
A cidade de Cáceres (a 226 km de Cuiabá), que em 2023 chegou a reconhecer a natureza como titular de direitos em sua Lei Orgânica (antes de recuar após pressão ruralista), receberá um evento inédito que pretende dar destaque ao Pantanal nas discussões globais sobre o clima. A COP Pantanal: Saberes e Ações pelo Clima, organizada pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), ocorrerá de 10 a 12 de novembro e vai reunir pesquisadores, lideranças comunitárias, escolas e gestores públicos para discutir soluções locais diante das mudanças climáticas.
“A ideia da COP Pantanal surgiu da necessidade de dar visibilidade ao bioma Pantanal pelas vozes pantaneiras, pela gente local, nas discussões sobre mudanças climáticas em âmbito regional”, explica Ernandes Sobreira Oliveira Júnior, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Biológicas da Unemat e um dos organizadores, à Rede Sucuri. A inscrição para participar é gratuita e está disponível neste link.
O evento é correalizado pela Unemat e pelo IFMT e conta com o apoio de instituições como o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado (MPMT), a Assembleia Legislativa (ALMT), a Fapemat, o Governo de Mato Grosso, o Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), a Fundação FAESPE, o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), o Instituto Gaia, o Comitê Popular do Paraguai/Pantanal, o Laboratório de Investigação Ambiental do Pantanal Norte (Lipan), e organizações locais como a Sociedade Fé e Vida e a ARTEMAT.
Entre as principais atividades estão uma audiência pública e a elaboração da Carta do Pantanal, documento coletivo que reunirá compromissos e demandas regionais para serem levadas à COP30, em Belém, que ocorre entre os dias 10 e 21 de novembro deste ano.
“O produto da COP Pantanal será a Carta do Pantanal. Um documento escrito e referendado pelo movimento popular, por diferentes atores sociais pantaneiros, que será levado e entregue nas mãos dos representantes governamentais”, diz Ernandes, que é doutor em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, pela Radboud University/Holanda. “Esperamos levar ao debate global uma contribuição concreta a partir das experiências locais de gestão ambiental, educação climática e restauração ecológica”.
O vereador Cézare Pastorello (PT) é o único parlamentar de Cáceres que declarou apoio ao evento até agora. Ele diz que a motivação é óbvia. “Um evento científico, humanitário, para priorizar ações de mitigação da crise climática. Essas são pautas importantes no meu mandato”, disse em entrevista à Rede Sucuri. Para Pastorello, o poder público municipal não tem tido a mesma disposição e um evento dessa natureza é um contraponto importante para a agenda política do município.
Apesar das resistências políticas em relação à pauta ambiental, Pastorello vê na COP Pantanal uma oportunidade de transformar conhecimento em ação política. “A gente pretende fazer a compilação das soluções e propostas viáveis para encaminhar à discussão na COP30. E também trazer visibilidade para a questão do problema, porque a gente precisa de vontade política para fazer as ações”.
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O vereador destaca que o Pantanal é essencial na regulação do clima. “É uma das maiores reservas de carbono do planeta. A forma como a gente mantém as reservas e a preservação ajuda a segurar parte da crise climática. E já temos impactos: as secas ficaram mais prolongadas, as cheias mais intensas. Tudo isso tem explicações científicas e propostas de solução. A COP serve para expor isso para o mundo, para gerar pressão externa também. A gente precisa mostrar que não só a Amazônia, mas também o Pantanal é importante para essa discussão”.
O bioma como protagonista

Para Ernandes Sobreira, o foco do evento é garantir que o Pantanal tenha voz própria no debate climático. “O que acontece no Pantanal é diferente em vários pontos do que acontece na Amazônia. A população tem outros hábitos, outras ações, e isso deve ser considerado na gestão ambiental”, explica. “O Pantanal é um dos biomas mais vulneráveis às mudanças climáticas e desempenha papel essencial na regulação hídrica e no equilíbrio dos ecossistemas. É importante que tenha destaque porque seus desafios e soluções diferem dos da Amazônia e precisam de políticas específicas”.
O evento reunirá 20 municípios pantaneiros e incluirá atividades conjuntas com a XIX Semana da Biologia da Unemat (Semabio) e a VII Jornada de Ensino, Pesquisa e Extensão do IFMT (Jenpex). Antes da abertura oficial, acontece o Hacka do Clima, uma maratona de 24 horas para desenvolver soluções inovadoras voltadas à adaptação e mitigação dos efeitos climáticos no bioma.
A maratona será coordenada por Amabilen de Oliveira Furlan, bióloga e supervisora da Agência de Inovação da Unemat. Conforme os organizadores, os participantes vão “mapear problemas, prototipar soluções e apresentar pitches curtos para uma banca de mentores do Sebrae, Unemat e IFMT”.
A COP Pantanal deverá ser, portanto, um marco político e simbólico. “Mais do que um evento, queremos criar um movimento”, resume Ernandes. “O Pantanal precisa ser reconhecido não apenas como paisagem, mas como território de saberes e de resistência. A Carta do Pantanal será a nossa contribuição para o mundo”.
Pastorello concorda. “É importante lembrar que Cáceres foi a única cidade do Pantanal que já teve a natureza como titular de direitos na lei orgânica. Ficou cerca de 30 dias na nossa lei. Depois houve um movimento dos ruralistas para tirar. Então, a COP vai acontecer justamente numa cidade que já teve a natureza reconhecida como sujeito de direitos, isso tem um simbolismo muito forte”.

