Professor da Unemat relembra origem rural e passagem pela política em Tangará da Serra

Docente da Unemat há três décadas, José Pereira Filho fala sobre memória, identidade cultural e experiências na docência e na gestão pública

(Foto: Delciane Santos / Rede Sucuri)

A trajetória do professor e mestre José Pereira Filho se confunde com a própria formação social e rural de Tangará da Serra. Docente da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) há 30 anos, construiu a carreira entre educação, sociologia rural e literatura, áreas que dialogam com sua origem como filho de migrantes que chegaram à região ainda no período de colonização.

Nesta entrevista à Rede Sucuri, ele relembra a caminhada acadêmica, da graduação em pedagogia ao pós-doutorado em literatura brasileira, com foco em memória e identidade. Ao abordar o conceito de “caipira”, destaca aspectos culturais, históricos e sociais ligados à formação do interior brasileiro, especialmente em Mato Grosso.

Também comenta a atuação na vida pública em Tangará da Serra. Ex-vereador, secretário municipal, vice-prefeito e prefeito interino, cita ações voltadas à preservação ambiental, como o Projeto Produtor de Água e a proteção das cachoeiras Salto das Nuvens e Salto Maciel. Próximo da aposentadoria, afirma que pretende seguir na pesquisa e na preservação da memória local.

Rede Sucuri: O senhor passou pela pedagogia, pelo mestrado em educação e depois pela sociologia rural no doutorado. O que motivou esse percurso?

José Pereira Filho: Isso vem da minha trajetória e da própria natureza da região. Chegamos aqui na década de 60, quando tudo era muito rural. Sempre tive ligação com as comunidades do campo. Trabalhei bastante tempo no Banco do Brasil, também com o setor rural, atendendo pequenos, médios e grandes produtores.

Entrei cedo no magistério, fiz pedagogia e o mestrado em educação. O doutorado em sociologia veio dessa origem, dessa relação com o processo de colonização e com o setor produtivo rural da região.

Rede Sucuri: E o pós-doutorado em literatura brasileira?

José Pereira Filho: Foi a partir de uma experiência direta em uma comunidade rural que mantém características muito fortes de ruralidade, com migrantes mineiros, paranaenses e paulistas. O que se chama de caipira genuíno.

Rede Sucuri: O que seria o “caipira genuíno”?

José Pereira Filho: É um biotipo formado pelo cruzamento do indígena com o português, que resultou em um perfil resiliente, necessário para ocupar regiões inicialmente inóspitas, como São Paulo, Paraná e depois Mato Grosso.

Minha família tem essa origem. Os hábitos, os costumes, a culinária — carne de porco, frango com quiabo — tudo isso faz parte. Isso facilitou minha inserção nessa comunidade e a construção da pesquisa.

Rede Sucuri: Como o senhor avalia sua experiência na docência ao longo desses 30 anos?

José Pereira Filho: Eu sou professor por formação, por exercício e por gosto. Não trato como sacerdócio, é profissão mesmo.

Hoje vivemos uma mudança grande no comportamento social, que chega à universidade. O desafio é sair da superficialidade dos meios de comunicação e avançar para a leitura acadêmica, para a construção do raciocínio. Insisto muito com os alunos: é preciso ler mais, ir à biblioteca, aprofundar.

Rede Sucuri: Como foi conciliar a vida acadêmica com a atuação política?

José Pereira Filho: Foi trabalhoso. Fui filiado ao PT e, ao mesmo tempo, trabalhava no Banco do Brasil e na educação. A política sempre foi por gosto, nunca profissão. Quando precisei escolher, priorizei a carreira acadêmica.

Fui secretário municipal, vereador, presidente da Câmara, vice-prefeito e prefeito em períodos distintos. Muitas vezes, são oportunidades que surgem no caminho.

A política, na essência, é a gestão da vida social. E é gratificante poder interferir positivamente na vida das pessoas.

Rede Sucuri: Quais ações o senhor destacaria na gestão pública?

José Pereira Filho: Uma delas é o Projeto Produtor de Água. Ele permitiu remunerar pequenos proprietários que preservaram áreas de suas terras para proteção de nascentes.

A população contribui com um valor pequeno na conta de água, e o resultado é concreto: melhora na bacia de captação e aumento da disponibilidade hídrica. É uma política que poderia ser ampliada.

Rede Sucuri: E a preservação das cachoeiras?

José Pereira Filho: Tenho muito orgulho disso. Havia risco de instalação de hidrelétricas no Salto das Nuvens. Enviamos rapidamente um projeto à Câmara, com base técnica, para proteger tanto o Salto das Nuvens quanto o Salto Maciel. Era uma forma de preservar aquele patrimônio natural.

Rede Sucuri: Há outros momentos marcantes da gestão?

José Pereira Filho: Um deles foi um vendaval que atingiu a cidade no dia 15 de outubro. Houve muita destruição. A cidade ficou sem energia, inclusive unidades de saúde.

Muitas pessoas dependiam de atendimento domiciliar e precisaram ser removidas. Fizemos um trabalho emergencial para encaminhá-las a hospitais que tinham gerador. Foi uma situação crítica que exigiu resposta rápida.

Rede Sucuri: Com a aposentadoria próxima, quais são os planos?

José Pereira Filho: Daqui a cerca de dez meses terei direito à aposentadoria, mas não pretendo parar. Quero me dedicar mais à pesquisa.

Já participei de projetos que resultaram em livros sobre assentamentos e comunidades locais. Agora tenho interesse em registrar a memória da Feira do Produtor Rural de Tangará da Serra. É um espaço que reúne pessoas desde a origem da cidade, e essa história precisa ser contada por quem viveu.

Reportagem produzida no âmbito do Estágio Obrigatório I do curso de Jornalismo da Unemat, sob supervisão da jornalista Safira Campos.

Compartilhe:

Matérias Relacionadas