
Em meio à Amazônia Meridional, longe do barulho urbano e da lógica tradicional das trilhas de aventura, um novo tipo de experiência turística começa a ganhar espaço no interior de Mato Grosso. A pousada Jardim da Amazônia Lodge tem recebido edições do Florestia Experience, uma imersão organizada pela agência de turismo Tapira Expedition que aposta no bem-estar como fio condutor do turismo local.

A proposta segue uma tendência global. O turismo de bem-estar é hoje um dos segmentos que mais crescem no mundo: deve movimentar US$ 1,3 trilhão até o fim de 2025, segundo o Global Wellness Institute. Publicações do Ministério do Turismo, Skyscanner e Accor apontam que a busca por experiências de autocuidado, descanso e longevidade já se tornou central nas escolhas de viagem, e que viajantes aceitam pagar mais por vivências que integrem corpo, mente e natureza.
No interior mato-grossense, a Tapira Expedition tenta adaptar esses movimentos globais a uma lógica regional, com menos luxo e mais contato direto com o território. Confira ao final desta matéria, um vídeo com detalhes da imersão.
A imersão segue um percurso cuidadosamente estruturado pela terapeuta Eliane Ferreira, diretora da Tapira Expedition e idealizadora do Florestia Experience. Com formação em práticas integrativas e medicina tradicional chinesa, ela explica que a jornada começa pelo que considera o coração do projeto: o banho de floresta, um método japonês conhecido como Shinrin-Yoku.
Segundo Eliane, a prática não é apenas uma caminhada: envolve estímulos sensoriais que ajudam o visitante a desacelerar e “adentrar a natureza com atenção total”. No Brasil, onde os biomas variam tanto, ela defende que o ritual pode ser adaptado a qualquer ambiente, desde que haja orientação técnica e condução terapêutica adequada.

A partir dessa primeira etapa, o roteiro incorpora práticas que misturam saberes asiáticos, científicos e tradicionais brasileiros. Entre elas exercícios bioenergéticos (Qi Gong), que ajudam a liberar tensões musculares e alinhar respiração e postura; argiloterapia, usada para limpeza da pele e reconhecimento de possíveis inflamações ou dores; automassagem e reflexologia podal, técnicas orientais que trabalham pontos energéticos específicos; e escalda-pés com ervas, prática presente tanto em culturas tradicionais brasileiras quanto africanas, voltada à circulação e ao relaxamento.
A novidade da atual edição é um módulo exclusivo de fitoterapia do Pantanal, desenvolvido com plantas colhidas de forma sustentável pela comunidade quilombola Mata Cavalo. Os visitantes podem conhecer as espécies, aprender a preparar chás e experimentar blends desenhados em conjunto com os quilombolas. “Essas práticas ajudam o visitante a se perceber e reconhecer seus limites. O terapeuta funciona como agente preventivo, capaz de orientar e ampliar o autocuidado”, explica Eliane.
Estratégia contra a sazonalidade

A criação do Florestia Experience também responde a um problema recorrente no turismo mato-grossense: a forte sazonalidade. A maior parte dos turistas estrangeiros visita o Pantanal entre maio e novembro, enquanto outros destinos do estado, como Amazônia e Cerrado, também ficam esvaziados na baixa temporada.
Para Eliane, experiências de bem-estar podem funcionar como um antídoto. “Há um público que pode viajar o ano todo e busca descanso e atividades extras. Se as pousadas oferecerem vivências terapêuticas, conseguem aumentar a permanência dos visitantes e melhorar o faturamento”, explica.
Segundo ela, pequenas propriedades, mesmo com diárias mais acessíveis, podem incorporar elementos simples, como acolhimento, equipe treinada e ambientes preparados para relaxamento, para atender a um público que já demonstra interesse.
Município quer se firmar como polo de turismo multiformato

A secretária de Indústria, Comércio e Turismo de São José do Rio Claro, Rosângela Pereira, afirma que a chegada de projetos como Florestia Experience vão ao encontro de uma estratégia mais ampla da gestão municipal: diversificar o turismo e integrar rotas regionais. “Somos parte da Amazônia Meridional, uma área de transição entre Cerrado e Amazônia. Isso dá ao município uma riqueza que atrai desde observadores de aves até visitantes que buscam experiências sensoriais e de bem-estar”, diz.
A cidade quer se consolidar como ponto de chegada de uma rota que conecta Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Nobres e Diamantino. Segundo Rosângela, essa diversificação tem fortalecido a economia local e vem impactando desde pousadas e transportes até lojas, supermercados e produtores rurais.
O município também aposta em outros projetos, como a Rota de Turismo Rural, que inclui visitas a produtores de cachaça, queijos premiados e iniciativas lideradas por mulheres. “O turista chega por um motivo, mas encontra vários segmentos. Nosso papel é apoiar e incentivar essa cadeia”, afirma.
Natureza como parceira, não cenário
Na pousada Jardim da Amazônia, onde a experiência ocorre, a paisagem amazônica não funciona apenas como pano de fundo, mas como agente central da proposta. Como explica Eliane, a imersão busca a ideia de que florestas, rios e sons naturais são parte ativa do processo de cura, descanso e reconexão e não meros atrativos turísticos.

