“A primavera não é mais como antes”: Saiba como a estação das flores mudou nos últimos 60 anos no Brasil

A primavera já não traz o mesmo alívio. A estação, que começa nesta segunda (22), chega marcada por calor e escassez de chuvas.

A estação das flores e do alívio após o inverno seco mudou de cara no Brasil. A primavera, que tradicionalmente marcava o retorno das chuvas regulares e temperaturas amenas, hoje apresenta menos precipitação e calor mais intenso em grande parte do país. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), analisados a pedido da Rede Sucuri, mostram que a estação mudou de forma consistente nas últimas seis décadas.

O levantamento comparou séries históricas de 1961 a 1990 e de 1991 a 2020 para os meses de setembro, outubro e novembro, que compõem a chamada primavera meteorológica. O resultado indica aumento das temperaturas médias em todas as regiões do Brasil, ao mesmo tempo em que as chuvas se tornaram mais irregulares.

Há aquecimento em praticamente todo o país e, em muitas áreas, redução de até 50 milímetros de chuva em relação às décadas anteriores, conforme relatório assinado por Laísa Faria Viana, tecnologista do Inmet. A primavera deixou de ser a estação que marcava o início regular do período chuvoso.

(Foto: Reprodução)

As mudanças são visíveis mês a mês. Em setembro, tradicionalmente o início das primeiras pancadas de chuva no Centro-Oeste e no Sudeste, houve redução significativa de precipitação em Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, acompanhada de elevação térmica de até 0,9 ºC. No Nordeste, a queda nas chuvas chegou a 50 mm em áreas do litoral, enquanto o oeste da Bahia e o Piauí aqueceram mais de 1,2 ºC.

Em outubro, o déficit hídrico se aprofundou em regiões agrícolas que dependem da primavera para o plantio. Estados como Goiás e Mato Grosso do Sul registraram entre 10 mm e 50 mm a menos de chuva. Apenas o Sul do país destoou: no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, outubro foi mais úmido, com até 75 mm acima da média.

Já em novembro, quando a regularidade das chuvas deveria estar consolidada, persistem os sinais de instabilidade. Norte e Nordeste registraram reduções consistentes de até 50 mm, sobretudo no Pará, Amazonas e Bahia. “A irregularidade ficou mais evidente. Onde antes havia uma estação relativamente previsível, hoje temos extremos: seca prolongada em parte do território e excesso em outras regiões”, explica Viana.

O peso do desmatamento

Se os números comprovam o aquecimento, a ciência busca as causas. Para a professora Giseli Gomes Dalla Nora, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não há dúvida de que o desmatamento exerce papel central.

“As estações eram mais equilibradas porque a biodiversidade ajudava a regular o clima. Com a perda de vegetação, o regime de chuvas muda”, afirma. “A primavera não é mais como antes, com flores, umidade e chuvas. Está cada vez mais seca, e o próprio florescimento das plantas nativas já não acontece no mesmo ritmo”.

Segundo a pesquisadora, que integra o Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA), Mato Grosso é um retrato da vulnerabilidade: o estado abriga três biomas (Amazônia, Cerrado e Pantanal), todos pressionados por desmatamento e queimadas.

“Quanto mais seco o ambiente, maior o risco de incêndios florestais, e cada vez que uma área queima, a biodiversidade se perde. O resultado é um ciclo de degradação que retroalimenta as mudanças climáticas”.

Esse ciclo tem consequências diretas sobre o regime de chuvas. A diminuição da vegetação reduz a evapotranspiração, processo pelo qual a umidade das plantas alimenta a atmosfera. “Quando você retira as árvores, tira também a capacidade de gerar chuvas. Isso afeta tanto o microclima quanto o clima global”, completa Giseli.

Impactos na agricultura e na saúde

O encurtamento das chuvas na primavera ameaça a base da agricultura brasileira. Culturas como a mandioca, fundamentais para a agricultura familiar, já sentem os efeitos do solo mais seco. “A brota da mandioca depende da umidade. Sem ela, há perdas. O produtor precisa investir em irrigação, o que encarece a produção e pressiona o abastecimento”, diz Giseli.

Além da lavoura, a saúde humana também está na linha de frente das consequências. O cardiologista Jorge Koroishi, do HCor, alerta que ondas de calor frequentes representam risco especial para idosos e pacientes com doenças crônicas.

“Quem tem hipertensão ou insuficiência cardíaca é muito mais sensível às variações de temperatura”, explica. “O calor favorece a desidratação e pode desencadear crises de pressão e arritmias. O ar seco intensifica problemas respiratórios”.

Segundo o médico, há sinais de adaptação comportamental, como o hábito crescente de carregar garrafas de água e a busca por roupas leves. Mas o sistema de saúde ainda enfrenta desafios. “Ondas de calor sobrecarregam os prontos-socorros. A prevenção passa por hidratação, evitar atividades físicas nos horários de maior insolação e orientação na atenção básica. Mas precisamos ampliar a comunicação de riscos, com alertas eficazes para a população”.

Primavera em 2025

A previsão do Inmet para a primavera de 2025 confirma a tendência: chuvas abaixo da média em parte do Norte e do Centro-Oeste e temperaturas até 1 ºC acima da normal climatológica em quase todo o território.

(Imagem: Inmet)

O mapa do Inmet mostra a previsão de anomalias de temperatura para os meses de setembro, outubro e novembro de 2025. As áreas em tons de laranja e vermelho indicam regiões onde a temperatura deve ficar acima da média histórica, com maior intensidade no Centro-Oeste e no Nordeste. Já as áreas em cinza representam locais onde não há sinal claro de anomalia significativa.

Para os pesquisadores, a reversão das tendências depende de políticas robustas de recuperação ambiental. “Recuperar áreas degradadas, plantar árvores nas margens dos rios e proteger as nascentes são medidas que podem ajudar a restabelecer algum equilíbrio”, defende Giseli.

Enquanto isso, a primavera brasileira se distancia da imagem que a consagrou na cultura e na memória. Menos flores, menos alívio, mais calor. “Infelizmente, não é mais a mesma estação”, resume a professora da UFMT.

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