As Formigas Cortadeiras: Engenheiras Da Floresta

Como esses insetos cultivam fungos e reciclam nutrientes

Seja como cortadeira, saúva ou quenquém, a popular formiga carregadeira (insetos do gênero Acromyrmex e Atta) tem uma aparência que, de primeira, pode espantar. Com uma mandíbula proeminente, é fácil que seja julgada, mas esse formato de “alicate” faz muito mais do que apenas assustar. 

Essa importante estrutura do seu corpo auxilia na defesa da colônia contra ataques físicos de predadores, serve também para cortar partes da vegetação e para transportar esses materiais para dentro do ninho. Aqui uma curiosidade: as formigas podem carregar entre 20 a 50 vezes o seu próprio peso. E, ao contrário do que muitos imaginam, essas folhas cortadas não servem de alimento direto para as formigas. É isso mesmo. As formigas mastigam essas folhas, que se juntarão a outros resíduos gerados pela colônia, produzindo uma fonte rica em nutrientes para um fungo que vive no solo, chamado Leucoagaricus gongylophorus. Esse processo representa uma forma eficiente de ciclagem de nutrientes, em que a matéria vegetal é transformada e reaproveitada dentro do próprio sistema. É desse fungo que as formigas se alimentam.

Formigas cortadeiras transportando uma folha – Leafcutter ants. (Fonte: Geoff Gallice/2011).

Esta é uma relação entre espécies diferentes que acontecem de forma simbionte, ou seja, a formiga e o fungo estabelecem uma relação mutualística, troca de benefícios fundamentais para a sobrevivência. Por um lado, a formiga fornece ao fungo folhas picadas e por consequência – e dependência – este fungo cresce e se torna um pilar fundamental do sustento das formigas, que passam a se alimentar dos fungos. Essa relação evidencia como diferentes organismos dependem uns dos outros para manter o funcionamento do ambiente.

E onde ocorre o cultivo desse jardim de fungos? A estrutura subterrânea montada pelas cortadeiras é complexa e cheia de “panelas”, que são câmaras específicas usadas na preparação do alimento. O manejo sanitário é altamente eficaz, pois é realizado com rigorosidade para que não seja contaminado por pragas.

Há uma limpeza executada com substâncias produzidas pelas próprias formigas, quase como uma farmácia própria! As bactérias existentes no corpo da formiga entram em contato com o “jardim” e impedem o crescimento de vírus, parasitas e outros patógenos, que possam competir ou matar o fungo. 

Estudos mostram que, embora frequentemente associadas aos prejuízos econômicos causados por sua atividade de herbivoria – especialmente em áreas agrícolas –, as formigas-cortadeiras também desempenham um papel ecológico importante, contribuindo para a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas. Durante o processo dessa agricultura fúngica, nutrientes são liberados no solo e promovem o crescimento de plantas e enriquecimento ambiental. A terra fica “fofa” e facilita a infiltração de água e oxigênio. Esses processos contribuem diretamente para a manutenção da qualidade do solo e para a dinâmica dos ecossistemas. Outro aspecto interessante é que as formigas ao buscarem flores, folhas, brotos, frutos e outros, pode haver o processo de dispersão de sementes, ou seja, também podem contribuir para o reflorestamento. Diante das estruturas, das relações estabelecidas e desses mecanismos tão inteligentes, pode-se dizer que as cortadeiras são engenheiras da floresta!

Como estudante de Engenharia Sanitária e Ambiental, observar esse sistema revela como a natureza cria soluções eficazes de equilíbrio e reaproveitamento – algo que buscamos nas cidades. O que à primeira vista parece apenas formigas carregando folhas se mostra um sistema sofisticado de evolução e sobrevivência. Sem plantas, não há fungo. Sem fungo, não há formiga. E, sem essas relações, o equilíbrio ambiental se perde. Essa interdependência reforça que os sistemas naturais funcionam de forma integrada, sem elementos isolados. Ao olhar para essas conexões, percebemos que a natureza tem se aperfeiçoado, há milhões de anos. Talvez o maior desafio humano não seja eliminar o que nos causa prejuízo, mas compreender que, muitas vezes, o que é problema para a produção agrícola é essencial para o equilíbrio da natureza – e encontrar formas de manejo que considerem esse equilíbrio.

Giovanna Tortorelli Lima é estudante de Engenharia Sanitária e Ambiental na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

 

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