Florestas protegidas de MT geram US$ 1,1 bilhão por ano em chuva, estima estudo internacional

Pesquisa com participação de cientista brasileiro calcula o valor econômico da água produzida por florestas tropicais e aponta impacto direto para a agricultura

(Foto: Dallas Krentzel)

As áreas protegidas de Mato Grosso geram cerca de US$ 1,1 bilhão por ano em serviços de produção de chuva, segundo um estudo internacional publicado na revista Communications Earth & Environment no último mês, que analisou o papel das florestas tropicais na formação de precipitação. A estimativa considera o valor econômico da água fornecida pelas chuvas para a agricultura e integra uma análise mais ampla sobre a Amazônia.

O trabalho reúne pesquisadores do Reino Unido e do Brasil, entre eles o professor José Augusto Veiga, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A pesquisa buscou quantificar quanto a presença de florestas tropicais contribui para o ciclo da água e qual seria o valor desse serviço ambiental para atividades econômicas dependentes da chuva, como o cultivo de grãos.

Como explica Veiga, a colaboração surgiu após um workshop na Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, dedicado a discutir os impactos do desmatamento no clima. O encontro reuniu especialistas em modelagem climática e observação por satélite para avaliar como a perda de floresta altera padrões de chuva e temperatura. “Eles já estavam preparando o artigo e queriam valorizar os serviços de produção de chuva das florestas tropicais. Fui convidado para contribuir por trabalhar com impactos da mudança do uso da terra no clima”, contou à Rede Sucuri.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Para estimar o efeito da floresta na geração de chuva, os pesquisadores compararam áreas preservadas com regiões desmatadas usando dados de satélite e modelos climáticos utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O estudo indica que o desmatamento reduz, em média, cerca de 240 litros de água por metro quadrado por ano.

A partir desse cálculo, o grupo estimou quanto essa água vale para a produção agrícola. O valor foi baseado em estimativas da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que calculam o preço médio da água para o setor agrícola. Convertendo o volume de água gerado pela floresta para hectares, os pesquisadores chegaram a um valor aproximado de US$ 60 por hectare por ano em serviços de chuva.

Quando esse número é aplicado à área de floresta preservada na Amazônia brasileira, o estudo estima um total de US$ 19,6 bilhões anuais em serviços relacionados à produção de chuva. Dentro desse conjunto, áreas protegidas de Mato Grosso e de Rondônia concentram valores relevantes: cerca de US$ 1,1 bilhão e US$ 700 milhões por ano, respectivamente.

O estudo também destaca a importância das terras indígenas na manutenção desse sistema. Segundo os autores, essas áreas somam cerca de 110 milhões de hectares de floresta tropical na Amazônia brasileira e contribuiriam com aproximadamente US$ 6,5 bilhões por ano em água associada às chuvas que sustentam diferentes atividades econômicas.

Para Veiga, a relação entre floresta e produção agrícola ajuda a evidenciar um paradoxo regional. “Quanto mais se desmata, menos água se joga na atmosfera e menos chuva fica disponível para a agricultura”, afirma. Ele acrescenta que grande parte da água utilizada em cultivos como soja, milho, algodão e trigo ainda depende diretamente das precipitações naturais.

Segundo o pesquisador, estimativas econômicas desse tipo podem ajudar a orientar políticas públicas voltadas à conservação. A ideia é oferecer números que permitam comparar o valor de manter a floresta em pé com os ganhos imediatos obtidos com a expansão da fronteira agrícola. Confira o estudo na íntegra neste link

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