Chapada dos Guimarães enfrenta escassez estrutural de água e precisa rever uso do solo, diz estudioso

Região está sobre rochas com baixa capacidade de armazenar água; professor Caiubi Kuhn, presidente da Febrageo, vê soluções na conservação de nascentes e na integração entre ciência e gestão pública.

(Foto: Marinelson Almeida Silva / Montagem: Rede Sucuri)

A falta d’água que atinge Chapada dos Guimarães, um dos destinos turísticos mais conhecidos de Mato Grosso, vai além do clima seco e das estiagens prolongadas. O problema, segundo o geólogo Caiubi Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo) e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), está ligado às características geológicas do município e à forma como o solo vem sendo ocupado.

“Chapada está sobre rochas que não têm uma boa capacidade para armazenar água. A cidade fica em cima da Formação Ponta Grossa, uma unidade geológica que possui aquíferos muito ruins. Por isso, é difícil ter um grande volume de água no município, tanto superficial quanto subterrânea”, explica Kuhn.

Segundo ele, a consequência é direta. “Os rios que nascem nessas rochas têm pouco volume, e isso afeta tanto o abastecimento dos moradores quanto o turismo. Essa é uma limitação física do território, e ela precisa ser compreendida para que as soluções sejam compatíveis com a realidade do lugar.

Presidente da Febrageo, Caiubi Kuhn (Foto: Pedro Ivo / Assessoria)

A situação, afirma o geólogo, pode comprometer um dos principais motores da economia local. “Chapada é um destino turístico importante, mas, sem água, os atrativos naturais ficam prejudicados. É fundamental pensar o uso racional da água e o correto uso e ocupação do solo para reduzir os impactos dessa escassez.”

Ele defende medidas urgentes que envolvam educação ambiental, gestão pública e planejamento técnico. “É preciso trabalhar junto à população para que todos entendam o problema e adotem práticas mais sustentáveis. Ações como o reuso de água, o armazenamento de água da chuva e a conservação das áreas de nascente e recarga dos aquíferos são fundamentais”, afirma.

Caiubi lembra que parte da água de Chapada já vem de pontos distantes e que, no futuro, pode ser necessário ampliar essa captação. “Uma alternativa a médio e longo prazo seria buscar águas de rios que nascem em regiões abastecidas pelo Aquífero Guarani. Esses rios têm um volume um pouco maior e podem ajudar a suprir a demanda”, diz.

Mesmo assim, o geólogo ressalta que a solução definitiva não está apenas em novas captações, mas em entender os limites geológicos do município. “As rochas que estão sob Chapada não permitem ampliar muito o volume de água disponível. Por isso, é essencial planejar o crescimento urbano e proteger as áreas de recarga”.

Ciência e poder público precisam atuar juntos

Para Kuhn, o melhor caminho para enfrentar a crise hídrica é por meio da ciência. “O trabalho técnico, as pesquisas bem desenvolvidas, podem indicar tanto as limitações quanto as soluções. A ciência precisa fundamentar as decisões dos gestores públicos. Só assim é possível tomar decisões adequadas à realidade do município”.

Ele defende uma aproximação maior entre pesquisadores, poder público e comunidade. “O papel da pesquisa científica é ajudar os gestores a atender melhor a população. É um problema difícil de resolver, mas, com base técnica e diálogo, é possível minimizar os impactos”.

Essas questões estarão no 5º Workshop Geoparque Chapada dos Guimarães, organizado pela Febrageo em parceria com o Geoparque Chapada dos Guimarães e o Geoclube, no próximo dia 17 de outubro, na Câmara Municipal. O evento reunirá especialistas, gestores e moradores para discutir os desafios da escassez hídrica e buscar soluções conjuntas. 

“O objetivo é tornar esse tema mais fácil de ser compreendido pela população e ampliar o debate com os gestores públicos”, resume Kuhn. “Chapada tem um papel estratégico, tanto ambiental quanto social. Precisamos cuidar desse território com base no que a ciência já nos mostra”. Outros temas também ganharão destaque no evento como fósseis, geomorfologia e áreas de risco. Confira a programação completa neste link.

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