Produção de mel depende de manejo e sofre com pesticidas, diz apicultor em MT

Após herdar a paixão do pai na infância, Leonardo superou a falta de mão de obra e os impactos do agro para estruturar uma produção de mel profissional e sustentável

(Foto: Arquivo Pessoal / Montagem: Rede Sucuri)

O apicultor Leonardo, de 40 anos, consolida há cinco anos a produção profissional do mel Mahan Ati através do manejo técnico e da captura de enxames silvestres. A atividade, desenvolvida em uma fazenda na região do Cerrado mato-grossense, busca transformar o comportamento natural  das abelhas em um negócio sustentável. Para proteger as colmeias contra contaminação por pesticidas e a falta de mão de obra local, a produção foi instalada estrategicamente em áreas remotas de mata nativa, garantindo a pureza do produto que hoje chega aos mercados regionais.

À Rede Sucuri, Leonardo conta como a apicultura entrou na sua vida, ainda na infância, trazida pelo olhar curioso de quem observava o pai manejar as primeiras caixas de abelhas em um sítio. Aquela prática inicial, embora  sem fins comerciais, plantou em Leonardo o encantamento da apicultura.

Há cinco anos, em solo mato-grossense, a antiga admiração de infância transformou-se em profissão e negócio estruturado. Hoje Leonardo gerencia uma produção profissional de mel, um ambiente rico em floradas, mas repleto de desafios logísticos e ambientais. Da captura cuidadosa de enxames à criação de uma marca própria que homenageia os povos originários da região, Leonardo explica como a domesticação e o manejo técnico correto podem transformar o instinto de subsistência das abelhas em uma atividade sustentável, prazerosa e de alto valor agregado.

(Foto: Lorena Carpanezi / Rede Sucuri)

Rede Sucuri: Como funciona o processo de produção na prática?

Leonardo: O início mais fácil é através da captura de enxames, aproveitando um comportamento natural chamado enxameação. Quando a comunidade cresce muito e o espaço na colmeia fica reduzido, o enxame se divide. Metade vai embora com a rainha antiga para procurar um novo ambiente, e a metade que fica produz uma nova rainha. Para capturar as que saem, nós montamos caixas (que podem ser até de papelão) borrifadas com um atrativo geralmente própolis, cujo cheiro as atrai muito. Espalhamos dezenas dessas caixas perto de fontes de água e de floradas, especialmente flores brancas ou amarelas, que são as preferidas delas. É uma forma muito prática de começar. 

Rede Sucuri: Na prática da apicultura, o que é necessário para que um enxame consiga produzir saudável?

 Leonardo: Na natureza, nenhum enxame vai produzir 50, 60 ou 100 litros de mel por ano, elas produzem apenas o necessário para a sua própria subsistência. Essa alta produtividade só acontece se as abelhas forem domesticadas, cuidadas e se o apicultor fornecer as condições ideais através de um manejo específico para fazer o enxame crescer. Para produzir muito mel, é preciso ter um enxame muito grande.

 Rede Sucuri: Quais são as principais dificuldades enfrentadas no processo de produção?

 Leonardo: Praticamente todas (risos). É uma atividade que exige muito esforço físico e intelectual, pois exige atualização constante. É preciso ter um “olho clínico” ao abrir a tampa de uma colmeia para identificar se o enxame está fraco, se está órfão (sem rainha) ou se está forte demais e precisando de espaço. Se você não agir no tempo certo, o enxame é predado ou morre por parasitas. Além disso, temos o problema do roubo de colmeias, que são mercadorias valiosas, e a dificuldade logística do Mato Grosso, onde o solo arenoso do cerrado desgasta os veículos e encarece o combustível. Para completar, há a grave escassez de mão de obra interessada. No Brasil, o potencial da apicultura é pouco explorado e a maioria dos jovens que vai para o campo prefere focar na operação de grandes máquinas agrícolas.

 Rede Sucuri: Como é a organização interna de uma colmeia funcional?

 Leonardo: Uma colmeia saudável tem uma hierarquia bem definida e uma engenharia térmica fascinante. No centro da caixa, geralmente ficam de 2 a 4 quadros centrais de crias. Ali estão os ovos

(Foto: Lorena Carpanezi)

que viram larvas e, após uma metamorfose de 21 dias, eclodem como abelhas nascentes prontinhas para o trabalho. A responsável por isso é a abelha rainha uma jovem e saudável chega a botar 2.500 ovos por dia. Já os quadros laterais são reservados para o estoque de mel e pólen. Isso tem uma razão física o mel funciona como um isolante térmico. Como as crias são extremamente sensíveis a choques térmicos (tanto o frio quanto o calor extremo podem matá-las), o estoque nas laterais protege o centro da colmeia.

 Rede Sucuri: Você mencionou que os defensivos agrícolas são um grande vilão nos enxames. Como esse problema afetou o apiário de vocês?

 Leonardo: Esse é um fantasma que sempre nos assombra. Há pouco tempo, tivemos um prejuízo severo com a perda de cerca de 100 colmeias que morreram totalmente por contaminação de pesticidas aplicados na região. O maior problema ocorre com a aplicação aérea por aviões agrícolas em fazendas vizinhas. Se as condições climáticas não forem ideais, ocorre o fenômeno da “deriva”, que é quando o vento empurra a nuvem de veneno para longe. Essa deriva pode alcançar até 5

km de distância. Como a abelha voa num raio de 1,5 km a 3 km (podendo chegar a 5 km em casos extremos para buscar água), o potencial de dano na área de atuação de um apiário é gigantesco.

 Rede Sucuri: Quais são as substâncias químicas mais perigosas para as abelhas?

 Leonardo: São os inseticidas sistêmicos, especialmente a família dos neonicotinoides e os fenitrozois. O grande perigo deles é que a substância não fica só na folha ela é absorvida pelo organismo do vegetal. Quando a planta gera a flor, o pólen e o néctar já nascem com o princípio ativo do veneno. A abelha coleta esse alimento contaminado e o leva para dentro da colmeia. Como elas compartilham fluidos bucais e estomacais no processo de fabricação do mel e na alimentação da rainha e das crias, uma única abelha pode comprometer a colmeia inteira. E o período de carência desses produtos é longo o efeito nocivo dura semanas após a aplicação.

 Rede Sucuri: Há alguma época do ano em que o risco de intoxicação seja mais crítico?

 Leonardo: O risco acompanha o calendário das safras. Recentemente, tivemos a florada do milho, que é um período de alerta. Mas as épocas mais críticas costumam se concentrar no início e no final do ano por volta de setembro, quando começam os grandes plantios e preparações de safra. Mas, na verdade, estamos sujeitos a isso em qualquer momento do ano se houver aplicações fora das janelas tradicionais.

 Rede Sucuri: No seu ponto de vista, o que precisa ser feito para resolver esse problema das contaminações?

 Leonardo: A solução ideal seria o cumprimento rigoroso da lei, já que muitos desses inseticidas são proibidos para aplicação aérea, mas a fiscalização no Brasil é branda. Na prática, buscamos o diálogo para tentar um acordo com os fazendeiros vizinhos para que nos avisem com antecedência sobre as pulverizações. Assim, podemos usar telas de confinamento para fechar as caixas por até uma semana, protegendo as abelhas. A solução definitiva que adotamos aqui, contudo, foi instalar nossos apiários nos fundos da propriedade, em áreas remotas cercadas por mata nativa. Essa vegetação densa funciona como uma barreira física natural contra a deriva, e tem dado muito certo.

 Rede Sucuri: E como funciona o processo após a colheita do mel? Como ele sai da colmeia e chega ao consumidor?

 Leonardo: A maior parte do mel comercializável é produzida nas “melgueiras”, que são caixas menores colocadas em cima da caixa ninho. Quando os favos estão com menos de 20% de umidade, as abelhas os fecham com uma tampinha de cera chamada opérculo. Esse é o sinal de que o mel está maduro e pronto para a colheita. Nós recolhemos as melgueiras e as trazemos para a “Casa do Mel”, que é este ambiente estruturado onde estamos. Aqui, usamos uma mesa desoperculadora para retirar as tampas de cera, passamos os quadros pela centrífuga e o mel vai para os decantadores para garantir a pureza total. Por fim, ele é envasado. O nosso produto é o mel Mahan Ati, nome que escolhemos em homenagem aos índios Paresi, que no seu idioma significa “A Casa do Mel”.

(Foto: Lorena Carpanazi)

 Rede Sucuri: Apesar de todas as dificuldades, o balanço final da profissão é positivo?

 Leonardo: Com certeza. É uma profissão muito prazerosa, rentável e extremamente gratificante. A relação homem natureza que se desenvolve na apicultura é muito intensa. E o universo das abelhas não para no mel há a produção de pólen, de própolis, de geleia real, a procriação de rainhas e até o uso medicinal das ferroadas (a apitoxina) para dores articulares e no sistema nervoso. É um mundo fascinante e as portas da nossa fazenda estarão sempre abertas para quem quiser viver essa experiência de perto.

Entrevista desenvolvida no âmbito do Estágio Obrigatório I do curso de Jornalismo da Unemat, sob supervisão da jornalista Safira Campos.

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