
“Hoje, na área urbana de Cuiabá, o Rio Coxipó é, na prática, um rio de contemplação. Nenhuma atividade pode ser realizada nesse trecho”, é o que conta o professor Ibraim Fantin da Cruz, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele está há anos à frente de pesquisas de monitoramento, proteção e preservação de bacias hidrográficas importantes para o estado, como a do Rio Coxipó.
A fala resume a condição atual de um dos rios mais importantes da capital. Afluente do rio Cuiabá, o Coxipó tem relevância histórica, hídrica e socioambiental, mas sofre forte pressão no trecho urbano, marcada pela urbanização acelerada, retirada da mata ciliar, lançamento de esgoto e descarte irregular de lixo. Pesquisas já identificaram nas águas do rio a presença de fármacos, como antidepressivos e antiepiléticos, além de agrotóxicos, microplásticos e elevados índices de bactérias fecais.

Em dezembro do ano passado, o vereador Alex Rodrigues (PV) anunciou no plenário da Câmara Municipal um projeto de revitalização do rio, com início dos trabalhos previstos para janeiro de 2026. Em estágio inicial, a proposta ainda tem limitações técnicas importantes: não conta com diagnóstico ambiental consolidado, plano executivo nem estimativa de custos, mas deve contar com o apoio da concessionária de serviços públicos de água e esgoto Águas Cuiabá.
Segundo Alex Rodrigues, a proposta ainda está em construção justamente para evitar ações pontuais e sem continuidade. “A gente não está com pressa de fazer algo só para anunciar. Queremos começar com diagnóstico, planejar e fazer uma coisa organizada, que realmente dê resultado e não seja esquecida depois”, garante.
De acordo com o parlamentar, o projeto nasceu de sua relação pessoal com o rio, que fez parte de sua infância, quando ia brincar e tomar banho com a família. A região do Coxipó é, também, seu principal reduto eleitoral. Entre as ações mencionadas por ele estão a limpeza do leito e das margens, retirada de troncos e lixo, reflorestamento com espécies nativas e iniciativas de educação ambiental. Também foi citada a possibilidade de criação de uma balsa ecológica para manutenção contínua do rio.
“Mas não é só limpar. Se não houver conscientização, a situação volta ao que era. A gente vê isso na cidade: limpa hoje, no mesmo dia o lixo já está lá de novo. Por isso, o projeto envolve limpeza, recuperação ambiental e educação ambiental” Conforme o vereador, Ministério Público, Prefeitura de Cuiabá, secretarias municipais, UFMT e IFMT serão convidados a colaborar com o projeto.
Tecnicamente possível, economicamente custoso
Para o professor Ibraim, esse tipo de intervenção tem valor simbólico e pode gerar ganhos pontuais, mas para resultados substanciais a questão do esgotamento sanitário precisa ser central. “Para recuperar o rio urbano para esse tipo de uso [atividades recreativas e pesca], seria necessário retirar esses lançamentos de esgoto. Tecnicamente é possível, mas economicamente muito custoso e estruturalmente complexo, além de depender do que está previsto no contrato da concessionária”, explica.
A situação contrasta com a realidade observada fora do perímetro urbano. Na parte alta da bacia, especialmente durante o período de estiagem, a qualidade da água é significativamente melhor e, em alguns pontos, própria para banho. Ainda assim, mesmo essas áreas vêm sofrendo pressão crescente da ocupação humana, com desmatamento de matas ciliares, conversão de áreas naturais e expansão de condomínios, sobretudo de lazer.
A presença desses empreendimentos é apontada como um dos vetores centrais de degradação. “Quando você tem a expansão de condomínios e de ocupação humana, surgem inevitavelmente os resíduos líquidos e sólidos. Parte disso acaba indo parar no rio”, diz Ibraim. Para ele, sem fiscalização rigorosa e investimentos em saneamento, qualquer ação de limpeza tende a ser temporária. “Não adianta só limpar o rio e plantar árvore se o esgoto continuar caindo”, alerta.
Na avaliação do pesquisador da UFMT, essa constatação é central. “Um projeto de revitalização, olhando a bacia como um todo, precisa priorizar a recuperação das áreas de preservação permanente, a proteção das nascentes e o cumprimento do que já está previsto na legislação ambiental, como o Código Florestal”, explica. Ele ressalta que a fiscalização para impedir novas ocupações irregulares e a degradação contínua das APPs é uma obrigação legal, mas frequentemente negligenciada.
Ibraim reconhece que iniciativas voltadas ao rio urbano podem trazer benefícios indiretos importantes. “Se fosse possível ter um rio de melhor qualidade, sem odor, com áreas de convivência e contemplação, isso melhoraria muito a qualidade ambiental e a qualidade de vida na cidade”, afirma. Ele pondera, porém, que essas decisões precisam ser tomadas com base em planejamento, viabilidade econômica e nos usos reais que a população fará do espaço.
Para o vereador, o desafio é conciliar viabilidade técnica, articulação institucional e expectativa da população. “A gente sabe que não é simples e que não se resolve do dia para a noite. Mas o Coxipó não pode continuar sendo tratado como um problema invisível. Ou a gente começa a enfrentar isso agora, com planejamento, ou a degradação só vai aumentar”.


