Campanha pelo uso racional do medicamento

Um alerta para automedicação

Você é uma dessas pessoas que ao sentir uma dor de cabeça, logo procura no armário algum medicamento para tomar? Essa prática é conhecida como automedicação.

A automedicação é definida como a prática do uso de medicamentos por iniciativa do próprio indivíduo, sem prescrição ou acompanhamento profissional, inserida no âmbito do autocuidado. Ela envolve, principalmente, a utilização de fármacos isentos de prescrição, considerados seguros e eficazes quando utilizados conforme as orientações estabelecidas por profissionais de saúde. Esse fenômeno tem sido investigado por pesquisadores e pesquisadoras, que buscam compreender as motivações, padrões de uso e impactos em diferentes contextos sociais, incluindo o ambiente universitário.

De acordo com a última atualização do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Fiocruz), em 2017 o Brasil registrou mais de 20 mil casos de intoxicação medicamentosa, com 50 óbitos – letalidade de 0,25%. Nesse levantamento, os medicamentos representaram a principal causa de intoxicação, responsáveis por 27,11% dos casos notificados no país. As faixas etárias mais acometidas foram crianças menores de 4 anos de idade e  jovens adultos entre 20 e 29 anos (Sinitox, 2017). As principais causas de intoxicação medicamentosa incluem tentativa de autoextermínio, automedicação e ingestão acidental de medicamentos. No Brasil, as intoxicações agudas relacionadas à intenção suicida apresentam maior prevalência entre idosos, e os casos acidentais ocorrem em crianças, conforme dados do Ministério da Saúde e da ANVISA (2021).

Atentando-se para os dados da região Centro-Oeste, em 2017 foram registrados 425 casos de intoxicação por medicamentos, o que corresponde a uma incidência de 2,68 casos por 100 mil habitantes (Sinitox, 2017). Esse valor posiciona a região como a terceira maior taxa de intoxicação medicamentosa do país, atrás apenas das regiões Sul (38,6/100 mil habitantes) e Sudeste (8,81/100 mil habitantes). A letalidade observada foi de 0,24%, indicando baixa frequência de desfechos fatais entre os casos notificados. Embora o número absoluto de ocorrências seja inferior ao registrado nas regiões Sul e Sudeste, a análise proporcional à população demonstra que o Centro-Oeste apresentou maior incidência do que as regiões Norte e Nordeste no período estudado. Além disso, em 2017, Mato Grosso apresentou uma taxa de intoxicação de 47,88% entre jovens de 15 a 19 anos, dado considerado preocupante.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a Promoção do Uso Racional de Medicamentos (URM), medida importante para que os pacientes recebam medicamentos apropriados à sua condição clínica, nas doses corretas, por um período adequado e ao menor custo possível para o paciente e para a coletividade. Estudos apontam que a efetivação do URM requer um conjunto estruturado de ações interdependentes, tais como: estabelecimento de diagnóstico preciso e baseado em critérios clínicos; prescrição racional, fundamentada em evidências científicas, contendo informações claras e completas para o paciente, redigida de forma legível para evitar erros na dispensação e administração; organização dos serviços de saúde para garantir o acesso oportuno e contínuo aos medicamentos em quantidade e qualidade adequadas; implementação de estratégias para promover a adesão ao tratamento prescrito, a exemplo das campanhas educativas como a campanha sobre uso racional do medicamento.

A partir deste contexto, aqui na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus de Sinop, mobilizamos a comunidade do curso de Farmácia a participar do Projeto de extensão – Uso Racional de Medicamentos, cujo objetivo foi realizar a campanha de conscientização voltada à promoção do uso racional de medicamentos (URM), visando informar e sensibilizar a população sobre a importância da utilização adequada dos fármacos de acordo com critérios clínicos, orientações profissionais e evidências científicas. Essa iniciativa se mostrou importante, sobretudo por ajudar a reduzir riscos de automedicação, interações medicamentosas e eventos adversos, além de contribuir para a melhoria dos desfechos terapêuticos e otimização dos recursos em saúde.

O Projeto contou com ações e atividades presenciais e nas redes sociais. Para o Instagram do @usoracionaldomedicamentoufmt foram criados e publicados conteúdos informativos sobre os riscos da automedicação, bem como atividades do projeto, ao todo já foram divulgados 19 posts. Além disso, os estudantes do curso de Farmácia da UFMT/Sinop realizaram apresentações de pôsteres, com conteúdo educativo em cinco públicos diferentes: 1 – para a comunidade da UFMT/Sinop;  2 – para os usuários de uma farmácia pública do município (Centro Integrado em Atendimento Municipal a Saúde);3 – para os estudantes de uma escola pública da cidade; 4 – para os visitantes do parque Jardim Botânico em Sinop; 5 – para os motoristas em um dos principais semáforos da cidade, com entrega de panfletos.

Campanha pelo uso racional do medicamento, 2026, Sinop/ MT. Fonte: Rafaela Grassi Zampieron.

Os resultados dessas campanhas informativas evidenciam a relevância das ações integradas de pesquisa, extensão e comunicação desenvolvidas por acadêmicos e professores do curso de Farmácia da UFMT/Sinop junto às comunidades interna e externa à Universidade. Essas iniciativas contribuíram significativamente para a conscientização da população sobre a promoção do uso racional de medicamentos, ao mesmo tempo em que fortaleceram o processo de formação acadêmica e profissional dos estudantes, proporcionando experiências práticas de educação em saúde, comunicação científica e interação com a comunidade. O farmacêutico, por sua formação e acessibilidade, é um agente fundamental na orientação da população sobre o uso seguro e eficaz de medicamentos, inclusive, antes da ingestão de qualquer medicamento, este profissional pode contribuir para a prevenção de agravos à saúde e para a promoção do uso racional de medicamentos. Assim, a redução da atitude da automedicação exige uma abordagem multifatorial envolvendo educação, regulamentação, acesso a serviços de saúde e valorização do papel do profissional farmacêutico no cuidado à saúde da população.

Rafaela Grassi ZampieronMaria de Almeida Rocha RissatoRegiane de Castro Zarelli Leitzke  são docentes do curso de Farmácia da UFMT campus de Sinop. Anna Beatriz Diniz Angelo e Julia Damasceno Cavalcante são graduandas em Farmácia da UFMT campus de Sinop

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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