Ecoturismo: a Fábula do Viajante que “Salva” o que Pisa

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Sabe aquele instante em que você lê “ecoturismo” numa embalagem lustrosa de roteiro e sente o aroma da virtude subindo pelas narinas? É lindo!
O conceito beira a reza laica: viagens responsáveis a áreas naturais, que conservam o meio ambiente e melhoram a vida das comunidades locais. No papel, somos todos xamãs da sustentabilidade, descalços e iluminados..A América do Sul modesta, exibe seus 40% da biodiversidade planetária como quem folheia o álbum de família: Pantanal, Amazônia, Andes e Patagônia, a santíssima trindade do ecoturismo verde . Tudo emoldurado por educação ambiental, conservação e sustento comunitário. Dá vontade de chorar de emoção. E eu choro, mas de desespero cômico!

Porque a prática, meus caros, é um desfile de contradições vestindo camiseta de fibra de garrafa pet. O ecoturismo se tornou um gênero literário: a não ficção do “greenwashing” ! A teoria prega impacto mínimo, mas o resultado costuma transformar santuários em “parques” de diversões com pose de documentário da National Geographic. Tome a trilha até aquele mirante “secreto” na Patagônia: você encontra mais selfies por metro quadrado do que guanacos.

A contemplação virou uma fila de gente pendurada num bastão de selfie, tentando parecer espontânea dentro de uma jaqueta de U$ 800,00 ! Natureza intocada, só se for na consciência do marketing. A educação ambiental? Ah, uma pérola. O guia recita meia dúzia de curiosidades sobre orquídeas enquanto o grupo compacta o solo com a delicadeza de um elefante de circo. No fim, o aprendizado máximo é que a água de coco custa o triplo naquela barraquinha “rústica” mas autêntica.

A conservação, coitada, virou gincana: o turista paga uma taxa de preservação e acredita que aquele dinheiro regenerará a floresta por mágica, enquanto o plástico da sua garrafinha de água mineral segue imortal no ecossistema.O viajante responsável da vida real carrega no currículo a coleção de pulseirinhas de semente compradas na entrada da reserva, cada uma âncora simbólica de boas intenções que raramente lastreiam a economia local de fato.

E as comunidades locais? Que pergunta encantadora! Muitas vezes elas são cenário, não protagonistas, o artesanato vira souvenir genérico, o saber tradicional vira atração de meia hora entre o café da manhã com tapioca orgânica e o passeio de caiaque. O dinheiro, quando pinga, chega com a generosidade de uma torneira enferrujada.
Em não poucos “ecolodges” de selva, o funcionário local pode aparecer vestido de “nativo autêntico”, mas o gerente é quem decide os rumos do negócio, é um ex-executivo que trocou o terno pelo linho e se encontrou na simplicidade. Sustentabilidade é isso: manter a estrutura intacta para que os de sempre lucrem com a paisagem alheia.

Isso não significa que o ecoturismo seja uma mentira completa. Há projetos sérios, onde a estrada de terra não vira passarela e o canto dos pássaros não compete com a caixinha JBL. Mas são jóias raras, que exigem desconfiar do selinho verde colado na testa do pacote. O ecoturismo de verdade acontece quando a comunidade local é sócia do negócio, quando o limite de visitantes não é apenas uma placa decorativa e quando a tal da educação ambiental faz o turista questionar o próprio consumo do turismo, em vez de aplaudir a onça-pintada e voltar ao hotel com a sensação de dever cumprido!

No fim das contas, o que vendem como ecoturismo é, muitas vezes, turismo convencional fantasiado de folha. O mesmo velho extrativismo! A América do Sul com toda a sua exuberância, virou um palco para essa farsa, a biodiversidade é o produto, a sustentabilidade é o roteiro, e o viajante é o ator principal que paga caro para se sentir um herói. Não basta criar “roteiros ecológicos”; é preciso reformular o modelo econômico para que a floresta valha mais em pé do que derrubada.

O Brasil tem todas as ferramentas para liderar essa transição, mas falta coragem política para priorizar o desenvolvimento sustentável sobre os interesses imediatistas! A solução depende de uma combinação de pressão organizada, educação do público e cobrança institucional.

Saudações Ambientais,

Aynore Soares Caldas

Técnico em Turismo, Guia de Turismo, Agrônomo, Mestre em Manejo de Vida Selvagem, Bacharel em Direito, Empresário do Ecoturismo em Mato Grosso e Pantaneiro.

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