
Tangará da Serra (a 240 km de Cuiabá), reúne áreas urbanas e rurais cercadas por Áreas de Preservação Permanente (APPs), onde estão alguns dos principais espaços de lazer da cidade, como o Bosque Municipal e o Parque da Família. Além de contribuírem para o bem-estar da população e atrair visitantes, essas áreas têm papel direto na conservação ambiental e no abastecimento hídrico do município.
Nos últimos anos, a prefeitura passou a apostar no Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como estratégia para preservar nascentes e garantir a produção de água. A iniciativa prevê compensação financeira a produtores rurais que mantêm áreas preservadas, especialmente em regiões estratégicas para a Bacia Hidrográfica do Rio Sepotuba (BHRS), a maior da região e responsável por atender municípios como Barra do Bugres, Nova Olímpia e Cáceres.

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Vinicius Lançone, o município mantém equipes responsáveis pela limpeza de córregos, áreas verdes e APPs, além da manutenção de parques urbanos. Ele também destaca ações de recuperação ambiental em parceria com entidades locais. “O município tem vários projetos de reflorestamento e de auxílio para preservar áreas de proteção. No caso do Queima-Pé, houve um trabalho conjunto que já apresenta resultados visíveis no aumento da produção de água”, afirma.
O Córrego Queima-Pé, principal fonte de abastecimento da bacia, concentra parte desses esforços. Ao longo dos anos, suas margens passaram por processos de reflorestamento, com iniciativas conduzidas por organizações locais, como o Rotary, e pelo poder público. Monitoramentos indicam melhora na vazão após as intervenções, embora o cenário geral ainda preocupe especialistas.
Para o pesquisador Wilkinson Lopes, membro do Comitê da Bacia do Rio Sepotuba, o PSA chega em um momento oportuno. “Sistemas de pagamento por serviços ambientais ainda são raros. O programa representa um avanço importante”, afirma. Laçone, por sua vez, explica que os recursos vêm, em parte, de uma taxa incluída nas tarifas de água, o que envolve diretamente a população no financiamento da política ambiental.
Produtores como guardiões
Na prática, o programa já alcança produtores da região do Queima-Pé. Um deles é Antônio Miguel, 74, que começou a reflorestar sua propriedade antes mesmo da criação do PSA. Desde 2008, ele recupera áreas com espécies como aroeira, buriti e louro. Hoje, como beneficiário do programa, recebe cerca de R$ 3 mil por ano para manter a área preservada. “São produtores que já têm uma consciência ambiental e passam a ser incentivados a continuar”, diz Lopes.
Outras iniciativas seguem a mesma lógica. Às margens do Rio Ararão, o produtor Amaro Calisto, 66, transformou uma área de pasto em vegetação nativa ao longo dos anos, com o plantio de espécies como ipê, aroeira e pequi. A recuperação, feita de forma independente, reflete um movimento que também aparece entre pequenos produtores da região.

Apesar dos avanços, pesquisadores e gestores apontam que as ações ainda são insuficientes diante das pressões sobre a bacia. Desmatamento, uso de agrotóxicos, expansão agrícola e a presença de empreendimentos como usinas hidrelétricas afetam diretamente a qualidade e a quantidade de água disponível.
Para Wilkinson Lopes, o principal desafio está no entorno das nascentes. “O problema não está no rio em si, mas no que acontece ao redor. É preciso um esforço concentrado na recuperação florestal dessas áreas. Se as nascentes estiverem protegidas, o rio continua funcionando”, afirma.
Ele ressalta que a preservação não depende apenas dos produtores. “É papel da população cuidar e preservar, mas cabe ao poder público viabilizar políticas de monitoramento e proteção dessas áreas”, diz.
Reportagem produzida no âmbito do Estágio Obrigatório I do curso de Jornalismo da Unemat, sob supervisão da jornalista Safira Campos.

