Quem salva uma criança até a chegada do socorro?

Pesquisador da UFMT investiga desafios da Lei Lucas nas escolas

Todos os dias, milhões de crianças passam boa parte do seu tempo na escola. É nesse ambiente que aprendem, convivem e constroem relações importantes para a vida. Mas a escola também é um espaço onde acidentes podem acontecer de forma inesperada. Um engasgo durante o lanche, uma queda no recreio, uma crise convulsiva ou até uma parada cardiorrespiratória são situações que exigem respostas rápidas.

Diante disso, surge uma pergunta que motivou minha pesquisa de mestrado: quem salva uma criança até a chegada do socorro?

Essa questão me levou a investigar como professores da educação básica percebem sua formação em primeiros socorros e quais desafios ainda existem para a implementação da Lei nº 13.722/2018, conhecida nacionalmente como Lei Lucas.

A Lei Lucas nasceu após uma tragédia que comoveu o Brasil. Em 2017, Lucas Begalli, um estudante de apenas 10 anos, morreu após se engasgar durante uma excursão escolar, em Campinas, São Paulo. O episódio evidenciou a necessidade de que profissionais da educação estejam preparados para agir em situações de emergência até a chegada do atendimento especializado.

Como resposta, foi criada a Lei Lucas, que tornou obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros para professores e funcionários de instituições de educação básica públicas e privadas.

Mais do que uma obrigação legal, essa lei representa um compromisso com a proteção da vida. Em situações de emergência, os primeiros minutos são decisivos. Uma ação rápida e adequada pode evitar sequelas graves e aumentar significativamente as chances de sobrevivência.

Para compreender como essa realidade está presente nas escolas, realizei uma pesquisa com professores da educação básica em uma instituição de ensino de Cuiabá, Mato Grosso. Os resultados revelaram aspectos importantes.

Embora a maioria dos participantes tenha informado já ter participado de algum treinamento em primeiros socorros, muitos demonstraram insegurança ao responder perguntas relacionadas a situações reais de emergência. Procedimentos como a Reanimação Cardiopulmonar (RCP) e a Manobra de Heimlich, utilizada em casos de engasgo, ainda geravam dúvidas entre parte dos participantes.

Outro dado que chamou atenção foi o fato de alguns professores desconhecerem a própria existência da Lei Lucas, mesmo após vários anos de sua promulgação.

Esses resultados mostram que oferecer treinamentos esporádicos não é suficiente. Aprender primeiros socorros é semelhante a aprender a dirigir ou tocar um instrumento musical: sem prática e atualização periódica, grande parte do conhecimento acaba sendo esquecida ao longo do tempo.

A ciência da aprendizagem demonstra que habilidades práticas precisam ser constantemente exercitadas para serem mantidas. Por isso, a formação em primeiros socorros deve ser encarada como um processo contínuo e não apenas como uma atividade realizada para cumprir exigências legais.

Durante a pesquisa, também percebi que os primeiros socorros podem contribuir para algo ainda maior: a promoção da saúde dentro da escola.

Quando professores compreendem conceitos relacionados à prevenção de acidentes e ao atendimento inicial de emergências, eles se tornam multiplicadores de conhecimento. Essas informações podem ser compartilhadas com estudantes, famílias e toda a comunidade escolar.

Além disso, os primeiros socorros podem ser trabalhados de forma interdisciplinar. Conceitos de Biologia ajudam a compreender o funcionamento do corpo humano; conteúdos de Física explicam mecanismos envolvidos em procedimentos de emergência; e temas relacionados à Química permitem discutir intoxicações e acidentes domésticos.

Pensando nos desafios enfrentados pelos profissionais da educação, desenvolvi como produto educacional do meu mestrado uma plataforma digital voltada à formação continuada em primeiros socorros. O ambiente reúne materiais educativos, recursos interativos, conteúdo multimídia e atividades que podem ser acessadas em qualquer momento por computador ou celular.

A proposta não substitui os treinamentos práticos presenciais, que continuam sendo fundamentais. O objetivo é complementar esse processo, permitindo que os profissionais revisem conteúdos, atualizem conhecimentos e encontrem informações confiáveis sempre que necessário.

Acredito que o maior legado da Lei Lucas não está apenas na obrigatoriedade dos cursos. Seu verdadeiro significado está na construção de uma cultura de cuidado e prevenção dentro das escolas.

Não se espera que professores atuem como médicos, enfermeiros ou socorristas. O que se espera é que estejam preparados para reconhecer situações de risco, acionar corretamente os serviços de emergência e realizar os cuidados iniciais necessários até a chegada do atendimento especializado.

Emergências não avisam quando vão acontecer. Por isso, investir na capacitação contínua dos profissionais da educação é investir diretamente na proteção das nossas crianças. Em muitos casos, o conhecimento adquirido em um treinamento pode ser o fator que transforma um momento de desespero em uma oportunidade de salvar uma vida.

Ramon Angeli Turchet – Enfermeiro, mestre em Ensino de Ciências Naturais pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutorando em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem da UFMT (FAEN/UFMT). Desenvolve pesquisas nas áreas de educação em saúde, primeiros socorros, tecnologias educacionais e formação docente. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4544552454422877

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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