Turismo de base comunitária e bem viver

Estudo em comunidade rural revela novas formas de desenvolvimento

Você já se perguntou se existe uma maneira diferente de pensar o desenvolvimento além da ideia de crescer, produzir e consumir cada vez mais? Essa dúvida passou a ganhar novos significados a partir da pesquisa que está sendo desenvolvido na comunidade do Facão/Cinturão Verde localizada em Cáceres no interior de Mato Grosso. Ali, entre hortas, cachoeiras, saberes tradicionais e histórias de luta pela terra, encontramos experiências que nos ajudam a imaginar outras formas de organizar a vida coletiva.

A pesquisa tem como foco o Turismo de Base Comunitária (TBC), uma modalidade de turismo em que a própria comunidade planeja, organiza e conduz as atividades turísticas. O TBC se diferencia do turismo convencional, em que empresas externas costumam controlar os serviços e concentrar os lucros, visando fortalecer a autonomia local, valorizar a cultura e distribuir os benefícios de forma mais justa. 

Hoje, esse trabalho reúne ensino, pesquisa e extensão em uma construção verdadeiramente coletiva. O projeto de extensão, que já está em sua segunda edição, bem como o projeto de pesquisa, conta com uma equipe interdisciplinar formada por uma doutoranda e uma mestranda em Ciências Ambientais, além de uma mestranda e duas graduandas em Administração. Juntas, desenvolvem ações e investigações que buscam fortalecer a comunidade a partir de diferentes perspectivas, abrangendo desde a implantação do Turismo de Base Comunitária até temas como: gestão de resíduos, sustentabilidade, bioeconomia e marketing decolonial. Mais do que projetos acadêmicos, essas iniciativas representam espaços de aprendizado mútuo, nos quais universidade e comunidade constroem conhecimentos, compartilham experiências e imaginam, coletivamente, novas possibilidades para o desenvolvimento local.

Para além do potencial turístico do território, essas iniciativas se diferenciam pela maneira como essas práticas comunitárias se assemelham ao “Bem Viver”. O “Bem Viver” é uma filosofia de vida com origem em conhecimentos ancestrais dos povos andinos da América do Sul, especialmente do Equador e da Bolívia, que propõe uma visão de mundo baseada na harmonia entre seres humanos, natureza e comunidade. Em contrapartida ao modelo ocidental de desenvolvimento baseado em competição, consumismo desenfreado e acúmulo de riquezas, valoriza a cooperação, a reciprocidade e o cuidado com a vida.

Ao longo das atividades de pesquisa e extensão desenvolvidas entre os anos de 2025 e 2026, por meio de rodas de conversa, oficinas participativas e da construção coletiva de propostas para o turismo comunitário, observamos que muitos dos princípios do “Bem Viver” já fazem parte da realidade cotidiana da comunidade. Eles se manifestam nas relações de solidariedade, na valorização dos saberes locais, no cuidado com o território e na busca por soluções construídas coletivamente para os desafios enfrentados pelos moradores.

Durante os encontros com a comunidade, paisagens naturais formadas por atrativos naturais como cachoeiras, trilhas e nascentes de água mineral foram identificadas. Além disso, também foram destacados conhecimentos transmitidos entre gerações, como a agricultura familiar, a produção artesanal de alimentos e bebidas feitas pelos próprios moradores, festas religiosas e histórias ligadas à ocupação do território.

Cachoeira, trilha, nascentes de água mineral, antiga igreja e antiga escola da comunidade do Cinturão Verde/Facão, em Cáceres/MT. Fonte: Acervo da autora.

Por outro lado, a pesquisa colaborou para revelar  desafios urgentes, como questões relacionadas ao saneamento, infraestrutura e acesso a políticas públicas que ainda  limitam o potencial de pleno desenvolvimento local. Por isso, as ações desenvolvidas buscaram não apenas planejar atividades turísticas, mas também fortalecer a organização comunitária e promover espaços de diálogo sobre temas importantes voltados à sustentabilidade, gênero e participação social.

Um dos momentos mais emblemáticos aconteceu durante as oficinas  ministradas em 2025 por uma doutoranda argentina, por meio do Programa Move La América com mulheres da comunidade. Na ocasião, foram promovidos diálogos entre as participantes sobre trabalho e cuidado, onde compartilharam reflexões sobre desigualdades e formas de apoio mútuo. A partir dessas conversas surgiram debates sobre a importância das redes de solidariedade e do protagonismo feminino na construção de um território mais justo e acolhedor.

Experiências como a da comunidade do Cinturão Verde/Facão, denominadas “ecossocioeconômicas”, mostram que o turismo pode ser muito mais do que uma atividade econômica. Quando construído coletivamente, ele pode se tornar uma ferramenta de fortalecimento comunitário, valorização cultural e conservação ambiental. Em tempos marcados pelas mudanças climáticas, pelo aumento das desigualdades e pela crise dos modelos tradicionais de desenvolvimento, iniciativas como a da Comunidade do Cinturão Verde/Facão nos convidam a olhar para alternativas que já existem e que são possíveis de nascerem dos próprios territórios.

Ao longo da pesquisa, tornou-se evidente que o desenvolvimento pode assumir significados que vão além das métricas convencionais e de indicadores socioeconômicos. Ele pode ser percebido na cooperação entre os moradores, na preservação dos recursos naturais, na transmissão de saberes entre gerações e na capacidade coletiva de enfrentar desafios e construir alternativas para o futuro.

Mais do que oferecer respostas definitivas, esta pesquisa convida à reflexão: e se as respostas para muitos dos desafios atuais frente às crises socioambientais e econômicas, estiverem mais próximas do que imaginamos, guardadas nos conhecimentos e nas práticas de comunidades que há muito tempo aprenderam a viver em equilíbrio com a natureza? Já tinha pensado nisso? 

As experiências que contamos aqui representam apenas uma parte da riqueza presente nesse território. Quer conhecer mais sobre a comunidade? Acesse as redes sociais da Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Cinturão Verde/Facão de Cáceres – MT.

Liliane Cristine Schlemer Alcântara – Doutora em Desenvolvimento Regional, mestre e bacharel em Administração. É professora da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFMT e atua nos programas de pós-graduação em Administração, Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação (UFMT) e em Ciências Ambientais (UNEMAT).

A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

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