
A marca mato-grossense de cosméticos naturais Natureza Raiz, que utiliza ativos da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal em suas formulações, está ampliando sua presença fora do Brasil e já mira o mercado internacional como próximo passo de expansão. Criada a partir de uma pesquisa universitária e baseada em ingredientes da bioeconomia, neste mês a empresa foi uma das cinco selecionadas no estado para o programa Inova Amazônia Global Edition, voltado à internacionalização de negócios sustentáveis.

Fundada pela engenheira química Cecília Viveiros, formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a Natureza Raiz desenvolve desodorantes, shampoos, condicionadores e hidratantes a partir de manteigas, óleos e extratos vegetais, como cupuaçu e manga. Os insumos são adquiridos de cooperativas e cadeias produtivas ligadas à floresta, com rastreabilidade e certificações internacionais.
Entre os fornecedores estão iniciativas de diversos estados da região Norte que atuam diretamente com produtos florestais não madeireiros. No Acre, a Cooperfrutos trabalha com a extração de óleos vegetais de espécies como açaí, buriti, patauá e andiroba. Também no estado, a Coopercintra reúne agricultores familiares em torno da produção de óleo de murumuru, que busca fortalecer a economia local em uma região majoritariamente rural.
Já em Rondônia, o fornecedor é o Projeto Reca, que congrega mais de 300 famílias em sistemas agroflorestais, com produção de polpas, óleos e sementes ao longo de todo o ano. No Pará, a Natureza Raiz compra insumos de empresas como ParaOil e Amazonoil, que atuam no processamento de óleos e manteigas amazônicas, adquirindo insumos diretamente de comunidades locais.

Da academia para o mercado
A empresa nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação, Cecília enfrentou sudorese excessiva e passou a pesquisar alternativas naturais aos desodorantes convencionais, que frequentemente contêm sais de alumínio, substâncias associadas a impactos hormonais.
Ela decidiu formular seu próprio produto com matérias-primas vegetais e transformou a pesquisa em seu trabalho de conclusão de curso. O retorno positivo da banca e dos usuários incentivou a criação do negócio. “Começou como uma necessidade pessoal, mas quando vi os resultados e os benefícios dessas matérias-primas, percebi o potencial de transformar isso em uma marca”, contou em entrevista à Rede Sucuri.
Essa transição do ambiente acadêmico para o mercado, no entanto, exigiu validação constante. “A Cecília desenvolveu o know-how dentro da UFMT e, a partir desse conhecimento, viabilizou a sua linha de produtos. Ela começou esse estudo no TCC, mas não foi uma fórmula que ela desenvolveu exclusivamente ali dentro. Ela foi pivotando, melhorando e lançando no mercado”, aponta a professora Ivana Silva, diretora do Escritório de Inovação Tecnológica (EIT) da UFMT.
Presença internacional
Quatro anos depois, a empresa busca consolidar sua presença internacional, apoiada em um mercado crescente de produtos associados à sustentabilidade e à bioeconomia. De acordo com um relatório de inteligência da Global Market Insights, o mercado mundial de cosméticos naturais e orgânicos, avaliado em $42,9 bilhões em 2025, deve alcançar a marca de $68,8 bilhões até 2034. O avanço é impulsionado por uma mudança importante no comportamento de compra: dados do setor apontam que 68% dos consumidores globais priorizam produtos com fórmulas limpas (clean beauty) e livres de toxinas.
No mercado brasileiro, a marca opera com um ticket médio de aproximadamente R$130 por produto e busca equilibrar o custo elevado de insumos certificados com a competitividade em um segmento cada vez mais sensível a preço.
Segundo a fundadora, um dos principais desafios neste momento é equilibrar custos e competitividade. “É uma cadeia produtiva complexa, desde a origem até o produto final. Usamos matérias-primas certificadas e biodegradáveis, o que agrega valor, mas também exige um posicionamento claro para competir”, diz. Além disso, cada país possui legislações específicas para cosméticos, o que exige adaptações e certificações adicionais.
Apesar do desafio financeiro imposto pelo custo elevado de insumos orgânicos, o cenário joga a favor de marcas sustentáveis. Estudos compilados pela plataforma Noissue mostram que 47% dos consumidores estão dispostos a pagar um valor mais alto por itens que comprovem responsabilidade ecológica.

A estratégia de internacionalização já inclui participação em feiras e eventos no exterior. A marca esteve no Web Summit, em Lisboa, e em feiras na Bolívia e na China, além de rodadas de negócios no Paraguai e no Equador. Também participou da COP-30 em Belém, e iniciou vendas em plataformas como Mercado Livre e negocia a entrada na Amazon, além de estruturar uma filial em São Paulo para facilitar a logística.
Segundo Viveiros, os produtos despertam interesse por trazerem ativos pouco conhecidos fora do país. “São matérias-primas riquíssimas, com um trabalho diferenciado. Existe um mercado muito promissor, mas o mundo ainda conhece pouco o que está sendo desenvolvido aqui”, afirma.
A proposta da empresa se baseia na substituição de ingredientes sintéticos ou derivados do petróleo por alternativas vegetais. Em vez de óleo mineral, por exemplo, utiliza manteigas e óleos vegetais. Nos shampoos, emprega agentes de limpeza derivados do coco no lugar de substâncias como o lauril sulfato de sódio, comum em cosméticos convencionais.
Segundo a fundadora, além dos benefícios para a pele, a escolha dos insumos também reduz impactos ambientais. “A gente pensa não só no resultado para quem usa, mas também no impacto no meio ambiente. São ingredientes biodegradáveis, que não geram o mesmo acúmulo nocivo nos ecossistemas”, afirma.
A escolha do portfólio da marca mato-grossense acompanha com precisão as duas maiores fatias do mercado global de cosméticos limpos. O segmento de skincare lidera o nicho no mundo, enquanto os produtos de haircare (cuidados com o cabelo) já representam a segunda maior força, detendo 28,1% do mercado global. A busca por produtos capilares sem sulfatos ou parabenos cresce a uma taxa de 5,4% ao ano, impulsionada pelo desejo de manter a saúde dos fios sem agredir o meio ambiente.
Inova Amazônia Global Edition
A empresa foi selecionada para o Inova Amazônia Global Edition, iniciativa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O programa oferece capacitação e conexão com mercados internacionais. Além da Natureza Raiz, outras quatro empresas de Mato Grosso foram selecionadas: Brasteca Agroflorestal, Conecta Saber, Origem Compostagem e Tugani.
O foco central do projeto é a bioeconomia. O gestor do Programa Inova Biomas, Rafael Mendes, reforça a importância desse movimento para a região. “A bioeconomia é o motor que permite manter a floresta em pé e, ao mesmo tempo, gerar riqueza e desenvolvimento social. O Inova Amazônia Global Edition atua como ponte para que essas inovações locais ganhem o mundo com competitividade e sustentabilidade”.
Para Viveiros, a participação em programas desse tipo ajuda a abrir portas e consolidar a expansão. “As conexões e a capacitação são fundamentais. Não é possível crescer sozinho. Participar dessas redes fortalece o trabalho e cria oportunidades reais de internacionalização”, afirma.


