Sou Jozanes Assunção Nunes. Nasci e cresci em Vila Bela da Santíssima Trindade, no interior de Mato Grosso, lugar onde aprendi a reconhecer a força da cultura negra como herança e horizonte. Cidade das festas do Congo, do Chorado, das histórias narradas nas portas das casas e da vida que pulsa às margens do Rio Guaporé. Ali, ser negra era estar no centro da história. Era presença, era memória viva, era pertencimento.
Anos depois, quando me mudei para Cuiabá e, mais tarde, ingressei na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), percebi um contraste profundo. Foi ali que minha trajetória acadêmica ganhou novos contornos e onde hoje atuo como docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem e como Técnica em Assuntos Educacionais.
Nesse percurso, fui percebendo que a presença negra, tão natural em minha cidade de origem, tornava-se rara nos espaços de poder e de produção do conhecimento. Essa percepção não se transformou imediatamente em pergunta formal; foi amadurecendo ao longo do tempo, acompanhando minha trajetória acadêmica, até ganhar contornos mais definidos. Foi no estágio de pós-doutorado, realizado recentemente na Universidade de São Paulo (USP), que essas inquietações se consolidaram como projeto de pesquisa. Perguntei-me, então: quem são os sujeitos que a universidade reconhece como produtores de ciência? Onde estão as pesquisadoras e os pesquisadores negros? Quantos são? Que posições ocupam?

Nesse contexto, investiguei a representatividade de pesquisadores negros servidores efetivos da UFMT entre 2000 e 2024. O estudo analisou dados institucionais, projetos de pesquisa, liderança acadêmica e ações de internacionalização. Também ouvi pesquisadores negros da própria universidade, porque compreender números exige também escutar experiências.
Esta pesquisa contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e do Ministério da Igualdade Racial, cujo apoio possibilitou transformar inquietações acadêmicas em investigação sistemática e em produção de conhecimento comprometida com a justiça social e a democratização da ciência.
Além disso, não foi construída de forma solitária. Ela foi realizada de maneira coletiva, em diálogo com pesquisadores da UFMT, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), contando ainda com o apoio fundamental da equipe técnica formal do projeto e de colaboradores acadêmicos e técnicos da UFMT, cuja contribuição especializada se fez presente nas diferentes etapas do estudo. Essa participação envolveu o tratamento dos dados, a organização das informações em painel interativo, a produção visual dos materiais e a edição dos conteúdos audiovisuais. Essa dimensão colaborativa reforça a compreensão de que pesquisar é também partilhar saberes, somar competências e construir caminhos em rede.
Os resultados revelam uma assimetria persistente. Pesquisadores negros representam cerca de 12% do corpo científico da instituição, enquanto pesquisadores brancos correspondem a 85% aproximadamente.

A desigualdade se acentua quando observamos posições de liderança, bolsas de produtividade do CNPq e oportunidades de internacionalização. Em algumas dessas instâncias, a presença negra é mínima ou inexistente. É importante destacar que isso não significa ausência de competência ou produção. Significa que a estrutura da ciência brasileira ainda carrega marcas históricas que dificultam o acesso equitativo aos espaços de maior prestígio acadêmico (confira os resultados completo do estudo sobre representatividade de pesquisadores negros na UFMT).
A pesquisa também mostrou que políticas nacionais importantes, como a Lei de Cotas no serviço público, ampliaram o ingresso de pessoas negras na universidade, mas ainda não foram suficientes para alterar de forma estrutural a ocupação dos espaços centrais da pesquisa.
Mais do que apontar problemas, o estudo propõe caminhos: criação de indicadores permanentes de monitoramento racial da pesquisa, editais afirmativos, programas de mentoria, fortalecimento de redes acadêmicas e ampliação do acesso à internacionalização. Acredito que produzir ciência também é um gesto ético. Pesquisar a própria instituição foi um desafio, mas também uma forma de transformar o silêncio em dado, e o dado em possibilidade de mudança.
Minha trajetória acadêmica, que inclui doutorado em Linguística Aplicada, atuação no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFMT e pesquisas sobre literatura negra e estudos bakhtinianos, sempre esteve atravessada por essa pergunta central: quem pode narrar a si mesmo na história da ciência?
Hoje, entendo que toda pesquisa começa com uma experiência vivida. A minha começou em Vila Bela, no som dos tambores do Congo. E segue agora, na tentativa de contribuir para que a universidade pública brasileira seja cada vez mais diversa, justa e representativa. Porque ampliar a presença negra na ciência não é apenas uma questão estatística. É uma questão de democracia do conhecimento.
A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (Propesq/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da UFMT ou da Propesq.

