
A poluição do ar já esteve associada a quase 20 mil mortes em Mato Grosso em 14 anos. O dado foi discutido nesta quinta-feira (14.05) pela coordenadora-geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde, Eliane Ignotti, durante mesa sobre clima e saúde no 3º Congresso do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems/MT), realizado na capital.
Segundo o painel Vigiar, do ministério, foram aproximadamente 19.804 mortes atribuíveis à poluição atmosférica entre 2010 e 2024. Apenas no intervalo mais recente (2022 a 2024), foram 5.095 óbitos. Em 2018 a 2021, o número chegou a 5.567. “Quando chegou a pandemia, no início projetamos cerca de 4.000 mortes. Já era assustador. Mas hoje morrem mais pessoas por ano associadas à poluição atmosférica”, disse Ignotti, que é doutora em Saúde Pública.
A relação não aparece de forma direta nas estatísticas. “A pessoa não morre de poluição. Morre de infarto, pneumonia, bronquite. A poluição é o fator que agrava essas condições”, afirmou.
Em 2024, Mato Grosso registrou média anual de 27,6 microgramas por metro cúbico de material particulado fino (MP2,5), quase seis vezes acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde, de 5 µg/m³. Em Cáceres, a média chegou a 55 µg/m³, com um terço dos dias do ano sob má qualidade do ar.
O estado também aparece entre os mais afetados do país em rankings de poluição. Municípios como Vila Bela da Santíssima Trindade e Cáceres figuram entre os dez com maiores concentrações médias de MP2,5 no Brasil.

Ignotti destacou que o problema não se restringe às áreas com queimadas. Correntes de vento transportam poluentes por longas distâncias, ampliando a exposição. “Mesmo regiões que não concentram focos de calor podem ter alta carga de poluição”, disse.
Mudanças climáticas
A especialista relacionou o cenário à intensificação das mudanças climáticas. Mato Grosso tem registrado aumento de temperatura, redução de chuvas e maior risco de incêndios florestais. “Não há discussão: vivemos uma crise climática”, afirmou.
Dados apresentados pela especialista indicam queda de até 300 milímetros na pluviosidade em partes do estado e redução de até 30% na frequência de chuvas. Ao mesmo tempo, há aumento consistente das temperaturas médias. A combinação favorece a ocorrência de queimadas e piora a qualidade do ar, além de pressionar o sistema de saúde. “Eventos climáticos se somam à poluição e ampliam os riscos”, disse.
O Ministério da Saúde tem estruturado o plano AdaptaSUS, voltado à adaptação do setor às mudanças climáticas. Diferentemente de áreas como transporte e indústria, responsáveis pela mitigação de emissões, a saúde atua na redução de danos e na preparação para eventos extremos.

Entre as medidas estão a criação de centros de informação em saúde e clima, sistemas de alerta precoce e protocolos clínicos específicos para períodos de calor intenso, seca e poluição.
O congresso, realizado entre os dias 13 e 15 de maio em Cuiabá, reúne mais de 1.200 participantes entre gestores municipais, técnicos, profissionais da saúde e representantes de instituições ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

