pastagens, uma mudança que, nas imagens, pode parecer apenas variação de vegetação, mas na prática representa perda das áreas úmidas.

A pesquisadora afirma que o ritmo das mudanças surpreendeu até mesmo o grupo. “São transformações que, naturalmente, levariam décadas. Mas estão acontecendo muito rápido”, diz.

Planalto: onde nasce o problema

A autora principal do artigo, doutora em Física Ambiental, Nivalda Nunes, explica que áreas que antes eram alagadas estão virando formações campestres ou pastagens no Pantanal (Foto: Arquivo Pessoal)

Embora o Pantanal concentre o colapso hídrico, os cientistas destacam que suas causas principais estão na parte alta da bacia,  o Planalto, que vai da Baixada Cuiabana a áreas de Nobres, Rosário Oeste, Cáceres e regiões do sul de Mato Grosso e norte do Mato Grosso do Sul. É ali que nascem os rios que alimentam o Pantanal e é também onde houve as maiores perdas de vegetação nativa, substituída por soja, milho, pastagens e infraestrutura associada ao agronegócio.

“Mesmo que o Pantanal em si não tenha sido muito ocupado, o entorno foi. E é no entorno que estão as nascentes”, explica Lucas. “O modelo mostra que os dois principais fatores de mudança são a expansão da agricultura e a redução das chuvas.”

As chuvas, por sua vez, são influenciadas pela Amazônia: o transporte de umidade que abastece o Pantanal depende da floresta. O desmatamento amazônico reduz essa carga de vapor d’água, diminuindo as precipitações no Centro-Oeste. “É um efeito cascata. Menos floresta na Amazônia significa menos chuva no Pantanal”, diz Nivalda.

Com menos água circulando, o Pantanal perde funções ecológicas essenciais: berçários de peixes e aves desaparecem, jacarés se concentram em poças isoladas, onças e antas perdem território, e ribeirinhos veem rios antes perenes virarem fiapos na seca. Nivalda, que é professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) em Barra do Bugres (a 177 km de Cuiabá), relata que o processo já pode ser observado a olho nu. “A gente vê bancos de areia enormes, o nível do rio despenca, e a população sente isso na pesca e no abastecimento de água”, afirma.

 

Estratégias e políticas públicas

Os pesquisadores destacam que a solução não está apenas no Pantanal. Ela depende de uma gestão integrada da bacia do Alto Paraguai, algo que, segundo eles, ainda não acontece. “As leis focam no Pantanal, mas ignoram o planalto, que é de onde vem a água”, diz Lucas. “Sem proteger o planalto, não tem Pantanal.”

(Foto: Lucas Barros da Rosa)

As medidas defendidas pelos cientistas vão desde a recuperação de nascentes e matas ciliares, pagamento por serviços ambientais a produtores que conservam áreas nativas, controle rigoroso de novos empreendimentos agrícolas, hidrelétricos e de drenagem. Além disso, seria igualmente importante monitoramento climático e hidrológico integrado e revisão de leis recentes que ampliam pastagens exóticas no Pantanal, consideradas de alto risco por especialistas.

Os modelos projetam que a maior queda das áreas úmidas deve ocorrer entre 2030 e 2050. Para os autores, é esse intervalo que definirá se o bioma seguirá um curso de degradação irreversível. “É um cenário preocupante, mas não inevitável”, afirma Nivalda. “O estudo aponta que ainda existe espaço para evitar o pior. Mas depende de decisões políticas imediatas”.

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