O que brigadas indígenas brasileiras ensinam para países ricos no combate a queimadas

Uma política pública baseada no conhecimento tradicional indígena ajudou a reduzir incêndios em Terras Indígenas no Brasil, aponta estudo.

(Foto: Rodrigo de Moraes Falleiro / Montagem: Rede Sucuri)

“Muitas vezes a gente pensa que tudo o que é feito nos países ricos é melhor, mas nem sempre. Estados Unidos e Europa possuem políticas de proteção contra incêndios muito contestadas”, é o que explica o engenheiro Rodrigo Falleiro, analista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Ele é um dos autores de um artigo publicado no último mês na revista científica internacional Humanities & Social que detalha a eficiência do trabalho das brigadas indígenas brasileiras nos últimos dez anos.

O estudo avalia, pela primeira vez de forma abrangente, a eficácia do Programa de Brigadas Federais (BRIFs), criado em 2013 pelo Ibama/Prevfogo com apoio da Funai, na redução de incêndios em Terras Indígenas. Os resultados mostram que, enquanto o fogo avança em áreas sem política pública estruturada, ele recua onde indígenas assumem o protagonismo do manejo.

A pesquisa analisou 42 Terras Indígenas nos biomas Cerrado e Amazônia, que somam mais de 25 milhões de hectares, comparando dados de focos de calor antes (2003–2012) e depois (2014–2023) da implementação do programa. O resultado é expressivo. Nas Terras Indígenas atendidas pelo BRIFs, houve uma redução de 22,7% no número de focos de incêndio após a criação do programa. Já nas áreas indígenas que nunca receberam o apoio das brigadas federais, o número de queimadas aumentou 12,3% no mesmo intervalo.

“A redução dos incêndios florestais nas Terras Indígenas atendidas foi significativa e impressionou os técnicos envolvidos. Isso ocorreu em um momento em que verificamos o aumento do problema no mundo inteiro, inclusive nos ecossistemas estudados neste artigo”, explica o especialista.

Ensinamentos ancestrais no manejo do fogo

Para Falleiro, um dos principais méritos do programa é a valorização do conhecimento tradicional, frequentemente recomendado por especialistas, mas pouco incorporado por países ricos. O estudo mostra, de forma inédita, que a combinação desse saber com recursos e tecnologias modernas produz resultados concretos na prevenção de incêndios. “A experiência brasileira é um exemplo de política pública inclusiva, eficaz e eficiente”, afirma.

Esse diferencial aparece no uso planejado do fogo como ferramenta de manejo, prática tradicional dos povos indígenas no cuidado do território e na produção agrícola. A abordagem contrasta com as políticas de “fogo zero”, que dominaram a prevenção ao longo do último século e que, segundo os pesquisadores, tiveram efeitos adversos sobretudo em biomas de savana, como o Cerrado.

(Foto: Rodrigo de Moraes Falleiro)

Entre as Terras Indígenas de Mato Grosso analisadas está a Santana, do povo Bakairi, em Nobres, a cerca de 120 quilômetros de Cuiabá. Com protagonismo feminino nas ações recentes, a TI registrou uma redução superior a 74% nos focos de incêndio após a implementação do programa, um dos resultados mais expressivos do Cerrado.

Entre tropeços e acertos, Brasil pode dar exemplo

Em 2025, o Brasil registrou o menor número de queimadas desde o início da série histórica do Inpe; em Mato Grosso, a queda foi de 78% em relação ao ano anterior. Segundo o especialista, a melhora só ocorreu após a substituição de anos de políticas centradas quase exclusivamente na supressão do fogo, com pouca ênfase na prevenção e forte dependência de equipes externas, sem vínculo com as comunidades nem conhecimento aprofundado dos territórios.

No sentido oposto, o agravamento da crise climática tem exposto fragilidades de modelos adotados por países ricos. Nos últimos anos, os Estados Unidos enfrentaram incêndios de grandes proporções, intensificados por secas severas, baixa umidade e ventos extremos, como os que atingiram Los Angeles e Oregon no início de 2025 e deixaram 29 mortos. Na Europa, Espanha e Portugal também registraram perdas expressivas, com cerca de 380 mil e 260 mil hectares queimados, respectivamente, no ano passado.

Para Rodrigo Falleiro, esses países ainda operam sob modelos de gestão verticalizados, em que decisões são tomadas de forma centralizada, com pouca participação das populações locais. São políticas altamente técnicas, com grande investimento em resposta emergencial, como aviões, helicópteros e brigadas especializadas, mas quase sempre acionadas quando o fogo já saiu do controle”, afirma.

O incêndio de Ponina, no Oregon, queimou ativamente em 18 de abril (Foto: Departamento Florestal do Oregon).

No Brasil, embora o Programa BRIFs também invista no combate direto, a principal diferença está na priorização da prevenção e do manejo integrado do fogo, além da contratação de brigadistas locais e do planejamento participativo com as comunidades. Segundo o pesquisador, essa combinação torna as ações mais eficazes e reduz conflitos nos territórios.

Falleiro alerta, no entanto, que os resultados dependem de continuidade. “O programa precisa de financiamento estável, ampliação e aperfeiçoamento. A substituição de investimentos de longo prazo por recursos pontuais dificulta o planejamento”, diz. Ele também ressalta que o fortalecimento da gestão ambiental nas Terras Indígenas é essencial diante de um cenário de mudanças climáticas cada vez mais severas, marcado por eventos extremos de calor e seca, que tornam muitos incêndios impossíveis de controlar.

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