
Com os incêndios em queda no Pantanal em 2025, as atenções se voltam agora para os aprendizados deixados pelas operações de emergência dos anos anteriores. Um relatório consolidado do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), obtido pela Rede Sucuri, via Lei de Acesso à Informação (LAI), mostra como o uso intensivo de tecnologia em 2024 foi importante para reduzir perdas na fauna e pode orientar estratégias permanentes de conservação do bioma.
Durante a “Emergência Fauna Pantanal 2024”, deflagrada entre julho e novembro em meio à seca extrema e ao risco elevado de incêndios, foram mobilizados drones, câmeras de monitoramento, helicópteros e sistemas de resgate. As equipes percorreram mais de 40 mil quilômetros em viaturas, 500 km por rios e realizaram cerca de 40 horas de voo para mapear áreas críticas, resgatar animais e instalar pontos de apoio.
Um dos destaques foi o uso das câmeras trap, armadilhas fotográficas que registram automaticamente a fauna. Elas permitiram identificar mais de 630 animais, de 81 espécies diferentes, entre eles onças-pintadas, cervos-do-pantanal, antas e aves ameaçadas.

As imagens ajudaram a avaliar a condição física dos animais, verificar a ocupação de áreas pós-fogo e acompanhar sinais de regeneração ambiental. “As câmeras permitem avaliar se o animal está hidratado, ferido, adulto ou jovem. Como são georreferenciadas e posicionadas em locais estratégicos, revelam rotas e hábitos que dificilmente seriam vistos a olho nu”, explica Cláudia Sacramento, analista ambiental do ICMBio.
Segundo ela, o monitoramento também serviu para identificar quando seria necessária intervenção humana. “Em alguns casos, a análise das imagens mostrou que as espécies estavam bem adaptadas, com bom score corporal, se reproduzindo, o que reduziu a necessidade de interferência direta.”
Drones e helicópteros aceleraram resgates
Os drones serviram para mapear pontos de água e orientar a instalação de câmeras e bebedouros artificiais. Já os helicópteros foram considerados indispensáveis para transportar rapidamente equipes e animais feridos. O ICMBio destaca que esse apoio aéreo aumentou as chances de sobrevivência de espécies resgatadas, como tamanduás-bandeira e onças.
Em um dos episódios relatados, três filhotes de jacaré foram encontrados desidratados em uma piscina abandonada e só sobreviveram graças ao deslocamento ágil das equipes. No total, 108 animais foram manejados e realocados, sendo 86 jacarés levados a áreas com melhores condições hídricas.
Para Cláudia Sacramento, o uso de drones ampliou a eficiência da operação. “Eles ajudam a identificar áreas atingidas, ilhas preservadas, árvores frutíferas, corpos d’água e até a intensidade do fogo. Em alguns casos, drones termais indicam a presença de animais escondidos em áreas críticas, o que aumenta a precisão do resgate.”
Instalação de poços

Com rios e corixos secos, a Sema-MT, em parceria com o Exército, instalou poços tubulares profundos ao longo da Transpantaneira. Ao lado deles, foram construídos reservatórios para que funcionassem tanto como fonte de captação de água para os bombeiros em casos de incêndio quanto como ponto de dessedentação da fauna silvestre.
“Esses poços foram planejados ainda em 2023, em ação conjunta entre Sema, Corpo de Bombeiros, Sinfra, Defesa Civil, Sindicato Rural e produtores. A ideia era ter pontos equidistantes para atender tanto à fauna quanto ao combate de incêndios”, afirma Paulo Abranches, analista ambiental da Sema-MT e gerente da Estrada Parque Transpantaneira.
Segundo ele, cinco poços foram perfurados em locais estratégicos, com apoio de recursos federais e contrapartida dos pecuaristas, que cederam áreas para a construção. “Eles encheram com as chuvas, e agora são mantidos com bombeamento subterrâneo no período de estiagem. Servem para a fauna, para os animais transportados em comitivas e como apoio em caso de fogo”, explica.
Abranches lembra que, em 2024, houve pressão para que fossem instalados bebedouros improvisados às margens da estrada, algo que, segundo ele, poderia trazer riscos. “Trazer animais para perto da pista aumentaria o risco de atropelamento. Optamos por medidas que garantissem água, mas sem expor a fauna ao trânsito intenso da Transpantaneira”, defende.
Ele destaca ainda que parte das obras de infraestrutura resultou em novos pontos de acúmulo de água de chuva. “Ao encabeçar pontes com material retirado das laterais da estrada, criamos caixas de empréstimo que viraram reservatórios naturais, com rampas para que os animais possam acessar e sair com segurança”.
O relatório aponta que os dados coletados serão fundamentais não apenas em futuras emergências, mas também no planejamento de políticas de restauração ambiental e conservação. O material aponta, por exemplo, quais espécies se mostraram mais vulneráveis em períodos de seca extrema, informação chave para direcionar ações preventivas.
Entre as recomendações estão a ampliação do uso de drones, a manutenção de apoio aéreo permanente e a melhoria da comunicação em campo. “O principal gargalo é a comunicação. Em emergências, a energia e o sinal de celular são os primeiros a cair. Precisamos de um sistema robusto, independente de internet, que funcione mesmo em áreas isoladas”, afirma Cláudia Sacramento.
De crise a referência
Apesar das perdas, os registros mostram sinais de regeneração. Espécies bioindicadoras, como a onça-pintada e o cervo-do-pantanal, voltaram a circular em áreas atingidas pelo fogo. Para o ICMBio, isso indica que o uso de tecnologia não apenas ajudou a reduzir os impactos imediatos, mas também abriu caminho para transformar emergências em aprendizado contínuo.
“O planejamento iniciado em 2023 e executado em 2024 foi decisivo. Tivemos um cenário climático pior que 2020, mas com menos queimadas em áreas de conservação, graças à prevenção e ao uso de tecnologia”, afirma Paulo Abranches. Com a temporada de 2025 apresentando menor incidência de incêndios, a experiência de 2024 passa a ser vista como um legado.

