Pantanal tem incêndios maiores e temporada de fogo mais longa, aponta estudo de 40 anos

Pesquisa publicada na Global Change Biology identifica mudança no regime de fogo desde meados da década passada; redução das chuvas, encurtamento das inundações e maior aridez estão entre os principais fatores associados ao avanço.

(Foto: Agência Brasil / Montagem: Rede Sucuri)

O regime de fogo do Pantanal está passando por uma transformação marcada pelo aumento da área atingida pelo fogo, incêndios de maior extensão e mudanças na duração da temporada de queimadas. É o que aponta um estudo que analisou quatro décadas de dados, de 1985 a 2024, e identificou alterações associadas principalmente à redução das chuvas, ao encurtamento do período de inundação e ao aumento da aridez.

O trabalho foi publicado em 4 de setembro na Global Change Biology, revista científica internacional da Wiley voltada aos efeitos das mudanças ambientais sobre sistemas biológicos. O periódico está entre os mais bem ranqueados de sua área e integra o primeiro quartil, o Q1, em categorias como conservação da biodiversidade, ecologia e ciências ambientais.

Liderada pelo pesquisador mato-grossense Lucas Barros, a pesquisa mostra que as mudanças não ocorreram de uma só vez. A análise encontrou um aumento da área queimada a partir de 2014, com uma tendência mais pronunciada desde 2015. Já o tamanho médio das áreas contínuas atingidas pelo fogo apresentou crescimento ao longo das quatro décadas e uma aceleração a partir de 2018. A tendência média calculada para essa métrica foi de 3,86 hectares por ano.

Lucas Barros-Rosa, pesquisador e líder do estudo que analisou 40 anos de mudanças no regime de fogo do Pantanal. Engenheiro florestal formado pela UFMT, ele atualmente cursa doutorado na University of British Columbia, no Canadá.

Os pesquisadores cruzaram dados de área queimada do MapBiomas com informações climáticas, hidrológicas e sobre as condições da vegetação disponível para queima. Entre os fatores que mais ajudam a explicar a ocorrência e a dimensão dos incêndios estão a menor precipitação, a diminuição da superfície coberta por água e o aumento do ressecamento atmosférico e dos combustíveis vegetais. O modelo utilizado no estudo conseguiu explicar cerca de dois terços da variação mensal da área queimada no Pantanal.

As alterações aparecem também no calendário do fogo. No Pantanal Norte, onde estão regiões como Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço, o pico da temporada, historicamente registrado em setembro, apresenta deslocamento para outubro. O início das chuvas também vem ocorrendo mais tarde, passando de novembro para dezembro. No Pantanal Central, o fim da temporada de fogo, antes concentrado em setembro, avançou em direção a novembro ao longo da série analisada. Em todas as três porções estudadas, Norte, Centro e Sul, houve redução significativa da duração do pulso de inundação.

A relação entre água e fogo é central para entender o resultado. No Pantanal, a inundação sazonal historicamente mantém áreas úmidas por mais tempo, limita a propagação das chamas e interfere na quantidade e na condição da vegetação disponível para queimar. Com menos água, menos chuva e períodos secos mais prolongados, essa espécie de barreira natural perde força. Os autores descrevem o fenômeno como um enfraquecimento do “acoplamento hidroclimático” que durante décadas ajudou a regular quando e onde o fogo poderia se espalhar pelo bioma.

O estudo chama atenção ainda para processos que ocorrem fora da planície pantaneira. Os pesquisadores apontam que expansão agropecuária, perda de vegetação nativa e maior uso da água para irrigação e geração de energia no Planalto da Bacia do Alto Paraguai podem reduzir a capacidade de retenção de água da bacia. A situação também está relacionada à Amazônia: parte importante da chuva que abastece a região depende do transporte de umidade proveniente da floresta amazônica.

Por isso, as respostas propostas pelos cientistas não se limitam ao combate direto às chamas. Entre as medidas estão conservar e restaurar a vegetação nativa na Bacia do Alto Paraguai, regular o uso da água no Planalto, proteger as florestas amazônicas, aprimorar sistemas de alerta e monitoramento e adaptar os calendários de manejo do fogo às diferenças entre as regiões do Pantanal. O artigo também defende brigadas comunitárias e estratégias de manejo capazes de responder a um cenário climático diferente daquele observado historicamente.

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