
Mato Grosso, estado que mais comercializa agrotóxicos no país, registrou 2.408 intoxicações notificadas por esses produtos entre 2015 e 2024. O total representa 1,7% dos 142.877 casos notificados no Brasil no período, segundo boletim especial divulgado pelo Ministério da Saúde na última semana.
Os registros no estado oscilaram ao longo da década, mas passaram de 218, em 2015, para 345, em 2024, um crescimento de 58%. O último ano da série concentrou o maior número de notificações em Mato Grosso, seguido por 2023, com 325 casos. O menor resultado foi observado em 2020, com 174.
Em 2023, Mato Grosso respondeu por 14,5% do volume de agrotóxicos comercializado no país, à frente de São Paulo, com 11,9%, e do Paraná, com 9,2%. Juntos, os três estados concentraram mais de um terço das vendas nacionais. O Centro-Oeste liderou entre as regiões, com 33% do total, segundo dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) citados pelo boletim.
Os dois indicadores, porém, não podem ser comparados diretamente. Os dados de comercialização correspondem apenas a 2023, enquanto as notificações abrangem dez anos. Além disso, os números absolutos não consideram diferenças populacionais, demográficas ou de estrutura etária entre os estados.
O próprio Ministério da Saúde afirma que os resultados devem ser interpretados como uma descrição dos registros, e não como estimativas de incidência ou do risco de intoxicação em cada estado. Locais com sistemas de vigilância mais estruturados também podem registrar mais ocorrências, independentemente da exposição da população.
O boletim aponta ainda grandes áreas sem notificações nas regiões Norte e Centro-Oeste, quadro que, segundo a pasta, sugere a existência de subnotificação. Em todo o país, o número de municípios com ao menos um caso registrado passou de 1.623, em 2015, para 2.660, em 2024. Ainda assim, mais da metade das cidades brasileiras não apresentou notificações.
Na classificação adotada pelo Ministério da Saúde, as intoxicações por agrotóxicos incluem ocorrências relacionadas a produtos agrícolas, domésticos e utilizados em ações de saúde pública, além de raticidas e produtos veterinários. Os registros foram extraídos do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e abrangem casos comunicados entre janeiro de 2015 e dezembro de 2024.
Dados nacionais
No país, 61,3% das 142.877 notificações tiveram a intoxicação confirmada. A exposição aguda representou 85,4% dos registros, enquanto os casos classificados como crônicos corresponderam a apenas 1,1%. Para o Ministério, a baixa proporção de exposições crônicas pode indicar dificuldades de diagnóstico e subnotificação.
Mais da metade das notificações brasileiras, 50,4%, estava relacionada a circunstâncias intencionais. Entre elas, 70.418 foram classificadas como tentativas de suicídio. Nos casos não intencionais, destacaram-se as ocorrências acidentais, com 44.332 registros, e as relacionadas ao uso habitual dos produtos, com 11.537.
O boletim contabilizou 3.121 mortes por intoxicação por agrotóxicos registradas no Sinan durante a década. No mesmo período, o Sistema de Informações sobre Mortalidade reuniu 10.236 óbitos associados a essas intoxicações. A diferença entre as bases, de acordo com o Ministério da Saúde, pode ser outro indício de subnotificação.
A pasta defende a capacitação das equipes de saúde, a sensibilização dos profissionais sobre a notificação dos casos e a integração dos serviços de atendimento. Segundo o boletim, falhas nos registros dificultam o dimensionamento dos efeitos cumulativos e de longo prazo da exposição aos agrotóxicos e limitam a elaboração de políticas públicas.

