Reconhecimento leva servidor de Mato Grosso aos palcos de Harvard e do MIT

Coordenador do Subprograma Produção Sustentável e ex-coordenador do Subprograma Territórios Indígenas do REM MT, Marcos Antônio Camargo Ferreira foi reconhecido pela Brazil Conference e vai apresentar, nos Estados Unidos, um modelo de política pública que alia justiça climática, protagonismo indígena e resultados concretos contra o desmatamento.

(Foto: REM / Montagem: Rede Sucuri)

Selecionado como um dos vencedores do programa Servindo o Brasil 2026, o engenheiro florestal e servidor público Marcos Antônio Camargo Ferreira, do Estado de Mato Grosso, está entre os nomes que vão ocupar os palcos da Brazil Conference, a maior conferência sobre o Brasil realizada fora do país. O evento chega à 12ª edição em 2026 e ocorre nos campi das universidades de Harvard e MIT, em Cambridge, nos Estados Unidos, e reúne lideranças, acadêmicos e estudantes para debater caminhos possíveis para o futuro do país.

À frente do Subprograma Territórios Indígenas (STI), dentro do Programa REM MT, Marcos foi reconhecido por uma atuação que transforma recursos internacionais em autonomia local, e coloca povos indígenas no centro das decisões sobre políticas ambientais. O modelo, que já beneficiou centenas de aldeias em diferentes biomas de Mato Grosso e evitou milhares de hectares de desmatamento, também acumula prêmios e reconhecimentos técnicos no Brasil.

À Rede Sucuri, Marcos Ferreira fala sobre o significado do reconhecimento, os desafios de romper com modelos burocráticos tradicionais e o que pretende levar à plateia de uma das universidades mais influentes do mundo.

Rede Sucuri: Qual é hoje o principal desafio para proteger territórios indígenas dentro das políticas públicas ambientais?

Marcos Antônio Camargo Ferreira: O maior desafio não é apenas a falta de recursos, mas o modelo burocrático. Historicamente, o Estado decidiu pelo indígena, e não com ele. Romper essa barreira exige descentralizar o poder e confiar na capacidade de gestão das comunidades. O desafio é transformar o Estado de um “tutor” em um parceiro estratégico de viabilização.

Rede Sucuri: Como o Subprograma Territórios Indígenas (STI) atua no dia a dia?

Marcos Antônio Camargo Ferreira: O STI atua na ponta, transformando recursos globais em autonomia local. Na prática, apoiamos desde a formação de brigadas indígenas para o combate a incêndios até o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. Tudo isso acontece através de editais onde as próprias associações indígenas propõem, gerenciam e prestam contas do recurso seus projetos, garantindo que o investimento chegue onde a vida acontece: no território.

Rede Sucuri: Como os povos indígenas participam das decisões e da execução do programa?

Programa REM MT, por meio do STI, apoia projetos como o de criação de SAFs em aldeias no Parque Indígena do Xingu (Foto: REM-MT)

Marcos Antônio Camargo Ferreira: Eles são os protagonistas, não apenas beneficiários. A participação ocorre em dois níveis: na decisão, através de um Comissão de Governança onde as lideranças têm voz e voto nas diretrizes do programa; e na execução, onde 66,6% dos nossos projetos são geridos diretamente por organizações indígenas. Aplicamos o princípio da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) como regra, não como exceção.

Rede Sucuri: Você acredita que o reconhecimento internacional ajuda a blindar políticas ambientais de retrocessos locais?

Marcos Antônio Camargo Ferreira: Com certeza. O reconhecimento internacional cria um “custo reputacional” para retrocessos. Quando um modelo como o STI é validado por instituições como o KfW e discutido em Harvard, ele passa de um projeto de governo para um patrimônio do Estado e da sociedade. Isso atrai novos parceiros e fortalece a resiliência da política pública contra instabilidades políticas sazonais.

Rede Sucuri: O que você pretende enfatizar ao falar na conferência?

Marcos Antônio Camargo Ferreira: Gostaria de enfatizar que o Brasil possui uma “Tecnologia Social de Governança” pronta para ser escalada. Mostraremos que é possível unir rigor fiscal, transparência internacional e protagonismo indígena. Nosso foco será provar que a justiça climática só é real quando quem protege a floresta pode participar ativamente dos processos de tomadas de decisão.

Rede Sucuri: Que imagem do serviço público brasileiro você quer levar para uma plateia internacional?

Marcos Antônio Camargo Ferreira: Quero levar a imagem de um serviço público técnico, resiliente e inovador. Quero quebrar o estereótipo da burocracia lenta e mostrar servidores que, mesmo em contextos complexos, são capazes de entregar soluções de classe mundial. Quero que vejam um Estado que serve ao cidadão respeitando sua cultura e promovendo sua dignidade.

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