
Todos os dias fazemos escolhas! Escolhemos destinos, pessoas, projetos, políticos. E no centro de cada escolha existe uma força invisível, mas poderosa, que determina não só o resultado, mas a qualidade de toda a jornada. Essa força chama-se ética!
É curioso: enquanto o Mato Grosso do Sul e outros destinos evoluem para o turismo sensorial e carbono neutro, o Mato Grosso parece apostar no modelo “quanto mais, melhor”. Trinta e cinco barcos perseguindo uma única onça-pintada e atrapalhando o seu comportamento de caça não é observação, é um safári de ego disfarçado de ecoturismo. Falta controle de carga, planos de gestão e ações efetivas para proteger os três biomas do estado.
A gestão turística estadual parece se pautar por uma lógica de boletim escolar: o que importa é a nota, não o aprendizado. Os comunicados oficiais vibram com índices de crescimento, enquanto a experiência concreta do turista e a saúde dos ecossistemas ficam na sala de espera.
Destinos viram “febre” nas redes sociais: a nova cachoeira “instagramável”, o mirante “único”. Gestores e empresários correm para surfar a onda, promovendo o hype, mas sem preparar o terreno. No entanto, ninguém pergunta: esses turistas voltaram satisfeitos? O dinheiro ficou nas comunidades? As trilhas e os rios aguentaram o tranco? É como comemorar o aumento de fluxo em um restaurante famoso enquanto a cozinha pega fogo e os garçons estão de greve! O resultado? Superlotação, degradação ambiental instantânea e uma reputação digital que se torna de “lugar dos sonhos” para “armadilha para turistas” em uma temporada.
Fala-se em “investir em infraestrutura, logística e segurança”. O turista, porém, encontra estradas esburacadas que simulam trilhas de aventura não autorizadas, sinalização turística que parece uma caça ao tesouro e saneamento básico que é uma lenda urbana (ou rural). A infraestrutura sustentável, energia solar, gestão de resíduos e controle de capacidade de carga é artigo de luxo para projeto piloto. É o “desenvolvimento pela metade”: atrai-se o visitante, mas nega-se a ele (e à população local) a dignidade de serviços básicos.
Mato Grosso possui, de fato, um patrimônio natural de tirar o fôlego: três biomas majestosos (Pantanal, Cerrado e Amazônia) e o ecossistema do Araguaia. O estado não precisa de gestores que sejam apenas contadores de histórias (e de visitantes). Precisa, urgentemente, de gestores que construam bases. A rota atual, do vale-tudo numérico e da negligência com os fundamentos, só leva a um lugar: a degradação irreversível do próprio produto que se vende. O turista internacional e nacional, cada vez mais consciente, não busca apenas um cenário bonito, busca autenticidade, respeito socioambiental e qualidade.
Quando perceber que, por trás da paisagem deslumbrante, há descaso, ele simplesmente irá para outro lugar e levará seus dólares, reais e euros junto. O humor aqui é ácido porque a situação é trágica. Rir da incompetência é uma forma de não chorar diante da imensidão que está sendo malbaratada! O tempo de mudar é agora, antes que as únicas coisas restantes para contar sejam histórias de como “era lindo” e as multas aplicadas tardiamente pela Justiça. O verdadeiro legado não será medido em porcentagens de crescimento, mas na vitalidade dos rios, na satisfação das comunidades e na memória positiva do turista que de fato voltará!
Saudações Ambientais,
Aynore Soares Caldas é técnico em Turismo, guia de turismo, empresário do ecoturismo em Mato Grosso, agrônomo e mestre em Manejo de Vida Silvestre

