Imagine tentar ensinar algo novo a uma criança que, por diferentes razões, encontra dificuldade em manter a atenção, interagir ou responder a estímulos tradicionais. Agora imagine que, de repente, um pequeno robô começa a se movimentar, emitir sons e “responder” às ações dessa criança. O olhar muda. A curiosidade aparece. E, com ela, a possibilidade de conexão.
Foi a partir dessa ideia que desenvolvemos, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o OTTO: um robô terapêutico de baixo custo pensado para apoiar intervenções com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Como pode ser observado nas fotos abaixo, trata-se de um robô compacto, amigável e projetado para favorecer a interação com o público infantil, que pode ser utilizado em conjunto com cartões e objetos sensoriais produzidos em impressão 3D, ampliando as possibilidades de estímulos durante as atividades terapêuticas.
Robô OTTO. Fonte: Autoria própria.
A ideia surgiu da constatação de que robôs terapêuticos disponíveis comercialmente possuem custos elevados, o que limita seu uso em clínicas e outros contextos de atendimento. Diante disso, nós propusemos o desenvolvimento de uma alternativa acessível, capaz de manter o potencial de interação e engajamento por meio de um robô simples, programável e adaptável.
O OTTO é capaz de realizar movimentos controlados, emitir sons, reproduzir mensagens de voz e responder a estímulos específicos durante as atividades. Com a capacidade de vocalizar até 170 frases, dançar músicas infantis e reproduzir expressões faciais por meio de uma matriz de LEDs, o robô proporciona um ambiente social mais previsível e menos intimidador. Essas características permitem que atue como um mediador ativo, incentivando a participação e a continuidade nas atividades propostas.
Em uma parceria com o Centro de Reabilitação Integral Dom Aquino Corrêa (CRIDAC), em Cuiabá – Mato Grosso, terapeutas especializadas integraram o robô às sessões de maneira experimental, testando o uso prático junto a crianças com TEA. Um dos principais pontos observados foi a facilidade com que o OTTO captava a atenção das crianças, aspecto fundamental no contexto terapêutico, em que o maior desafio muitas vezes não está na atividade em si, mas no engajamento inicial.
As terapeutas relataram que o robô conseguiu manter a atenção das crianças por períodos prolongados, com casos de interesse contínuo por mais de 20 minutos. Esse nível de foco é especialmente relevante diante dos desafios de atenção e interação social comuns em crianças com TEA, como a dificuldade em manter contato visual.
A partir desse engajamento, foram observados avanços em atividades como seguir comandos, imitar movimentos e responder a estímulos visuais e sonoros, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras e de comunicação. Em alguns casos, crianças que anteriormente não se comunicavam verbalmente passaram a repetir palavras e sons, indicando progresso na linguagem.
Outro aspecto relevante é o uso da repetição. Embora essencial em terapias, as atividades repetitivas nem sempre são atrativas para as crianças. Com o OTTO, torna-se possível variar a forma de execução das atividades, utilizando movimentos, sons e pequenas mudanças de estímulo. A dança do robô, por exemplo, foi utilizada como recurso de estimulação motora, incentivando a imitação de movimentos e promovendo melhorias na coordenação.
Para ampliar as possibilidades de interação, o OTTO passou a incorporar objetos sensoriais produzidos por impressão 3D. Esses objetos estimulam diferentes sentidos, como tato, visão e audição, por meio de variações de textura, cor e formato. O robô reconhece cada objeto e pode verbalizar informações como nome ou cor, tornando a atividade mais interativa. Na prática, isso configura uma experiência multissensorial, favorecendo o desenvolvimento da linguagem, da atenção compartilhada e da associação entre diferentes estímulos, aspectos especialmente relevantes para crianças com TEA.
Além disso, foram utilizados cartões com chips que, ao serem aproximados do robô, reproduziam sons relacionados às imagens. Essa estratégia contribuiu para a ampliação do vocabulário, incluindo conteúdos como alfabeto, cores, frutas, vegetais e sons de animais. Algumas crianças passaram a repetir palavras, formar pequenas frases e expressar desejos ao selecionar os cartões, o que evidencia avanços na comunicação e na compreensão do ambiente.
De modo geral, os resultados indicam que o uso do robô contribui para aumentar o tempo de permanência nas atividades e favorecer o engajamento. Terapeutas relataram satisfação com a evolução observada, incluindo melhorias na memória, na comunicação e na expressão de desejos. Em alguns casos, também foi possível observar maior abertura para interação mediada pelo terapeuta, com o robô atuando como facilitador.
É importante destacar que o OTTO não substitui o trabalho terapêutico, mas o potencializa. Trata-se de um recurso complementar, capaz de ampliar as estratégias de intervenção utilizadas pelos profissionais.
Além disso, por se tratar de uma solução de baixo custo, o robô contribui para ampliar o acesso a tecnologias assistivas, frequentemente limitadas por questões financeiras. Isso possibilita sua aplicação em diferentes contextos, como clínicas, escolas públicas e atendimentos especializados.
A experiência com o OTTO reforça que inovação não está necessariamente associada à complexidade. Soluções simples, quando bem planejadas, podem gerar impactos significativos.
Se quiser conhecer mais sobre o projeto e ver o robô em ação, visite o perfil do grupo de pesquisa FATA UFMT – Tecnologia Assistiva no Instagram: @fataufmt.
Ao integrar robótica e terapia, ampliam-se as possibilidades de intervenção e, sobretudo, criam-se caminhos para práticas mais inclusivas e sensíveis. Mais do que tecnologia, trata-se de promover oportunidades para que crianças possam se desenvolver, aprender e se expressar.
Thais Reggina Kempner – Doutora em Engenharia Elétrica e coordenadora do curso de Engenharia de Controle e Automação da UFMT. Desde 2020, integra o projeto de pesquisa FATA (Fábrica de Alta Tecnologia Assistiva).
A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

