Passei os últimos meses perguntando a colegas do curso se usam uma senha diferente em cada site. A resposta quase sempre veio rápida: “eu sei que deveria”. Essa frase resume boa parte do que encontrei no meu Trabalho de Conclusão de Curso em Ciência da Computação na UFMT. A ideia nasceu de um detalhe do currículo que me incomodava. No Instituto de Computação, a única disciplina obrigatória voltada especificamente para segurança da informação, Segurança de Redes, cai no sétimo semestre. Antes disso, muita gente do curso já passou por estágio, projeto de extensão, por trabalhos que mexem com dados de gente de verdade. Quis saber se essa defasagem aparecia na prática: quem está mais adiantado no curso realmente cuida melhor da própria segurança digital do que quem está no começo?
Apliquei um questionário a 33 pessoas entre maio e junho de 2026, divididas em três grupos: estudantes iniciais, estudantes de fases mais avançadas e egressos. Perguntei duas coisas ao mesmo tempo: o que essas pessoas pensam sobre segurança (se conhecem as ameaças, se se sentem responsáveis, se percebem o risco) e o que elas realmente fazem (senha única, autenticação em dois fatores, atenção com links, gerenciador de senhas).
O primeiro achado não surpreende quem lida com tecnologia: todo mundo, dos calouros aos egressos, diz levar a sério os riscos digitais. O segundo já derruba uma expectativa. Quem está no meio do curso, já cursando ou tendo cursado disciplinas de segurança, foi justamente quem mostrou a maior distância entre o que diz valorizar e o que faz no dia a dia. E entre os egressos, que teoricamente tiveram mais contato com o tema, o gerenciador de senhas foi a ferramenta menos usada de todas.

Passar pelo curso não parece bastar para virar hábito.
Uma pergunta aberta no fim do questionário pedia sugestões para melhorar a formação em cibersegurança. Mais da metade de quem respondeu pediu a mesma coisa, com palavras diferentes: prática. Simulação de ataque, laboratório, exercício de ataque e defesa, não só slide e definição. Os egressos foram os que mais cobraram isso, alegando que só lidaram com situações parecidas da vida real depois de formados.
Pesquisadores da África do Sul chegaram a um achado parecido e deram nome a ele: “ponto de inflexão” educacional. A conclusão deles corrobora com o que apareceu aqui: adiantar a matéria no currículo, por si só, resolve pouco. O que parece funcionar é juntar exposição mais cedo com prática de verdade.
Isso importa fora da universidade também. Um formando em computação que sai do curso sem hábito consolidado de segurança carrega essa lacuna para dentro de empresas, do sistema público, de qualquer lugar que guarde dados de outras pessoas. Saber programar não resolve sozinho se quem programa não pratica, na própria rotina, o que a área pede.
A amostra deste trabalho é pequena e retrata um contexto específico, então os resultados não podem ser generalizados. Mas o diagnóstico que ficou é concreto: saber da importância da cibersegurança é o primeiro passo. Transformar isso em rotina é o passo mais difícil, e a teoria sozinha não dá conta disso. Na próxima vez que alguém adiar a instalação de um gerenciador de senhas, vale lembrar de uma coisa: até quem estuda segurança digital todo dia cai na mesma armadilha.
Sergio Jose Pinheiro Junior – Sergio Jose Pinheiro Junior – Graduando em Ciência da Computação pelo Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Autor do Trabalho de Conclusão de Curso “Percepção e Práticas de Cibersegurança entre Estudantes do Instituto de Computação da UFMT: Uma Análise Comparativa por Fase de Formação”, orientado pelo Prof. Dr. Nelcileno Virgílio de Araújo
A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

