Você já percebeu como a sombra de uma árvore pode alterar a sensação do seu corpo em um dia quente? Às vezes, basta dar alguns passos, sair do sol e se aproximar do verde para o corpo relaxar, a respiração desacelerar e o calor parecer menos intenso. Essas sensações fazem parte do cotidiano e, muitas vezes, são percebidas de forma intuitiva, sem que paremos para pensar que existe ciência por trás delas.
Foi justamente a partir dessas percepções que nasceu uma inquietação que me acompanha. Em uma cidade como Cuiabá, capital de Mato Grosso, onde o calor não é exceção, mas regra, por que alguns lugares são mais confortáveis do que outros? Por que certos espaços parecem “respirar”, enquanto outros acumulam calor? Em cenários de temperaturas mais elevadas, entender o conforto térmico deixou de ser uma curiosidade e passou a ser uma questão ligada à qualidade de vida.
Ao longo de pesquisas desenvolvidas durante minha Iniciação Científica no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), investigamos como a percepção das pessoas, a vegetação, a água e a forma dos espaços influenciam o conforto térmico. E, entre tantos recortes, um tipo de espaço chama atenção: os pátios.
À primeira vista, podem parecer apenas áreas simples dentro das edificações. Mas, quando olhados com mais cuidado, revelam um potencial maior. Dependendo de como são desenhados, os pátios podem ajudar a resfriar o ambiente, melhorar a ventilação e transformar a experiência térmica de quem os utiliza. Assim, deixam de ser apenas espaços de passagem, mas atuam na construção de ambientes mais confortáveis.

Para compreender melhor esse comportamento, estudamos tanto pátios reais quanto modelos simulados em computador, testando diferentes estratégias bioclimáticas – um termo que, na prática, significa pensar soluções que dialogam com o clima. Avaliamos o uso de paredes verdes, telhados vegetados, aspersores de água e diferentes arranjos espaciais, buscando entender como cada elemento interfere no ambiente.
Os resultados mostraram que pequenas mudanças podem gerar impactos na sensação térmica. Ambientes com mais vegetação e presença de água tendem a ser mais frescos e agradáveis, enquanto espaços com pouca sombra ou ventilação intensificam o desconforto. Esses achados mostram que a forma como projetamos os espaços urbanos não é neutra, pois influencia diretamente o bem-estar das pessoas.
Mas, em meio a gráficos, simulações e análises técnicas, surgiu uma inquietação que não mudou o rumo da pesquisa, mas fez nascer um novo braço dentro dela: como fazer com que esse conhecimento não ficasse restrito à universidade? Afinal, todo mundo sente calor, mas nem todo mundo tem acesso a esse tipo de informação. Foi assim que nasceu o SuperTrunfo Bioclimático, um jogo digital criado como ferramenta de educação ambiental e divulgação científica, buscando transformar resultados acadêmicos em uma experiência acessível e interativa.

O funcionamento do jogo parte de uma lógica simples. O participante escolhe cartas que representam diferentes estratégias e define um critério de comparação, como temperatura, umidade, conforto ou aspecto visual. A partir dessa escolha, um sistema automatizado revela a carta adversária, permitindo que o jogador descubra o resultado da rodada. Ao longo da partida, a pontuação é acompanhada pelo participante, mas o foco não está na competição, e sim na compreensão construída a cada escolha.
Isso porque, ao jogar, o participante começa a reconhecer padrões de forma intuitiva. Percebe que a presença de vegetação contribui para ambientes mais frescos, que a água pode auxiliar no resfriamento. Sem perceber, ele está aprendendo. Além disso, o jogo apresenta, no início, uma contextualização da pesquisa, explicando de maneira acessível a origem dos dados, além de oferecer instruções que tornam a experiência compreensível para diferentes públicos.
No final, a mensagem se torna evidente: não importa quem venceu ou perdeu, o mais importante é o que se aprende ao longo do caminho. Cada escolha mostra como a ciência pode contribuir para tornar os espaços urbanos mais frescos, sustentáveis e humanos. O verdadeiro vencedor é o conhecimento e é nele que está o potencial de transformar a forma como percebemos e construímos as cidades.
Desenvolver esse trabalho também foi compreender, na prática, o que significa fazer ciência. A iniciação científica me ensinou a pesquisar, mas também a olhar o mundo com mais atenção, a fazer perguntas e a buscar formas de compartilhar o que foi descoberto. Cada experimento, cada análise e cada momento de investigação ajudaram a mostrar que a ciência pode (e deve!) ser acessível.
Além de tudo, em um contexto de mudanças climáticas e aumento das temperaturas urbanas, compreender como o ambiente construído influencia o conforto térmico é primordial. Muitas vezes, as soluções não estão em tecnologias complexas, mas em estratégias simples, inspiradas na própria natureza, e, ao aproximar esse conhecimento das pessoas, o jogo pode inspirar novas formas de pensar, projetar e viver os espaços urbanos.
No fim, este trabalho é uma forma de reconhecer e valorizar a universidade pública como um espaço de produção de conhecimento, diversidade e transformação social. É nela que a ciência se constrói, mas é também a partir dela que esse saber precisa circular. Talvez, depois dessa leitura, você passe a perceber a cidade de outra forma: a reparar nas árvores, na sombra, no vento, na presença (ou ausência) de água. Pequenos elementos que, silenciosamente, moldam o que sentimos, mesmo sem que a gente perceba.
Produzir ciência é importante, mas torná-la acessível é essencial. E, às vezes, tudo pode começar de um jeito simples, como um jogo.
Ficou curioso para jogar? Acesse o SuperTrunfo Bioclimático e descubra, na prática, como a ciência pode transformar a forma como percebemos o clima das cidades.
Gabriela Kehrwald Nunes é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde atuou como bolsista de Iniciação Científica do CNPq entre 2023 e 2025, sob orientação do Prof. Dr. Ivan Julio Apolonio Callejas. Foi vencedora do Prêmio Severino Meirelles de Melhor Trabalho de Iniciação Científica (2024) e agraciada com Láurea Universitária ao concluir a graduação. Desenvolve pesquisas na área de conforto ambiental e clima urbano, com foco em estratégias bioclimáticas aplicadas a pátios e espaços abertos em regiões de clima tropical, além de possuir interesse em arquitetura da paisagem e infraestrutura verde.
A seção Leia 1 Cientista reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), incluindo docentes, técnicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A seção é editada pela equipe do Programa de Comunicação Pública da Ciência da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ/UFMT) e conta com a parceria da Rede Sucuri. Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores e autoras e não representam, necessariamente, a posição institucional da PROPESQ/UFMT.

