Hidrovia no Rio Paraguai deve agravar secas e ameaçar o Pantanal

Governo Federal prepara leilão inédito ainda em 2026, enquanto cientistas e ribeirinhos alertam para risco de drenagem mais rápida da água, impactos sociais e falta de estudos conclusivos

(Foto: Foto: Divulgação Antaq / Montagem: Rede Sucuri)

Pesquisadores, professores e lideranças socioambientais alertam que o projeto de concessão da hidrovia no Rio Paraguai, planejado pelo Governo Federal para este ano, pode acelerar a saída de água do Pantanal, intensificar secas e provocar impactos sociais e ecológicos profundos no maior sistema de áreas úmidas tropicais do planeta.

Os alertas foram reforçados nesta quarta-feira (18.02), durante uma transmissão ao vivo no programa FALA FADS!, da TV GGN, que reuniu especialistas que acompanham há décadas a dinâmica hidrológica e social da região.

A principal preocupação é que intervenções como dragagem e aprofundamento do canal alterem o funcionamento natural do rio, cuja dinâmica é essencial para manter as cheias e secas que sustentam a biodiversidade e os modos de vida locais. Segundo a pesquisadora Débora Calheiros, da Embrapa Pantanal, aprofundar trechos do rio pode modificar o fluxo da água, especialmente no período seco.

Ela explica que, em uma planície extremamente plana como o Pantanal, qualquer aprofundamento tende a acelerar o escoamento. “Isso faz com que a água seja drenada mais rapidamente do sistema, principalmente numa fase de seca que já é crítica”, disse.

Trechos da hidrovia que estão planejados (Imagem: Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental – UFPR – O Eco)

O Pantanal funciona como uma grande esponja natural, armazenando água no período de cheias e liberando lentamente na estiagem. Alterações nesse equilíbrio podem reduzir o tempo de permanência da água no bioma. A pesquisadora também afirma que a maior parte da carga prevista na hidrovia, cerca de 90%, é minério de ferro e manganês extraído na região de Corumbá (MS), transportado por poucas empresas.

Como alternativa, ela defende a reativação da ferrovia que liga Corumbá a Bauru (SP), atualmente sucateada. “Para conservar o Pantanal e tirar essa pressão absurda da navegação na seca, o ideal seria o transporte via ferrovia”, afirmou.

Para a professora Carolina Joana da Silva, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), o projeto pode alterar profundamente a função ecológica e social do rio. Segundo ela, historicamente as populações se adaptaram ao funcionamento natural do rio, mas o projeto propõe o contrário.

“As embarcações deveriam se adaptar ao rio. O que se propõe é adaptar o rio às embarcações”, disse. Ela afirma que isso pode favorecer interesses econômicos específicos e excluir comunidades tradicionais. A pesquisadora também alerta que a hidrovia pode agravar um processo já observado nas últimas décadas: o aumento da temperatura e a redução das chuvas no Pantanal.

Estudos indicam que o bioma foi o que mais aqueceu entre todos os biomas brasileiros nos últimos 40 anos. Nesse contexto, acelerar a saída da água pode intensificar o problema. “Essas águas vão ficar menos tempo no Pantanal e vão sair mais rápido”, explica. Segundo ela, isso pode afetar a segurança hídrica, a pesca e a produção de alimentos das comunidades locais.

Impactos já são percebidos por ribeirinhos

Pesquisadores e lideranças participaram do programa FALA FADS!, da TV GGN (Foto: Reprodução)

Moradores que vivem às margens do rio relatam que impactos associados à navegação já são visíveis. O educador biocultural Isidoro Salomão, que vive na região de Cáceres (a 218 km de Cuiabá), afirma que embarcações de grande porte provocam erosão nas margens. Ele relata que já viu barcaças arrancarem árvores inteiras ao fazer curvas no rio. Segundo ele, mudanças no comportamento da água também afetaram a disponibilidade hídrica em propriedades rurais.

Um poço localizado em uma propriedade sua que antes tinha 14 metros de profundidade precisou ser aprofundado para 60 metros para alcançar água. “A hidrovia não é uma ameaça futura. Ela já está prejudicando o rio e o povo ribeirinho”, disse.

Falta de estudos conclusivos preocupa cientistas

O hidrólogo Pierre Girard, pesquisador associado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), afirma que ainda há muitas incertezas sobre os efeitos da hidrovia. Aprofundar o canal aumenta a velocidade da água, o que pode alterar todo o sistema. “A questão é: qual será a dimensão desse impacto? Isso não foi claramente demonstrado”, afirmou.

Ele também afirma que um estudo contratado pelo governo federal para modelar o comportamento do rio não foi disponibilizado publicamente. Para o pesquisador, investir em uma hidrovia diante das previsões climáticas de menos chuva e mais calor pode ser um risco. “Não é o momento de tirar água mais rápido do Pantanal, é momento de conservar a água”, disse.

Prioridade para o Ministério de Portos e Aeroportos

O Governo Federal anunciou no último sábado (14.02) que pretende realizar, no segundo semestre de 2026, o primeiro leilão de concessão hidroviária do país, incluindo a hidrovia do Rio Paraguai. O investimento previsto é de R$ 63 milhões. Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, a hidrovia é estratégica para reduzir custos logísticos e ampliar a competitividade das exportações brasileiras.

O corredor conecta o Centro-Oeste aos países do Mercosul e permite o transporte de grãos, carnes e minérios. O governo também afirma que o transporte hidroviário é mais eficiente e sustentável que o rodoviário.

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