
Décadas antes de o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desenvolver o Prodes e o Deter, sistemas que monitoram o desmatamento na Amazônia, a química Clara Pandolfo já defendia o uso de imagens de satélite para fiscalizar a floresta. Em plena ditadura militar, nos anos 1970, ela foi a primeira gestora pública a propor o uso dessa tecnologia para acompanhar a devastação causada por projetos agropecuários financiados com recursos da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia).

Amazônica Brasileira enfoque econômico-ecológico”, unindo economia e ecologia em propostas de desenvolvimento. Sugeriu concessões de florestas públicas para manejo sustentável. (Foto: clarapandolfo.online)
Sua trajetória é o tema da biografia escrita pelo neto, o jornalista e historiador Murilo Fiuza de Melo, que buscou recuperar a contribuição científica e política da avó. “Ela falava da Amazônia com brilho nos olhos e acreditava que o desenvolvimento só fazia sentido se preservasse a floresta”, diz o autor. A obra, disponível para download gratuito, pode ser conferida em clarapandolfo.online.
Em 1973, quando dirigia o setor de Recursos Naturais da Sudam, Clara assinou um convênio com o Inpe para utilizar imagens do satélite ERTS-1, depois rebatizado de Landsat-1, lançado pela Nasa. O objetivo era fiscalizar o cumprimento da exigência legal que determinava a preservação de 50% das áreas dos empreendimentos agropecuários na Amazônia.
Na época, a tecnologia era experimental. Sem GPS, os técnicos usavam bússolas e altímetros para identificar áreas de desmatamento. Um dos participantes do projeto foi Antonio Tardin, que mais tarde ajudaria a criar o Prodes, sistema oficial de monitoramento da perda de cobertura florestal.
Os resultados mostraram que o avanço da pecuária na Amazônia se sustentava em alta devastação e baixa produtividade, além de revelar situações de trabalho precário e ausência de serviços básicos nas fazendas.
A antecipação de uma era digital

Para o pesquisador Eduardo Rosa, do MapBiomas, o projeto de Clara Pandolfo foi precursor direto dos sistemas de monitoramento atuais. “Ela plantou a semente do que fazemos hoje. Aquilo que era uma utopia nos anos 1970, acompanhar a floresta por satélite, virou rotina”, afirma.
Rosa lembra que as imagens usadas por Clara tinham 80 metros de resolução e eram analisadas em papel fotográfico. “Hoje, trabalhamos com resolução de até 4 metros, processamento automático e séries históricas que cobrem todo o território desde 1985. É uma revolução.”
Segundo ele, o MapBiomas Alerta, sistema criado em 2019, atualiza mensalmente informações de desmatamento com laudos técnicos, permitindo identificar quem desmatou, onde e para quê. “Se Clara visse isso hoje, diria que a ideia que lançou lá atrás se concretizou”, afirma.
Rosa destaca que o avanço tecnológico tornou o problema ambiental mais visível, mas não necessariamente mais resolvido. “Hoje, não há dúvida sobre onde está sendo desmatado. O desafio é a governança: o que o poder público faz com essa informação e como enfrenta as áreas abertas de forma ilegal ou insustentável”.
A Dama da Floresta

Nascida no Pará, Clara Pandolfo foi a primeira mulher formada em Química na região Norte. Ativa no movimento sufragista, enfrentou o machismo no meio científico e administrativo. Segundo o neto, ela ouvia desde jovem que o “mundo do trabalho era dos homens”, mas manteve sua atuação pública voltada à defesa da floresta.
Apelidada de “Dama da Floresta” por colegas que criticavam sua postura, Clara foi uma das primeiras vozes dentro da burocracia da ditadura a questionar o modelo de ocupação da Amazônia baseado na expansão da pecuária e na derrubada da mata. “A única ocupação econômica que não destrói a cobertura florestal é a exploração florestal organizada”, escreveu em 1972.
O convênio idealizado por ela marcou o início do uso sistemático de imagens de satélite para monitorar a Amazônia, base do que décadas depois se tornaria referência mundial com o Prodes, o Deter e, mais recentemente, o MapBiomas.
Redescoberta
Com a COP30 prevista para Belém em 2025, cidade onde Clara viveu e fez carreira, a redescoberta de sua história reforça o papel das cientistas pioneiras da Amazônia. “Graças a ela, o Brasil foi um dos primeiros países a adotar o monitoramento ambiental por satélite”, diz Murilo.
A biografia, que está sendo distribuída em escolas públicas da região, pretende recolocar Clara Pandolfo no centro da história da ciência amazônica. “O país se tornou referência mundial, mas quase ninguém sabe que essa ideia nasceu aqui, com ela”, diz Murilo, cujo trabalho em homenagem à memória da avó também pode ser conferido no minidocumentário “A Cientista da Amazônia”. Confira:

